Biofarm aposta em inovação com linha que já vale metade do faturamento
Farmacêutica fundada em Jaboticabal (SP) viu a divisão pet crescer a ponto de empatar com a receita histórica dos animais de produção
por Gabriel Sartini em
Por décadas a Biofarm construiu sua reputação como uma das principais fabricantes brasileiras de medicamentos e suplementos veterinários para animais de produção. Mas um movimento iniciado em 2011 e alavancado na pandemia de Covid-19 redesenhou o mapa de negócios da companhia.
“Hoje a linha voltada a pequenos animais já responde por metade do faturamento”, ressalta o presidente e fundador Naur Bellusci Filho, médico veterinário formado em 1990 pela UNESP Jaboticabal.
O equilíbrio entre as duas frentes de negócio é o retrato mais recente de uma trajetória que começou pequena, cresceu com base na terceirização industrial e hoje coloca a Biofarm entre as dez maiores farmacêuticas veterinárias de capital nacional.
De terceirizada a fabricante própria e domínio no setor
A história da Biofarm nasce de uma sociedade familiar em 1994, na cidade de Jaboticabal (SP), situada na Macrorregião de Ribeirão Preto. Bellusci Filho fundou a empresa ao lado do sogro, Antonio Alceu Bellodi, depois de quatro anos atuando em clínica veterinária. “No início, construímos um parque fabril bom para a época e nos especializamos em terceirizar produção para outras empresas, com pouca fabricação própria”, relembra o presidente.
Mais volume permitiu investir em linha própria, desenvolvimento de produtos e registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A exportação, iniciada em 2004 para países da América do Sul, deu novo fôlego ao negócio. O salto seguinte aconteceu entre 2011 e 2012, com a aquisição da Farmavet, empresa fundada em 1959 e que já usava os serviços de terceirização da Biofarm.
Nesse momento, a companhia ainda operava com cerca de 80% do faturamento vindo de animais de produção. Foi a partir dali que o foco no mercado pet começou a ganhar espaço no portfólio, puxado sobretudo pela área de suplementação.
O boom da pandemia e a virada de chave
Se o crescimento da linha pet já vinha em curva ascendente, a pandemia de Covid-19 funcionou como um acelerador. O confinamento aproximou tutores e animais de estimação e essa convivência maior se converteu em consumo. Medicamentos, suplementos e cuidados preventivos passaram a ocupar um espaço maior no orçamento das famílias.
Com o fim do isolamento, o crescimento vertiginoso do período pandêmico arrefeceu, mas não recuou e a curva seguiu ascendente. “Os tutores começaram a dar mais valor a partir da convivência maior com os animais”, observa o presidente.
Esse movimento levou a Biofarm a redirecionar investimentos. A leitura da empresa é de que a tendência é estrutural, com estimativas do setor apontando crescimento de 3% a 4% ao ano na população de pets no Brasil, o que reforça a aposta da companhia em ampliar sua presença no segmento nos próximos anos.
Verticalização como filosofia de negócio
Para sustentar essa expansão, a Biofarm opera em uma área útil de 24 mil m² em um terreno de 32 mil m². A planta reúne áreas de produção de injetáveis, várias salas voltadas à fabricação de produtos orais, tópicos, em pasta e em comprimidos.
Diferentemente de boa parte do setor, a farmacêutica tem como filosofia verticalizar a produção internamente na empresa. O controle de qualidade também foi internalizado quase por completo, com laboratórios próprios para análise de matéria-prima e de produto acabado.
Alguns números dão dimensão à operação. São 410 colaboradores internos entre setores administrativo e de produção, sem contar a equipe da área comercial. A companhia atua com 220 SKUs, considerando também os produtos para animais de produção, e tem uma capacidade de produção gigante.
A indústria faz o envase de 180 mil litros/mês de produtos líquidos, injetáveis e orais, em embalagens de 10 ml a 1 litro. Produz mensalmente de 2 a 3 mil quilos, entre produtos tópicos e orais em pasta, e até 1,5 milhão de comprimidos.
Estratégia comercial garante capilaridade nacional
A força de vendas da Biofarm combina estrutura própria e uma rede ampla de parceiros. Um gerente nacional coordena 14 técnicos veterinários de campo, responsáveis por conectar a empresa a mais de 60 representantes comerciais autônomos espalhados pelo Brasil.
Esses técnicos treinam empresas, promovem dias de campo e capacitam os representantes sobre o portfólio, uma dinâmica que Bellusci Filho compara à indústria farmacêutica humana.
A presença da marca é nacional há mais de três décadas, cobrindo todos os estados e capitais. A companhia também tem avançado sobre grandes redes varejistas: já está presente na PetCamp e negocia entrada em outras gigantes do varejo pet.
Dentro da fatia de vendas pet, a concentração ainda está no Sudeste e Sul, que respondem por cerca de 70% do volume. No entanto, o Nordeste vem ganhando participação relevante na linha de pequenos animais.
Carros-chefes e os lançamentos recentes
Na linha de pequenos animais, o anti-inflamatório em comprimidos Biodex é apontado pela empresa como líder de mercado e principal produto em volume de vendas. Ao seu lado, a Biofarm tem ampliado o portfólio com lançamentos voltados a nichos específicos de cuidado.
A empresa investe em produtos indicados para a saúde hepática e intoxicação em cães e gatos, suplemento em pó de uso diário para auxiliar no emagrecimento de cães obesos e uma família de nutracêuticos que inclui um whey proteico para cachorros.
A Biofarm também investe na importação de produtos inéditos no mercado brasileiro. “Estamos sempre atrás de inovações, em contato frequente com outros países”, revela. Um exemplo é o Vetcopan, vermífugo de origem argentina com distribuição exclusiva no país, voltado ao tratamento da giardíase.
O movimento de internacionalização, iniciado em 2004, já coloca a Biofarm em 14 países da América do Sul e Central. No fim do ano passado, a empresa deu um passo além ao entrar no mercado árabe, com negociações em andamento em seis países do Golfo, além de três países africanos. A meta é alcançar entre 20 e 22 países nos próximos anos.
Visão de futuro: inovação, pipeline e metas até 2030
Nos últimos cinco anos, segundo o presidente, a linha pet cresceu praticamente o dobro em relação aos animais de produção dentro da Biofarm. Um dos objetivos declarados é lançar quatro produtos de alto volume de vendas nos próximos dois anos, sustentando um crescimento de 20% a 30% na receita da divisão.