Adote Vica muda a lógica da adoção no Brasil
Nem ONG, nem pet shop. Modelo de negócio já beneficiou 20 mil animais e atrai investidores em São Paulo
por Gabriel Sartini em
O mercado pet brasileiro começa a ver surgir modelos inovadores que desafiam conceitos tradicionais. Um dos exemplos mais emblemáticos é o da Adote Vica, centro de reabilitação e adoção de cães e gatos localizado nos Jardins, em São Paulo (SP). Diferentemente da lógica predominante no país, baseada em ONGs e doações, a empresa aposta em um modelo privado que concilia sustentabilidade financeira e impacto social.
Fundado em 2017 pelo casal Marcos Vieira e Amanda Senna Vieira da Cunha, o negócio nasceu de forma pouco convencional. “Frequentávamos um pet shop com nossos cachorros no bairro da Vila Madalena e, quando ele foi colocado à venda, decidimos investir”, relembra Marcos.
No início, eles atuavam com venda de filhotes subsidiados por uma grande franquia. Insatisfeitos com os resultados e com o modelo de contrato, seis meses depois decidiram encerrar a operação, mas aproveitaram a estrutura para iniciar um projeto de adoção de animais. Assim surgiu o embrião do Adote Vica, nome inspirado em seus dois buldogues – Vito e Carmela.
Ainda nos primeiros meses, o modelo era simples. Cães e gatos eram encaminhados por ONGs já castrados e vacinados. A receita era oriunda da taxa de adoção e da venda dos enxovais para os tutores de primeira viagem. Com a criação das redes sociais e a divulgação constante dos animais disponíveis para adoção, a operação cresceu rapidamente.
Com o aumento da concorrência de grandes redes de pet shop, com variedade maior e condições de pagamento mais flexíveis, a venda de “enxovais” passou a ser mais difícil e a operação beirava o insustentável. “As ONGs começaram a mandar cachorros doentes e sem castrar. Tínhamos que assumir os custos de reabilitar esses animais para terem condições de adoção e resolvemos precificar melhor o negócio”, explica Marcos.
Mudança de posicionamento e guinada nas operações
A partir daí, a Adote Vica deixou de se posicionar apenas como um intermediador de adoções e passou a atuar como um centro completo de reabilitação animal. As despesas com exames, tratamentos e cirurgias, passaram a ser direcionadas para o adotante.
Em 2023, parte do negócio foi adquirida por um hospital veterinário e, com isso, a sede mudou para o bairro Jardins, um dos mais nobres de São Paulo. Hoje, o espaço abriga até 60 cães e 20 gatos em um espaço de 700 m² com centro cirúrgico, consultório veterinário, banho e tosa e loja.

São 28 colaboradores, entre veterinários, equipe operacional e administrativa. A estrutura permite realizar mais de 200 adoções por mês, com cerca de 20 mil animais adotados desde a fundação. Todos são testados antes da entrada, com direito a rotinas intensivas de higienização e acompanhamento constante de órgãos reguladores, entre os quais a Vigilância Sanitária e o Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-SP).
Subsídio cruzado: a “beleza do negócio”
Com um fluxo crescente de adoções, a empresa tornou-se uma solução para ONGs e protetores da causa animal, mas também atraiu canis humanizados e regularizados. “Após três anos, os canis não querem mais usar os cachorros para reprodução e hoje encaminham as matrizes para serem adotadas conosco, com a segurança de que a Vica vai castrar e encaminhar para adoção”, destaca.
Hoje, a Adote Vica atua com os cães de raça vindos desses canis e com vira-latas, e o modelo de ‘subsídio cruzado’ passou a sustentar o negócio. Enquanto cães de raça chegam, em geral, sem castração e demandam procedimentos mais caros, os vira-latas vindos de ONGs costumam já estar castrados.
Assim, parte da receita gerada com a adoção de animais de raça ajuda a financiar os custos dos demais. Na prática, quem escolhe um cão de raça também contribui para viabilizar a adoção de um vira-lata. “Essa é a beleza do negócio”, resume Marcos.
Quanto custa adotar um cão na Adote Vica?
A taxa de adoção para todos os animais é de R$ 705, valor que contempla microchip, hemograma completo, vermífugo, antipulgas e uma consulta veterinária. Já a castração sai por R$ 2.750 pela necessidade de anestesia inalatória.
Além da adoção, a empresa gera receitas complementares. Para cada R$ 100 mil faturados com serviços ligados à adoção, cerca de R$ 15 mil adicionais vêm da venda de produtos, principalmente com itens de farmácia veterinária. Parcerias com marcas também ganharam relevância, incluindo acordos com empresas de alimentação pet, que fornecem ração para os animais e ganham visibilidade junto à audiência do projeto.
Esse alcance, aliás, é outro ativo importante da empresa. Com mais de 680 mil seguidores no Instagram e dezenas de milhões de visualizações mensais, o Adote Vica transformou sua operação em uma plataforma de mídia capaz de conectar marcas ao público interessado em adoção e bem-estar animal.
De olho em fusões O próximo passo da empresa envolve expansão e consolidação. A busca é por fusões ou parcerias com redes de pet shop, com o objetivo de escalar o modelo e integrar a adoção a um ecossistema mais amplo.