Supermercados entram na disputa pelo tutor
Varejo alimentar amplia sortimento, investe em marcas próprias, ações de fidelização e mira espaço hoje dominado por pet shops especializados
O avanço dos supermercados sobre o mercado pet deixou de ser uma aposta para se transformar em estratégia. Impulsionadas pela busca dos consumidores por conveniência, redes de varejo alimentar vêm ampliando portfólios, desenvolvendo marcas próprias e investindo em experiências para disputar um cliente historicamente fiel às lojas especializadas.
Segundo o estudo Overview do Mercado Pet, da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o segmento deverá movimentar aproximadamente R$ 86 bilhões neste ano. Embora os supermercados ainda concentrem apenas cerca de 4,2% das vendas, a entidade considera que esse percentual revela amplo potencial de crescimento.
“A categoria pet reúne características extremamente atrativas para os supermercados. São produtos de compra recorrente, capazes de aumentar a frequência de visitas, elevar o tíquete médio e fortalecer o relacionamento com o consumidor”, analisa Rodrigo Segurado consultor da Abras.
Conveniência passa a ser diferencial competitivo
Mais do que competir por preço, os supermercados querem se consolidar como destino completo de compras para toda a família, incluindo os animais de estimação. Na Coop, esse posicionamento vem sendo reforçado por uma estratégia de longo prazo. A rede comercializa cerca de 300 itens da categoria pet e pretende alcançar 500 SKUs nos próximos dois anos.
Uma das principais iniciativas é o Festival Pet, realizado três vezes ao ano. A campanha reúne ofertas, ações promocionais e uma revista exclusiva sobre cuidados com animais, distribuída gratuitamente nas lojas. Na edição mais recente, o material contribuiu para elevar em 50% as vendas da categoria durante o período promocional. “Queremos ter de volta esses consumidores que as grandes varejistas pet estão nos roubando”, conta a gerente de categoria Eliete Cavalcante.
A estratégia também inclui feiras de adoção, distribuição de brindes e ações de endomarketing para ampliar a conexão emocional da marca com os tutores. “O investimento vai além da ampliação do sortimento. Apostamos na educação do tutor para estimular escolhas de maior valor agregado. Às vezes ele opta por um produto mais barato por não saber qual é o diferencial em relação a outro com preço mais elevado”, explica.
Mix qualificado aumenta recorrência das compras
Outro exemplo vem do Grupo TriMais, que opera três supermercados na zona norte da capital paulista e já trabalha com um portfólio de 526 SKUs na categoria pet. Hoje, o segmento representa mais de 1% do faturamento da companhia. “O cliente quer praticidade para resolver em um único lugar todas as necessidades da casa, inclusive as do animal de estimação”, destaca Bruno Solino, executivo de trade marketing do grupo.
Categorias como ração, areia sanitária e petiscos apresentam elevado giro e contribuem para aumentar a recorrência das compras. O grupo também utiliza as impressões dos próprios clientes para orientar a expansão do mix. Além da venda de produtos, o TriMais promove campanhas de adoção responsável, vacinação antirrábica e arrecadação de alimentos para ONGs, reforçando o relacionamento com a comunidade.
Serviços e experiência devem definir a nova disputa
Para a Abras, a concorrência entre supermercados, pet shops e plataformas digitais tende a beneficiar todo o setor. “A tendência não é de substituição dos canais, mas de complementaridade. O supermercado entra pela conveniência e pela recorrência, enquanto o varejo especializado continua exercendo um papel importante em serviços, orientação técnica e categorias de maior complexidade”, avalia Rodrigo Segurado.
Para Bruno Solino, o aumento da concorrência funciona como estímulo à inovação. “É preciso estar atento às novas demandas da sociedade e adaptar o varejo. Ao integrar conveniência, diversificação e relacionamento, queremos fortalecer nossa competitividade e ampliar participação em um mercado cada vez mais dinâmico”, conclui.