El Niño acende alerta para custos do pet food e riscos na Medicina Veterinária
Fenômeno pode alterar oferta de matérias-primas, ampliar riscos sanitários e exigir planejamento antecipado de empresas e profissionais.
por Gabriel Sartini em
O avanço do El Niño em 2026/2027 coloca a cadeia pet e veterinária em estado de atenção. Para a indústria de alimentos para cães e gatos, o principal ponto de preocupação está nos possíveis efeitos sobre oferta, preços e logística de matérias-primas. Na Medicina Veterinária, o impacto se estende à produção animal, ao conforto térmico e aos riscos sanitários associados às alterações climáticas.
O fenômeno já está configurado e deve ganhar força nos próximos meses. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial vêm se mantendo acima da média. A NOAA prevê que o El Niño continue se intensificando ao longo de 2026, com 97% de probabilidade de persistência até o início da primavera de 2027 e 81% de chance de um episódio muito forte no último trimestre do ano.
Pet food: clima pode pressionar custos e abastecimento
Para os fabricantes de alimentos para animais de companhia, o principal risco está na combinação entre produção agrícola, disponibilidade regional e custos logísticos. Uma quebra de safra pode reduzir a oferta de determinado ingrediente, enquanto chuvas intensas podem comprometer colheita, armazenagem e transporte.
Segundo Ariovaldo Zani, CEO do Sindirações, as matérias-primas mais expostas são aquelas diretamente ligadas à produção agrícola e às cadeias de proteína animal, como milho e sorgo, soja e farelo, trigo, arroz, farinhas e gorduras de origem animal.
As oscilações na oferta podem afetar não apenas os preços, mas também a qualidade dos ingredientes e a operação das fábricas.
“A eventual troca de um insumo por um alternativo precisa assegurar o equilíbrio nutricional, a digestibilidade, a segurança, a palatabilidade e a estabilidade do produto”, afirma.
Na América do Sul, o excesso de chuvas associado ao El Niño pode favorecer algumas culturas em determinadas regiões, mas também elevar o risco de alagamentos, doenças fúngicas e problemas de transporte. Na Ásia, a redução das precipitações pode afetar áreas agrícolas dependentes de chuva.
Para Zani, os efeitos sobre grãos também podem atingir indiretamente outros ingredientes utilizados pela alimentação animal. Milho e soja, por exemplo, também disputam demanda com setores como biocombustíveis, alimentação humana e exportações.
Uma quebra agrícola pode ainda encarecer a alimentação de aves e suínos e, consequentemente, pressionar os custos das farinhas e gorduras de origem animal utilizadas pela indústria pet.
Logística e energia entram na equação
A preocupação da indústria não está restrita à disponibilidade de ingredientes. Segundo o CEO do Sindirações, frete, combustível, manutenção, seguros e energia também podem sofrer pressão em um cenário de eventos climáticos extremos.
Chuvas intensas podem comprometer rodovias, ferrovias, acessos a armazéns e portos. Já estiagens e ondas de calor podem pressionar a disponibilidade de água e o custo da energia.
Esse conjunto de fatores explica por que o setor acompanha o El Niño para além do desempenho das lavouras. A gestão de riscos envolve disponibilidade, qualidade, transporte e processamento das matérias-primas.
Setor não identifica alta imediata, mas reforça monitoramento
O Sindirações afirma que a possibilidade de um El Niño de forte intensidade já coloca a cadeia de produção de alimentos para cães e gatos em alerta. O fenômeno pode afetar lavouras, pastagens, disponibilidade de água, qualidade das matérias-primas, logística e custos industriais.
Apesar disso, o setor ainda não aponta uma alta generalizada dos custos ou risco imediato de desabastecimento. A avaliação é de que a indústria brasileira está mais preparada para lidar com eventos extremos, embora não esteja imune aos seus efeitos.
“O Brasil tem uma vantagem estrutural por ser grande produtor de grãos e de proteínas animais, o que favorece a indústria de pet food ao garantir abastecimento imediato e escala produtiva. Essa vantagem, porém, não é imune ao clima”, explica Zani.
