Petz-Cobasi ganha escala, mas enfrenta desafios com marcas próprias e e-commerce
Fusão projeta até R$ 260 milhões em sinergias anuais, enquanto marcas próprias e avanço do e-commerce criam novos desafios para o grupo
por Gabriel Sartini em
A formação do Grupo Petz-Cobasi amplia a escala de negociação da companhia com fornecedores e cria espaço para redução de custos, mas também aumenta a disputa dentro da própria cadeia pet. Segundo análise do Itaú BBA, a empresa pode capturar entre R$ 200 milhões e R$ 260 milhões em sinergias anuais de EBITDA recorrente, enquanto o avanço das marcas próprias e a concorrência dos marketplaces colocam pressão sobre margens, fornecedores e lojas físicas.
O banco retomou a cobertura da companhia com recomendação Outperform, indicando expectativa de desempenho acima da média do mercado. O preço-alvo estabelecido é de R$ 4,70 por ação para o fim de 2027, contra preço de referência de R$ 3,56, o que representa potencial de valorização de 32%.
A análise foi produzida pelos especialistas de varejo e consumo Rodrigo Gastim, Vinicius Pretto e Victor Rogatis.
Escala deve concentrar os principais ganhos da fusão
A captura das sinergias está diretamente relacionada à integração das duas operações. Cerca de 80% dos R$ 200 milhões a R$ 260 milhões estimados deverá vir da redução de custos e despesas.
Entre as frentes consideradas estão a unificação de contratos com fornecedores comuns às duas empresas, otimização logística, centralização de escritórios e racionalização de abertura de lojas físicas.
A semelhança entre os formatos das duas redes pode facilitar a integração. As operações apresentam características próximas em lojas, processos e categorias, reduzindo parte da complexidade operacional associada à fusão.
Os analistas do Itaú BBA ponderam, porém, que operações de M&A apresentam risco de execução. Segundo eles, a experiência corporativa registra mais casos de “deseconomias de escala” do que situações em que todas as sinergias previstas são efetivamente capturadas.
A cultura organizacional também aparece como variável difícil de mensurar. “Apenas o tempo dirá o quão bem-sucedida será a integração”, garante Pretto, embora considere que a proximidade entre os negócios deve reduzir a complexidade da operação.
Marcas próprias aumentam margem e tensionam relação com fornecedores
A estratégia de marcas próprias adiciona outro componente à relação entre varejo e indústria. De acordo com o Itaú BBA, o Grupo Petz-Cobasi intensificou os investimentos nessa categoria e seus produtos apresentam margens brutas cerca de 5 a 10 pontos percentuais superiores às marcas de terceiros.
Para a companhia, a ampliação desse portfólio pode melhorar a composição da margem bruta. Para fabricantes, principalmente de alimentos pet premium, o movimento pode representar uma mudança na relação comercial com um dos principais canais especializados do país.
A avaliação dos analistas é direta: a marca própria é uma “faca de dois gumes”. A maior rentabilidade beneficia o resultado consolidado, mas pode criar tensão com fornecedores cujos produtos passam a disputar espaço com itens desenvolvidos pelo próprio varejista.
E-commerce pressiona economia das lojas físicas
O segundo desafio apontado pelo Itaú BBA está nos canais digitais. A natureza de boa parte dos produtos pet favorece a comparação de preços, especialmente em categorias como alimentos e higiene, que são predominantemente padronizadas e não perecíveis.
Os consumidores conseguem comparar ofertas entre diferentes canais, enquanto marketplaces podem concentrar esforços em categorias de maior valor e com maior facilidade de envio. “A concorrência online continua sendo um risco estrutural importante”, afirma Gastim.
Para o grupo, a consequência está na pressão sobre a economia unitária das lojas físicas, já que a estrutura de pontos de venda precisa competir com canais digitais que trabalham com outra configuração operacional.
O avanço de plataformas como o Mercado Livre amplia esse cenário competitivo. A disputa deixa de envolver apenas redes especializadas e passa a incluir grandes canais digitais capazes de comparar preços e direcionar ofertas para categorias específicas.
Receita pode superar R$ 8 bilhões em 2028
A escala projetada pelo Itaú BBA também aparece nas estimativas de receita líquida. Para 2026, a projeção é de R$ 7,101 bilhões, subindo para R$ 7,504 bilhões no ano seguinte e atingindo R$ 8,025 bilhões em 2028.
O EBITDA projetado é de R$ 737 milhões em 2026 e R$ 806 milhões em 2027. A evolução desses indicadores está relacionada, na avaliação apresentada, à capacidade de a companhia transformar a integração em ganhos operacionais e financeiros.
A geração de caixa é outro ponto favorável destacado pelo banco. Os analistas afirmam que a melhora no fluxo de caixa livre sustenta a recomendação de Outperform e oferece proteção em um ambiente de menor liquidez no mercado acionário brasileiro.
O relatório não apresenta um percentual consolidado de market share do Grupo Petz-Cobasi. A análise classifica a companhia como resultado da união das duas maiores varejistas pet especializadas do país em faturamento e escala, mas não informa a participação percentual que a empresa passa a deter no mercado brasileiro.