Menos euforia, mais eficiência: o que os números da Petz-Cobasi revelam sobre a nova fase do varejo pet
Crescimento abaixo de dois dígitos ainda pode ser positivo em um mercado mais consolidado e pressionado pelo cenário macroeconômico?
por Henrique Almeida em
O primeiro balanço trimestral da União Pet, resultante da fusão entre Petz e Cobasi, trouxe um crescimento que, à primeira vista, pode parecer mais moderado do que o mercado pet já entregou em outros ciclos. No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou receita bruta de R$ 2 bilhões, alta de 9,7% na comparação anual.
Mas, diante de um ambiente marcado por juros elevados, consumo mais seletivo e um cenário competitivo mais pressionado, o desempenho sugere uma leitura diferente. O varejo pet parece entrar em uma nova fase, menos associada à expansão acelerada e mais centrada em eficiência operacional e rentabilidade.
O histórico reforça esse movimento. Em 2023, Petz e Cobasi somavam R$ 6,9 bilhões em receita bruta, número que avançou para cerca de R$ 7,9 bilhões em 2025, crescimento acumulado próximo de 14,5%. A trajetória indica que o setor segue expandindo, mas em um ritmo mais racional do que no período pós-pandemia.
Crescimento vem acompanhado de ganho de margem
Se a expansão da receita ficou abaixo dos dois dígitos, a rentabilidade avançou em ritmo bem mais acelerado. O EBITDA ajustado cresceu 37,8%, enquanto o lucro líquido ajustado avançou 45,3%, sinalizando maior disciplina financeira e foco em produtividade.
Os números também mostram como o modelo de negócio evoluiu. As vendas digitais já representam 41,4% da receita da companhia, enquanto 96% dessas operações acontecem dentro da lógica omnichannel, com integração entre lojas físicas e canais digitais.
Para Ricardo de Oliveira, CEO da Fórmula Pet Shop e especializado em mentorias para empresas do setor, é justamente o ambiente digital que deve protagonizar um acirramento na guerra de preços. Ele observa, porém, que os longos prazos de pagamento exigidos pelos grandes grupos, que podem chegar a 180 dias, abrem espaço para negociações diferenciadas com o pequeno varejo. “Os fabricantes tendem a oferecer melhores condições aos lojistas independentes para reduzir o impacto no capital de giro”, reforça.
Além disso, a vertical de serviços segue ganhando relevância. A receita da área avançou 24,6%, impulsionada por clínicas veterinárias, procedimentos de maior complexidade e expansão de soluções ligadas à jornada de saúde animal.
Marcas próprias e escala elevam competitividade
Outro vetor estratégico está nas marcas próprias. Na Petz, a categoria já responde por 13,5% das vendas, enquanto na Cobasi a participação chegou a 8%, ampliando margens e reduzindo dependência da indústria tradicional.
“Ainda há uma grande fragmentação no setor, o que impede uma evolução mais robusta dessa categoria. Mas a estruturação de grupos como a União Pet e a aglutinação dos estabelecimentos independentes em redes associativas pode garantir escala, volume e massa crítica às marcas próprias”, argumenta Neide Montesano, presidente da Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização (Abmapro).
Pressão redobrada sobre os pequenos
Com 522 lojas, forte presença digital e projeção de até R$ 260 milhões em sinergias operacionais, a União Pet amplia a pressão competitiva sobre redes regionais e de pequeno porte.
“Um grupo capaz de movimentar R$ 7 bi tem força para ditar regras aos fornecedores, inclusive com prazos de pagamento mais longos. A indústria, pressionada, pode tentar compensar isso nos pequenos lojistas, apertando ainda mais o fluxo de caixa”, projeta Thyago Pereira, diretor da Breeds, rede de médio porte com oito lojas em São Paulo.
O empresário entende ainda que, em situações de ruptura de estoque, a indústria tenderá a priorizar o cliente que representa uma fatia maior do faturamento. “Pequenos e médios podem ficar no fim da fila, seja em prazos de entrega ou no acesso a lançamentos”, acrescenta.
Na visão de Mauricio Nogueira, presidente da Animais Distribuidora, atacadista pet com sede na Bahia, uma alternativa para atenuar essa pressão seria a adoção de políticas de preços mais equilibradas. “Entregar produto a qualquer custo apenas para estar na prateleira pode comprometer a sustentabilidade do setor como um todo”, opina.