China Vet Connection 2026 em Xangai: tecnologia, mercado e uma nova visão da China
Experiência em Xangai aproximou profissionais brasileiros da inovação, da medicina veterinária e da cultura de negócios de um dos maiores mercados do mundo
por Marco Antonio Gioso em
A China Vet Connection 2026, realizada pela VetCoaches, por meio do VetSolution e da Íntegra Health, reuniu um grupo de 25 profissionais e empresários ligados à medicina veterinária em uma missão internacional por Xangai e Pequim. O grupo foi capitaneado pelo professor Marco Gioso, médico- veterinário há quase 40 anos.
Foram duas cidades e duas perspectivas complementares de um mesmo país. Xangai colocou o grupo diante da força tecnológica, empresarial e inovadora da China, enquanto Pequim aprofundou a imersão por meio do conhecimento acadêmico, da medicina veterinária, da história e de elementos fundamentais da cultura chinesa.
Pela dimensão do que foi vivido, a experiência será apresentada em dois artigos. Este primeiro é dedicado a Xangai; o segundo abordará Pequim e a consolidação das relações e dos aprendizados construídos ao longo da missão.
A organização da viagem contou com a Terramundi, agência responsável pelo suporte turístico e logístico ao grupo. Mais do que cumprir uma programação internacional, porém, a China Vet Connection teve como propósito ampliar referências. E isso começou a acontecer praticamente desde a chegada.
Conhecer para poder formar uma opinião
A China é um país sobre o qual quase todos já possuem alguma opinião antes mesmo de conhecer. Com este grupo não foi diferente. Experiências semelhantes promovidas nos Estados Unidos e na Europa já haviam mostrado que profissionais expostos a outros mercados retornam com mais repertório. Na China, essa mudança foi particularmente evidente. Abrir a mente não significa concordar com tudo aquilo que se encontra, mas sim conhecer o suficiente para questionar as próprias certezas.
A experiência presencial trouxe outra perspectiva. Ao longo da missão, os participantes tiveram contato direto com empresários, veterinários, professores, pesquisadores, executivos e profissionais chineses, além de intensas trocas de ideias com os excelentes guias que acompanharam o grupo.
Entraram em hospitais, empresas e instituições, participaram de reuniões, compartilharam refeições e tiveram a oportunidade de conversar com pessoas que vivem e trabalham no país.
Essa convivência tornou-se tão importante quanto algumas das próprias visitas técnicas. Não por produzir uma visão idealizada da China, mas por substituir parte das referências indiretas pela experiência própria. Essa é uma das razões pelas quais as missões internacionais possuem tanto valor no desenvolvimento profissional.
Xangai e a entrada no ecossistema veterinário chinês
A programação em Xangai foi construída para que os participantes não conhecessem apenas empresas isoladas, mas diferentes partes do ecossistema veterinário.
Uma das visitas técnicas ocorreu no Ruichen Pet Hospital, permitindo ao grupo observar de perto uma estrutura inserida no processo de desenvolvimento e consolidação da medicina veterinária chinesa. O material preparado para a missão já destacava a oportunidade de conhecer infraestrutura hospitalar, equipamentos, atendimento, organização e a evolução da área no país.
Para profissionais brasileiros, esse contato possui um valor que ultrapassa qualquer comparação superficial entre instalações. Uma visita técnica permite observar como outra organização resolveu problemas que também existem no Brasil: estrutura do atendimento, utilização dos espaços, incorporação tecnológica e integração das especialidades — incluindo a Medicina Tradicional Chinesa. Também permite analisar o fluxo hospitalar, a experiência oferecida ao tutor e a maneira como organizações maiores estruturam suas operações.
Cada observação se transforma em referência, inclusive porque os diretores se dispuseram a detalhar os KPIs de suas empresas, permitindo que o grupo avançasse para além da observação visual e compreendesse aspectos concretos de gestão, desempenho e operação.
Babitang e a visão de escala
Outro contato importante foi com o Hospital Veterinário Babitang. O interesse da visita também estava relacionado à estrutura empresarial por trás da operação veterinária.
