Casos de raiva em pets reforçam alerta sobre vacinação e conduta veterinária
Novos registros da doença em animais domésticos reacendem a importância das medidas oficiais de prevenção para tutores e profissionais veterinários
por Luis Gustavo Chambrone em
Recentes casos de raiva em animais domésticos registrados em São Paulo e no Distrito Federal acenderam o alerta sobre questões relacionadas à prevenção e ao controle da doença.
Controlada nas últimas décadas, casos pontuais voltaram a chamar a atenção nos últimos dez anos. Dados do Ministério da Saúde mostram que, durante esse período, foram registrados 270 casos de raiva em cães e gatos no país. Desse total, 76%, ou 205 casos, foram confirmados em cães domésticos.
Em 2015, 71 cães infectados deram origem a uma epizootia — ainda sob monitoramento — na fronteira do Brasil com a Bolívia, que resultou em duas mortes humanas nos municípios de Corumbá e Ladário, em Mato Grosso do Sul.
A raiva é uma doença infecciosa grave que exige atenção constante. Trata-se de uma das zoonoses mais antigas e letais do mundo, causada por um vírus da família Rhabdoviridae, com taxa de mortalidade próxima de 100%.
A transmissão para o ser humano ocorre a partir do contato com algum animal infectado, principalmente por meio de mordidas, lambidas ou arranhões, que podem promover o contato com a saliva.
Apesar de não ter cura após o início dos sintomas, que incluem alterações comportamentais, salivação excessiva, dificuldade para engolir e paralisia, a doença é evitável pela vacinação.
“A vacinação antirrábica é recomendada pelas autoridades sanitárias e constitui a principal barreira de proteção. Além de salvar a vida do animal, ela previne a transmissão para as pessoas e garante a segurança da saúde pública”, destaca Kathia Soares, coordenadora técnica da MSD Saúde Animal.
Com a confirmação de dois casos de raiva canina pelas Secretarias Estaduais da Saúde de São Paulo e Distrito Federal, a relevância de manter a vacinação atualizada ganhou ainda mais evidência recentemente.
Embora controlada nas áreas urbanas, a zoonose continua circulando em populações de animais silvestres como morcegos, que estão em constante crescimento populacional urbano e podem infectar pets não vacinados.
Os morcegos não hematófagos concentram 4.832 dos 6.105 registros contabilizados nos últimos 24 anos, o equivalente a 79,1% de todos os casos. Ou seja, aproximadamente oito em cada dez casos de raiva em animais silvestres registrados na série histórica envolveram esses animais.
Mary Marcondes, presidente do Conselho de Vacinação da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA), alerta sobre a necessidade de evitar o contato com morcegos que estiverem no chão ou voando diferente do comum, mesmo com luvas nas mãos.
“Coloque um balde em cima do animal, com uma pedra sobre ele para não ter risco de escapar, e ligue para a divisão de zoonoses. Eles irão capturar esse morcego e farão a pesquisa do vírus da raiva”, orienta a médica veterinária.
A especialista explica que, no caso de seres humanos terem contato com morcegos ou animais agressores, o Ministério da Saúde tem uma recomendação específica de receber vacinas ou o soro, a depender do local do ferimento.
As orientações são fundamentais não apenas para tutores, mas para clínicas e hospitais veterinários também. A volta de registros depois de quase três décadas reacendeu um alerta para quais medidas são fundamentais que se tome na hora de agir em casos de pacientes diagnosticados ou com suspeita.
Hospitais e clinicas reforçam orientações
Ter total conhecimento do paciente é muito importante na hora de condicionar o atendimento. A orientação varia conforme o status de vacinação de cada paciente que teve um suposto contato com o vírus.
Procedimento para casos de suspeita
Mary Marcondes orienta que, se o paciente nunca foi vacinado contra a raiva, ele precisa receber três doses de vacinas, contempladas no dia do possível contato viral, uma semana depois, e a última com 30 dias do registro.
Se esse animal já havia recebido o imunizante e estiver com o calendário vacinal em dia, ele recebe só duas doses, no dia zero e no dia 30.
Procedimentos para casos confirmados
Quando o contato do pet é com outro animal diagnosticado com o vírus, as orientações são diferentes e o cuidado é maior.
Se o paciente já recebeu vacinas antirrábicas, a conduta indica que a vacinação deve ocorrer em duas doses, assim como nos casos suspeitos. Entretanto, tratando de um cenário com diagnóstico confirmado do agressor, o animal deve ficar 180 dias em observação sem sair de casa após receber as devidas doses.
Sempre que for possível, orienta-se a observar o outro cão – seja ele de rua ou de outro tutor – por 10 dias, já que eles transmitem o vírus da raiva e morrem durante esse período.
“Se em 10 dias estiver tudo bem com ele, não tem sintomas de raiva, não há necessidade de manter o cão atacado em observação pelos 180 dias”, confirma a presidente do Comitê de Vacinações.
Agora, se o cão ou gato nunca foi vacinado contra o vírus e foi mordido ou agredido por um animal diagnosticado, seja um morcego ou outro animal de rua, a conduta do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) é a indicação de eutanásia, já que a doença é letal e possui uma taxa de transmissão muito alta.
Médicos-veterinários devem se informar
Os profissionais da área devem se atentar às questões que vão além de sintomas comuns.
“Nem sempre o animal vem com aquelas características que a gente está acostumado a imaginar. Existem casos de raiva atípica, sem a fúria, aquela característica que a gente vê do animal querendo atacar. Atendi um animal que não conseguia fechar a mandíbula por uma suposta ‘briga de rua’ e este foi o primeiro diagnóstico de raiva que eu fiz na vida”, revela a veterinária da WSAVA.
Além de saber como proceder em casos como esse, médicos veterinários e estudantes da área precisam estar devidamente vacinados, com titulação realizada e em um nível alto; caso contrário, uma nova dose deve ser aplicada.
“Protejam-se, protejam os seus clientes, orientem qual é a conduta certa a tomar nos dias de hoje e vacinem todos os seus pacientes e a maior parte dos animais que vocês puderem, inclusive na vizinhança. Façam isso porque nós, médicos- veterinários, temos obrigação de uma postura de saúde única nesse momento”, afirma a executiva.