Acidente em Brasília reforça debate sobre prevenção no trabalho veterinário
Caso ocorrido em Brasília reacende discussão sobre prevenção, gestão de riscos e dois projetos que tratam de insalubridade e periculosidade
por Gabriel Sartini em
e atualizado em
A morte da médica-veterinária Vitória Valle de Oliveira Pinha, de 36 anos, após um acidente envolvendo um cão de trabalho do Senado Federal, em Brasília (DF), colocou a segurança do trabalho na Medicina Veterinária novamente em evidência. Enquanto as autoridades investigam as circunstâncias do caso, a tragédia retoma o debate sobre prevenção e proteção profissional.
Do atendimento a animais de companhia ao manejo de grandes animais e espécies silvestres, a exposição varia conforme a atividade. Podem estar presentes riscos biológicos, químicos, físicos, ergonômicos e de acidentes, além de situações de violência em atividades de inspeção e fiscalização.
Gestão de riscos começa antes do atendimento
Para o médico-veterinário e assessor técnico do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), Fernando Zacchi, a prevenção depende do reconhecimento das particularidades de cada ambiente profissional.
“Há colegas trabalhando diariamente com animais de grande porte, animais selvagens, em resgate em locais de difícil acesso, com agentes diversos em laboratórios ou expostos à violência em atividades de inspeção e fiscalização. São ambientes diferentes e cada um apresenta riscos que precisam ser identificados, prevenidos e gerenciados”, afirma.
No trabalho direto com animais, a avaliação deve considerar fatores como espécie, porte, comportamento, dor, medo, estresse, condição de saúde, ambiente e histórico do paciente. A finalidade para a qual o animal é mantido ou treinado também pode influenciar sua resposta ao manejo.
A escolha das técnicas de contenção e a organização do procedimento precisam acompanhar essas variáveis. Dependendo da situação, podem ser necessários equipamentos específicos, apoio de outros profissionais ou mudanças no ambiente antes do atendimento.
“A contenção não pode ser pensada de maneira padronizada para todos os animais e todas as situações. Em algumas circunstâncias, a decisão mais segura pode ser interromper ou reorganizar o procedimento”, explica Zacchi.
Estrutura e protocolos também definem a segurança
A responsabilidade pela prevenção não recai apenas sobre os médicos- veterinários. Para clínicas, hospitais e demais empregadores, as condições oferecidas ao profissional interferem diretamente na exposição aos riscos.
O CFMV explica que os estabelecimentos devem disponibilizar equipamentos de proteção individual e esclarecer os protocolos adequados de manejo e contenção. A capacitação periódica das equipes e a organização e manutenção dos ambientes também faz parte da prevenção de acidentes em clínicas e hospitais.
Em laboratórios e estabelecimentos veterinários, existem ainda os riscos relacionados a agentes biológicos, medicamentos e outras substâncias utilizadas na rotina. No campo e em estabelecimentos de produtos de origem animal, as condições de trabalho apresentam outras exigências operacionais.
Segundo Zacchi, conhecimento técnico e capacitação precisam estar acompanhados de estrutura, equipamentos, equipes e protocolos compatíveis com a atividade exercida. Acidentes também devem ser analisados de acordo com suas circunstâncias específicas, sem atribuições automáticas de causa ou responsabilidade.
Congresso discute insalubridade e periculosidade
A proteção do profissional está no centro de duas propostas em tramitação na Câmara dos Deputados. O PL nº 5.706/2025 propõe regulamentar a concessão de adicionais de insalubridade e periculosidade a médicos-veterinários e profissionais de atividades correlatas expostos a agentes biológicos, químicos e físicos nocivos à saúde.
A matéria está na Comissão de Saúde e aguarda a designação de relator
O PL nº 2.666/2026 aborda o reconhecimento do direito aos adicionais para médicos-veterinários e outros profissionais envolvidos em atividades relacionadas à saúde animal. Em julho, a proposta foi apensada ao PL 5.706/2025 e passou a tramitar conjuntamente.
Para o CFMV, o debate envolve o reconhecimento da diversidade de áreas da profissão e a necessidade de estabelecer condições de trabalho adequadas aos riscos de cada atividade.
“Reconhecer que determinadas atividades envolvem risco significa conhecê-lo para preveni-lo e estabelecer condições adequadas de trabalho. A proteção de quem exerce a profissão também precisa fazer parte da agenda de valorização da Medicina Veterinária”, afirma Zacchi.
O avanço das propostas mantém o tema no radar de empresas, clínicas, hospitais, profissionais e entidades do setor. Na prática, a discussão expõe que a gestão veterinária precisa incorporar a prevenção de riscos ocupacionais como parte da organização das operações e da proteção das equipes.