Para empresários que administram hospitais e clínicas no Brasil, observar organizações inseridas em redes maiores permite discutir temas que vão muito além da veterinária: escalabilidade, gestão, padronização, especialidades, processos, expansão, estrutura organizacional, qualidade assistencial, experiência do cliente e tecnologia.
A medicina veterinária mundial vive um processo de profissionalização e consolidação, e conhecer como esse movimento ocorre em outros mercados aumenta a capacidade de compreender o que poderá acontecer também no Brasil. Esse é o sentido do benchmarking promovido pela missão.
Não se tratava de encontrar uma fórmula chinesa para reproduzir no Brasil, mas de conhecer mais uma forma de organizar a medicina veterinária. Quanto maior o número de modelos conhecidos, maior a capacidade de construir soluções próprias.
United Imaging Healthcare: entrando onde a tecnologia é criada
Entre os momentos de maior impacto técnico em Xangai esteve a visita à United Imaging Healthcare (UIH).
Para profissionais da saúde, há uma grande diferença entre utilizar uma tecnologia e conhecer o ambiente industrial no qual ela é desenvolvida. Tomografia computadorizada, ressonância magnética, PET/CT, PET/MR, raios X e outras tecnologias avançadas de diagnóstico por imagem, no ambiente hospitalar, são instrumentos diagnósticos. Dentro de uma indústria tecnológica, porém, passam a ser compreendidos como resultado de uma cadeia muito mais ampla, que envolve pesquisa, engenharia, desenvolvimento, produção, controle, software, inovação, escala industrial e estratégia.
O roteiro da missão destacava justamente a oportunidade de compreender de onde vêm os equipamentos utilizados na medicina e na medicina veterinária e conhecer a escala e o ritmo de inovação da indústria chinesa.
A visita ampliou o olhar dos participantes. O equipamento deixou de ser visto apenas por sua função e passou a representar todo um ecossistema de conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Para gestores e empresários, esse tipo de experiência pode mudar inclusive a forma de avaliar investimentos futuros.
Pet Fair Asia: muito além de uma feira
A Pet Fair Asia foi outro importante eixo profissional da etapa em Xangai. Foram dois dias destinados à exploração de um evento de grandes proporções, reunindo diferentes segmentos da indústria pet mundial.
Segundo os dados apresentados ao grupo, a feira reunia mais de 2.600 expositores, aproximadamente 320 mil metros quadrados de exposição e mais de 350 mil visitantes, provenientes de dezenas de países.
Mas a relevância de uma feira dessa magnitude não pode ser medida apenas em metros quadrados ou número de estandes. O valor estava no acesso a fabricantes, novas tecnologias, fornecedores, equipamentos, produtos, pessoas que tomam decisões e, sobretudo, àquilo que pode estar chegando ao mercado nos próximos anos.
Para os 25 integrantes da China Vet Connection 2026, a feira não tinha uma única finalidade. Cada participante possuía interesses diferentes. Alguns buscavam tecnologia, outros observavam equipamentos hospitalares, e havia ainda aqueles interessados em produtos, diagnóstico, nutrição, serviços e inovação.
Surgiram ainda conversas sobre distribuição, importação, representação comercial e possíveis parcerias entre empresas brasileiras e chinesas. Durante a rodada de negócios, o professor Gioso foi procurado por diversas empresas, incluindo companhias bilionárias, interessadas em desenvolver negócios na América Latina.
Isso transforma completamente a experiência. O participante deixa de caminhar por uma feira apenas perguntando “o que é isso?” e passa a questionar: “isso poderia funcionar no Brasil? Existe mercado? Quem produz? Como é distribuído? Existe possibilidade de parceria? Que problema isso resolve?”
É nessa mudança de pergunta que uma feira internacional se transforma em ferramenta de desenvolvimento empresarial.
Cultura empresarial: entender o relacionamento antes do contrato
Outro aprendizado importante aconteceu fora dos ambientes estritamente técnicos.
A convivência com anfitriões chineses permitiu ao grupo observar uma dimensão fundamental da cultura local: a importância das relações pessoais na construção de confiança.
A recepção oferecida pela Yoülan foi um exemplo marcante. Mais do que um jantar, representou um momento de aproximação entre profissionais e empresários de diferentes países. O grupo experimentou formas de hospitalidade, cortesia e relacionamento que ajudam a compreender melhor como vínculos profissionais são construídos na China. Os próprios participantes deram depoimentos nos quais destacaram a experiência de um jantar excepcional, de gala, marcado pelo cuidado dedicado à recepção.
