Cannabis medicinal na veterinária avança com protocolo clínico, ciência e regulamentação
Avanço das pesquisas e marco regulatório consolidam uso da planta no tratamento de cães e gatos
por Gabriel Sartini em
e atualizado em
O uso terapêutico da cannabis em cães e gatos deixou de ser um tema de nicho para se tornar parte do vocabulário clínico da medicina veterinária brasileira. O que há poucos anos era tratado com desconfiança, tanto por parte de tutores como de profissionais, hoje ganha respaldo científico crescente e, mais recentemente, também reconhecimento institucional.
A combinação entre avanço das pesquisas sobre o sistema endocanabinoide dos animais e a formalização regulatória da área sinaliza uma mudança de status de terapia alternativa para ferramenta legítima dentro do arsenal terapêutico do médico veterinário.
Dois movimentos foram fundamentais para esse novo passo no tratamento dos pets. O primeiro foi a inclusão da prescrição veterinária de canabinoides na Portaria 344 do Conselho Federal de Farmácia (CFF), que colocou veterinários ao lado de médicos e odontologistas na autorização para prescrever produtos à base de cannabis. O segundo ponto foi o recente reconhecimento, pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), da endocanabinologia veterinária como especialidade formal, com autorização de curso para certificação de especialista na área.
Ciência e segurança sustentam avanço da endocanabinologia veterinária
Para Bruno Perozzo, que integra a comissão científica da Expo Cannabis e a comissão técnica de endocanabinologia veterinária do CRMV-SP, o aumento da prescrição para pets acompanha uma trajetória que já dura quase uma década. “É um tema com o qual lidamos há cerca de oito anos e que ganhou corpo após o boom de prescrição para a medicina humana”, explica.
O especialista descreve também uma mudança perceptível no comportamento dos tutores. Se antes a proposta de um tratamento à base de canabinoides esbarrava em resistência e preconceito, hoje o cenário se inverteu. Muitos tutores chegam ao consultório já perguntando sobre a possibilidade da prescrição. Reflexo, segundo Perozzo, da maior circulação de informação qualificada sobre o tema.
Na prática clínica, quatro linhas de indicação concentram a maior parte da evidência científica disponível – tratamento oncológico de suporte, epilepsia, dor crônica e distúrbios comportamentais.
“Isso não retira a possibilidade de trabalhar com outras vias, como problemas inflamatórios, intestinais, neurológicos, mas onde a gente tem mais produção robusta de ciência são nessas quatro linhas”, pontua. Perozzo destaca ainda que os resultados obtidos com canabinoides, comparados aos fármacos alopáticos tradicionais, têm se mostrado consistentes, seja como terapia isolada, seja combinados a protocolos multidisciplinares.
Resultados práticos comprovam eficácia do tratamento
O embasamento técnico já encontra resultados práticos que expõem os benefícios desse tratamento na medicina veterinária. É o caso do cão Nero, que passou por uma cirurgia ortopédica de grande porte e teve o óleo de cannabis incorporado ao protocolo terapêutico do pós-operatório, auxiliando no controle da dor, no manejo da inflamação e no conforto durante a recuperação.
A história de Nero não terminou com a alta hospitalar. O animal ainda segue em tratamento para manejo de dor crônica, vivendo com mais mobilidade e disposição.
Casos como este não são exceção dentro da rotina de clínicas que trabalham com o tratamento. Cães e gatos com dor crônica, ansiedade, quadros convulsivos e condições relacionadas ao envelhecimento compõem parcela significativa dos pacientes.
Especialização reconhecida e autorizada pelo CRMV
A Associação Medicinal de Endocanabinologia Veterinária (AMEC-VET) abriu as inscrições para a certificação do Título de Especialista em Endocanabinologia Veterinária (TEEV), com edital publicado no Diário Oficial da União e inscrições abertas até 13 de janeiro de 2027.
A abertura do processo só foi possível porque a AMEC-VET foi habilitada pelo CFMV a conceder o título, decisão aprovada na 407ª Sessão Plenária Ordinária do órgão e oficializada pela Resolução nº 1.705, publicada em 2 de julho de 2026.
Com isso, a entidade passa a integrar o grupo de instituições autorizadas a certificar especialistas, seguindo os critérios estabelecidos pela Resolução nº 1.572/2023, o que inclui uma prova teórica obrigatória e eliminatória, além de outras etapas previstas em edital. Os títulos concedidos terão validade de cinco anos, com necessidade de renovação junto à própria entidade.
Para a presidente do CFMV, Ana Elisa Almeida, a habilitação de entidades para conceder títulos de especialista fortalece a profissão ao estabelecer critérios técnicos nacionais e incentivar a formação continuada. “É uma forma de incentivar a formação continuada, promover a excelência no exercício profissional e oferecer mais segurança à sociedade”, afirma.
A endocanabinologia veterinária, como especialidade, dedica-se ao estudo do sistema endocanabinoide dos animais e às suas aplicações clínicas, reunindo conhecimento voltado ao diagnóstico, ao manejo terapêutico e à atualização técnico-profissional de médicos-veterinários.