Brasil tem 228 mil médicos veterinários, mas distribuição varia entre estados
País apresenta forte concentração regional e diferenças de até sete vezes na relação entre população e médicos veterinários
por Gabriel Sartini em
O Brasil tem 228.167 médicos-veterinários atuantes, mas a distribuição desses profissionais pelo território nacional revela um mercado bastante heterogêneo. É o que mostra o Mapa dos Médicos-Veterinários do Brasil 2026, elaborado pelo PetBioID a partir de dados do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), cruzados com estimativas populacionais e da população de cães e gatos.
Para o especialista e mentor de negócios Carlos Fabbro, o número absoluto de profissionais é apenas o ponto de partida para entender a estrutura veterinária brasileira. “O número impressiona, mas sua distribuição territorial conta uma história ainda mais interessante”, afirma o especialista.
Os dados mostram que São Paulo concentra 63.128 médicos-veterinários, seguido por Minas Gerais (28.102), Paraná (18.963), Rio Grande do Sul (18.769) e Rio de Janeiro (16.635). Juntos, os cinco estados reúnem 63,8% dos profissionais atuantes no país.
A concentração acompanha, em grande medida, fatores como população, atividade econômica, presença de universidades, produção animal e estrutura do mercado. Entretanto, olhar somente para o número absoluto de profissionais pode esconder diferenças importantes entre os territórios.
Densidade veterinária varia até sete vezes entre os estados
Quando o número de médicos-veterinários é comparado à população humana, o cenário muda. Mato Grosso do Sul apresenta a maior densidade, com aproximadamente 456 habitantes por veterinário, enquanto São Paulo registra 730 e Rio de Janeiro, 1.035.
No outro extremo estão estados como Ceará, com 2.060 habitantes por profissional; Maranhão, com 3.050; e Amapá, com 3.375. A diferença entre os extremos chega a aproximadamente sete vezes.
Fabbro ressalta, porém, que o indicador não pode ser interpretado isoladamente. “Isso não significa automaticamente excesso ou falta de profissionais, mas mostra como a densidade veterinária varia pelo território brasileiro”, explica.
A ressalva é importante porque a medicina veterinária possui uma atuação ampla. Os profissionais trabalham em clínicas e hospitais, mas também em produção animal, inspeção de alimentos, laboratórios, indústria, pesquisa, universidades e saúde pública.
Onde estão os pets?
A análise ganha outra dimensão quando os dados dos profissionais são cruzados com a população de cães e gatos. O levantamento estima 62 milhões de cães e 31 milhões de gatos no Brasil em 2025, totalizando 93 milhões de animais dessas espécies.
Na média nacional, são aproximadamente 407 cães e gatos para cada médico veterinário atuante. Mas a relação muda significativamente entre os estados.
O Ceará apresenta a maior relação entre população pet e profissionais, com 822 pets por veterinário, seguido por Maranhão (1.130), Bahia (775), Pará (760) e Pernambuco (700). No outro extremo, Mato Grosso do Sul registra 226 pets por profissional, enquanto Rio Grande do Sul tem 243 e Paraná, 258.
É justamente esse cruzamento que, segundo Fabbro, acrescenta uma nova camada à leitura do mercado. “Ao cruzarmos população pet, população humana e veterinários, surge uma nova camada de inteligência – onde existe maior ou menor relação entre a população animal estimada e a presença desses profissionais”, afirma.
Uma relação elevada entre pets e veterinários não significa, automaticamente, ausência de atendimento ou oportunidade clínica, assim como uma relação menor não representa necessariamente excesso de profissionais.
“O indicador ‘pets por médico-veterinário’ deve ser entendido como uma referência territorial, e não como uma medida direta da capacidade clínica disponível”, explica Fabbro.
Isso porque os 228 mil profissionais não atuam exclusivamente na clínica de cães e gatos. A distribuição regional dos veterinários precisa ser compreendida também a partir da diversidade de funções exercidas pela profissão.
Uma profissão que vai além da clínica
O veterinário está presente em diferentes etapas da cadeia de produção e consumo, da prevenção e diagnóstico de doenças ao controle sanitário, inspeção de alimentos, desenvolvimento de medicamentos e produtos, pesquisa e saúde pública.
Na indústria, essa presença inclui áreas como pesquisa e desenvolvimento, assuntos regulatórios, marketing e vendas, além do desenvolvimento de alimentos, medicamentos, dermocosméticos, equipamentos e outros produtos destinados aos animais.
Essa amplitude também ajuda a explicar o papel estratégico da profissão para além do atendimento clínico. O veterinário participa de atividades que conectam saúde animal, saúde humana e meio ambiente, colocando a categoria no centro do conceito de Saúde Única.
“Ele é um dos profissionais que assume uma posição de destaque dentro desse conceito”, afirma Lidia Brancaccio, diretora de desenvolvimento organizacional e humano da Chemitec Agro-Veterinária.
Segundo ela, a atuação profissional ultrapassa o atendimento clínico. “Cada vez mais, o médico veterinário amplia o seu escopo de atuação, avançando em diferentes frentes”, destaca.
Essa diversificação faz com que os números do Mapa sejam relevantes para compreender a estrutura de uma atividade profissional que se conecta a diferentes segmentos da economia e da cadeia pet e veterinária.
Por trás dessa dimensão estrutural, existe também um desafio relacionado às próprias condições de trabalho e ao impacto emocional da atividade.
O desafio invisível: cuidar de quem cuida
A valorização da profissão passa por uma dimensão menos visível: a saúde mental dos profissionais. Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Veterinary Sciences, com 1.992 veterinários brasileiros, identificou que 32,8% apresentaram níveis elevados de sofrimento psicológico.
Para a psicóloga Juliana Sato, especialista em luto, vínculo humano-animal e saúde mental, o veterinário precisa lidar simultaneamente com diferentes demandas emocionais.
“O veterinário não lida apenas com protocolos, diagnósticos e tratamentos. Frequentemente precisa comunicar más notícias, acompanhar processos de adoecimento, participar de decisões de fim de vida e, ao mesmo tempo, acolher responsáveis que estão enfrentando a possibilidade ou a concretização de uma perda”, explica.
Para a psicóloga, atuar entre o papel técnico e o acolhimento emocional exige cuidados especiais. “Essa alternância constante exige muito do profissional e pode fazer com que ele deixe as próprias emoções em segundo plano”, completa a profissional.
Juliana também reforça que o cuidado com a saúde mental do veterinário deve ser parte da prática profissional. “Quando o profissional encontra recursos para reconhecer seus limites, elaborar as perdas e buscar apoio, ele também consegue oferecer um cuidado mais consistente ao responsável e ao animal”, conclui a profissional.