O setor acompanha indicadores climáticos e agrícolas, desempenho das safras, custos logísticos, energia, câmbio e condições do mercado consumidor.
Planejamento antecipado reduz exposição da indústria
Para reduzir a vulnerabilidade, a principal recomendação é evitar a dependência de uma única origem de abastecimento.
“A diversificação regional de fornecedores é essencial para reduzir a dependência de uma única área produtora: se uma região for afetada por seca, excesso de chuva ou problemas logísticos, a empresa consegue buscar alternativas em outras origens”, pontua Zani.
Também ganham importância o planejamento antecipado de compras, a formação de estoques estratégicos, contratos de médio e longo prazo, inteligência de mercado e mecanismos de proteção contra oscilações de commodities e câmbio.
A indústria também vem ampliando a utilização de simulações de cenários para antecipar situações como quebra de safra, restrição hídrica, aumento do frete e interrupções em portos ou rodovias.
Para o porta-voz do Sindirações, a gestão de riscos deixou de ser uma resposta pontual e passou a integrar o planejamento estratégico permanente das empresas.
Pressão nos custos pode mudar portfólio e consumo
Caso haja uma alta persistente no preço de matérias-primas, energia, frete e embalagens, a pressão tende a se espalhar por toda a cadeia.
O repasse integral desses custos ao consumidor, no entanto, não é automático. Segundo Zani, as empresas precisam considerar competitividade e participação de mercado, o que pode limitar reajustes.
Uma das respostas possíveis é a revisão de portfólio, com maior foco em produtos de giro rápido, melhor margem ou relação custo-benefício. Do lado do consumidor, a pressão sobre o orçamento pode estimular a procura por embalagens menores ou a migração para linhas intermediárias e econômicas.
Ondas de calor aumentam a atenção na clínica veterinária
Nos animais de companhia, um dos efeitos mais perceptíveis do El Niño pode ser a ocorrência de períodos de calor intenso. Desidratação, estresse térmico e agravamento de doenças preexistentes estão entre os principais riscos.
A atenção deve ser redobrada com filhotes, animais idosos, obesos ou portadores de doenças cardíacas e respiratórias, além de raças braquicefálicas, que apresentam maior dificuldade para dissipar calor.
Segundo Flavio Fernando Batista Moutinho, membro da Comissão de Gestão de Riscos de Animais em Desastres do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), medidas como oferta de água fresca, áreas de sombra, ventilação e redução da atividade física nos horários mais quentes podem reduzir a exposição dos animais.
Para clínicas, hospitais e profissionais autônomos, períodos de calor excessivo também podem representar aumento da procura por atendimento. O acompanhamento das previsões meteorológicas e a orientação preventiva aos tutores podem, portanto, ganhar maior espaço na rotina das equipes veterinárias.
Mudanças climáticas ampliam os riscos sanitários
O impacto sobre a saúde animal não se resume às temperaturas elevadas. Alterações no regime de chuvas e nos ecossistemas podem modificar a distribuição de vetores e microrganismos, afetar a fauna silvestre, comprometer a qualidade da água e aumentar a ocorrência de eventos extremos.
Enchentes, incêndios, secas, tempestades e deslizamentos também exigem preparação específica para o atendimento e o manejo de animais.
Carla de Freitas Campos, médica-veterinária e integrante da Comissão de Gestão de Riscos de Animais em Desastres do CRMV-RJ, aponta que as alterações climáticas podem ampliar a vulnerabilidade de animais domésticos, de produção e silvestres. “Quando falamos de mudanças climáticas, falamos também de saúde pública, segurança dos alimentos e Uma Só Saúde”, explica.
Nesse cenário, a atuação veterinária envolve vigilância epidemiológica, produção animal, inspeção de alimentos, conservação da fauna e preparação para emergências. Em situações de desastre, também inclui resgate e manejo de animais, avaliação sanitária e prevenção de zoonoses.