Planos de saúde pet enfrentam contraste entre expansão e rentabilidade
Setor amplia fluxo de atendimentos nas clínicas, mas ainda é visto como barreira para a sustentabilidade financeira dos estabelecimentos
Flavia Lélis, especial para o Panorama Pet&Vet
A inserção definitiva dos gastos com pets no orçamento das famílias abriu uma lacuna para a consolidação dos planos de saúde focados nesse segmento, ao mesmo tempo em que expõe contrastes. Enquanto esse serviço contribui para ampliar o fluxo de atendimentos nas clínicas veterinárias, estabelecimentos de pequeno e médio porte enxergam desafios relativos à rentabilidade.
Uma pesquisa de maio de 2026, conduzida pela CVA Solutions, apontou que 21% dos lares brasileiros já contam com planos de saúde pet e a projeção é que este índice suba para 25% até o fim deste ano.
“É uma opção que permite que muitos pacientes viabilizem o tratamento completo para seus animais, do diagnóstico à alta, incluindo exames complementares, internações e toda a investigação necessária para casos mais complexos. Isso resulta em uma medicina veterinária mais completa e com melhores desfechos clínicos”, pontua Veronica Matiussi, proprietária do hospital veterinário PetCom, situado na região do Morumbi, na capital paulista.
O aumento da adesão aos planos, no entanto, trouxe uma segunda realidade para as clínicas veterinárias que se acostumam com agendas cheias, mas também convivem com repasse de valores de consultas abaixo dos praticados pelo mercado, além de uma crise sobre tabelamento de preços e modelos de atendimento.
“O maior desafio para as clínicas é definir quais serviços devem ser oferecidos e determinar um programa complementar que agregue valor e aumente o tíquete médio”, salienta o consultor Sergio Lobato.
Estratégia de ocupação, não de faturamento
Para o presidente da Associação Nacional dos Médicos Veterinários (ANMV), Marcio Mota, é essencial que os gestores compreendam as condições contratuais e as ajustem à rotina a fim de que as consultas particulares permaneçam como principais responsáveis pela base financeira.
Na sua visão, muitas clínicas investem em parcerias com planos de olho no maior volume de atendimentos. Porém, esquecem de mensurar o custo por procedimento antes de assinar a tabela de repasse. “O resultado é um fluxo de caixa que parece saudável no volume, mas é doente na margem. Plano de saúde não representa uma estratégia de faturamento e sim de ocupação. Quando essa proposta está clara e bem desenhada, o convênio paga as contas fixas e o particular paga o crescimento”, destaca.
Curadoria e autonomia comercial de mãos dadas
A curadoria qualificada fez a diferença para a Bull Petcare na hora de assinar contratos do gênero. “Selecionei planos que valorizem o médico veterinário com repasses dignos ou que me permitissem alguma negociação. Não aceito qualquer convênio apenas pela promessa de volume”, revela Adriana Bull, proprietária do espaço no bairro paulistano da Aclimação.
Com o controle da operação comercial nas mãos, a empreendedora restringe a importância financeira dos planos e investe nos atendimentos particulares. “Fazemos de cinco a dez atendimentos por mês via convênio, menos de 20% do total. O restante é particular”, detalha.
Em busca de harmonia econômica, algumas clínicas seguem se equilibrando em modelos de negócio que permitam autonomia comercial e independência das grandes operadoras. “Os planos de saúde representam cerca de 30% do faturamento do PetCom. Também investimos em uma gestão eficiente, com controle rigoroso de custos, otimização de processos e acompanhamento constante dos indicadores de desempenho”, explica Matiussi.
Ainda sem um órgão regulador no Brasil, não é possível mensurar o número oficial de operadoras atuantes. Também não existem mecanismos legais que fixem comissionamento e datas de pagamento por parte dos planos de saúde. “Outro ponto que pesa bastante para o empresário de pequeno e médio porte é a gestão da glosa e do prazo de repasse. Sem um setor administrativo estruturado para auditar esse processo, a clínica perde dinheiro silenciosamente”, conclui Mota.
Gestão e verticalização como diferenciais
Na avaliação de Alan Mora, sócio-diretor da rede de hospitais VFP, o avanço dos planos de saúde pet é irreversível, impulsionado pelo aumento do custo dos tratamentos e pela demanda dos tutores por previsibilidade financeira.
“O tíquete médio do atendimento veterinário cresce ano após ano e chega um momento em que muitas famílias precisam de alternativas para garantir acesso a tratamentos de alta complexidade”, admite.
Mas ao contrário de modelos baseados em ampla rede credenciada, a VFP aposta em hospitais próprios para manter controle sobre protocolos assistenciais e indicadores de qualidade. “Quando verticalizamos a operação, conseguimos acompanhar cada etapa do atendimento. Mantemos o padrão assistencial, ganhamos velocidade e oferecemos uma experiência muito mais consistente para o tutor e para o médico veterinário”, explica.
Modelo de atuação
Atualmente, as operadoras de planos de saúde pet trabalham com as clínicas veterinárias seguindo modelos distintos de parceria, sendo que os principais são:
Credenciamento – clínica recebe por procedimento realizado conforme tabela contratada
Coparticipação – uma porcentagem é paga pelo tutor e o restante pelo plano
Bônus comercial – operadoras oferecem incentivos para indicação de clientes
Reembolso – pouco utilizada, mas implica reembolso total ao serviço pago pelo tutor
Os planos de saúde em números para os tutores
- Um relatório de 2026 da CVA Solutions indica que o custo médio de um cachorro é de R$ 690 e de um gato, R$ 574
Quanto custa o serviço?
Existe uma variação de acordo com cada região brasileira, mas em São Paulo, as clínicas costumam cobrar entre R$ 120 e R$ 250 pelas consultas, enquanto especialistas variam entre R$ 250 e R$ 450. Já os principais planos de saúde costumam somar esses serviços e praticam tarifas mais competitivas.
- Dog Life – de R$ 68 a R$ 225 mensais, com destaque para a telemedicina no plano básico e vacina contra a gripe no plano mais caro
- Pet Life – de R$ 13,20 a R$ 174,90 mensais, com destaque para as consultas ilimitadas no plano básico e atendimento em domicílio no plano mais caro
- Petlove – de R$ 14,90 a R$ 199,90 mensais, com destaque para a microchipagem no plano básico e exames de alta complexidade no plano mais caro
- APet – de R$ 21,20 a R$ 199,90 mensais, com destaque para assistência funerária no plano básico e transporte e hotel para o pet em caso de enfermidade do tutor
- Pet de TODOS – de R$ 29,90 a R$ 39,90 mensais, com destaque para as consultas clínicas ilimitadas
- Meu Pet Club – de R$ 69,90 a R$ 239,90 mensais, com destaque para as consultas ilimitadas no plano básico e para a variedade de procedimentos cirúrgicos no plano mais caro