Para quem pretende estabelecer relações comerciais internacionais, essa experiência é relevante. Conhecer um produto não significa conhecer um mercado, assim como conhecer preços não significa compreender uma negociação.
Mercados são formados por pessoas, e pessoas carregam códigos culturais. A maneira de receber, a forma de apresentar, o respeito à hierarquia, a construção gradual de confiança, o valor da refeição compartilhada e o tempo destinado à relação antes da transação também fazem parte dos negócios.
Por essa razão, a dimensão cultural da China Vet Connection não foi acessória à missão técnica. Ela foi parte da formação empresarial.
A cultura percebida no cotidiano
Também houve aprendizado simplesmente observando a vida ao redor.
Uma cidade como Xangai coloca lado a lado modernidade, densidade urbana, tecnologia, tradição, comércio e uma dinâmica social que dificilmente pode ser compreendida apenas por relatos externos.
Os participantes puderam conversar com moradores e profissionais e observar uma sociedade diferente daquela que muitos imaginavam antes da viagem. Algumas ideias começaram, naturalmente, a ser revistas.
Não era necessário concluir que tudo estava certo ou errado. O aprendizado mais relevante estava em perceber que uma sociedade com mais de um bilhão de habitantes não cabe em explicações simples.
A experiência direta tornou a visão mais complexa. E maior complexidade normalmente também significa maior maturidade.
O grupo também se tornou parte da experiência
Uma missão como a China Vet Connection não é formada apenas pelos lugares visitados. O próprio grupo produz conhecimento.
Eram 25 profissionais e empresários com experiências, especialidades, empresas e maneiras diferentes de enxergar aquilo que estava sendo apresentado. Enquanto uma pessoa observava gestão, outra enxergava tecnologia. Uma identificava uma oportunidade comercial, outra fazia uma leitura clínica. Uma percebia um produto, outra questionava um processo, e outra imaginava uma aplicação no Brasil.
Nas conversas após as visitas, essas percepções se cruzavam. Assim, uma mesma visita podia produzir dezenas de aprendizados diferentes.
Essa troca entre os próprios participantes tornou-se um componente importante da missão.
Por que as viagens profissionais transformam
A VetCoaches já havia observado esse fenômeno em experiências realizadas nos Estados Unidos e na Europa: profissionais voltam diferentes, não porque recebem uma resposta definitiva sobre como administrar seus negócios, mas porque retornam com mais referências para tomar decisões.
Um gestor que conhece apenas sua própria realidade compara tudo com ela. Um gestor que conhece hospitais e empresas em diferentes países possui um repertório muito maior.
Isso vale para gestão, medicina, tecnologia, atendimento, cultura empresarial e também para a própria visão de mundo.
Xangai mostrou isso de maneira muito clara.
O primeiro resultado: querer conhecer mais
Ao final da primeira etapa, o grupo já acumulava experiências em hospitais veterinários, indústria tecnológica, feira internacional, encontros empresariais e convivência com profissionais chineses.
Os depoimentos eram bastante positivos. Surgiam discussões sobre oportunidades, os contatos começavam a produzir novas conversas e novas possibilidades comerciais eram identificadas. E, principalmente, aparecia um desejo comum: conhecer mais.
Esse talvez seja um dos melhores resultados de uma missão de desenvolvimento: não produzir a sensação de que tudo foi aprendido, mas a percepção de quanto ainda existe para aprender.
Xangai apresentou uma China tecnológica, empresarial, veterinária e cultural muito mais complexa do que aquela que cabia nas referências anteriores de muitos participantes.
A China Vet Connection seguiria então para Pequim. E, se Xangai havia começado a mudar percepções, Pequim aprofundaria essa transformação.
O próximo encontro seria com a universidade, a medicina veterinária acadêmica, a história e algumas das bases culturais que ajudam a explicar a China contemporânea.
A primeira metade da missão ampliou horizontes. A segunda ajudaria a compreender por que abrir a mente é parte essencial do crescimento profissional.