O mercado veterinário ainda não entendeu onde está o lucro recorrente
Mais do que um serviço complementar, o banho e tosa pode ser a chave para ampliar relacionamento com o tutor e o tíquete médio
por Ricardo de Oliveira em
e atualizado em
Parte considerável do setor veterinário cultiva a crença de que o verdadeiro negócio de uma clínica se concentra nas consultas, exames e procedimentos médicos. O banho e tosa, quando existe, costuma ocupar uma posição secundária dentro da operação, sendo visto apenas como um serviço complementar ou uma conveniência oferecida ao tutor.
Depois de acompanhar centenas de negócios do segmento ao longo dos últimos anos, cheguei a uma conclusão diferente. O banho e tosa não é apenas um acessório. É um dos ativos mais valiosos que uma clínica veterinária pode desenvolver para evoluir de forma sustentável.
A recorrência vale mais do que o atendimento pontual
O mercado pet brasileiro já movimenta cifras superiores a R$ 80 bilhões por ano e segue entre os setores mais resilientes da economia. Mesmo assim, muitas clínicas ainda operam com um modelo de negócio excessivamente dependente de consultas e procedimentos pontuais. O problema é que essa decisão não gera recorrência.
O tutor procura atendimento quando surge uma necessidade específica e, muitas vezes, passa meses sem retornar. Do ponto de vista financeiro, isso significa depender constantemente da entrada de novos clientes para manter o crescimento.
O banho e tosa funciona de maneira completamente diferente. Um tutor que leva seu pet para o banho mensalmente visita a clínica 12 vezes por ano. Essa frequência cria relacionamento e amplia as oportunidades para oferecer produtos adicionais e fortalecer a confiança na marca.
O banho e tosa como porta de entrada para clientes de maior valor
Além disso, existe também um fator pouco discutido. O cliente que investe regularmente em estética costuma também ser aquele que mais valoriza prevenção, alimentação premium, vacinas, exames e acompanhamento veterinário. Em outras palavras, o banho e tosa não apenas aumenta o fluxo de pessoas dentro da clínica, como também atrai consumidores com maior potencial ao longo do tempo.
Outro benefício relevante está na própria saúde dos animais. Em operações bem estruturadas, profissionais de banho e tosa conseguem identificar alterações de pele, feridas, otites, parasitas e até pequenos nódulos antes que o tutor perceba o problema.
Isso permite encaminhamentos mais rápidos para consultas veterinárias, melhora o cuidado com o pet e favorece a integração entre os diferentes serviços oferecidos pela clínica.
Quando o problema não é o serviço, mas a gestão
Apesar de todas essas vantagens, muitos empresários ainda enxergam o banho e tosa com desconfiança, geralmente porque já tentaram implementar o serviço e enfrentaram dificuldades.
O curioso é que, na maioria dos casos, a dificuldade nunca esteve no banho e tosa em si. O verdadeiro obstáculo foi a falta de estrutura. Muitas operações se tornam dependentes de um único profissional, sem terem processos claros, acompanhamento de indicadores de desempenho e falta de estratégias de retenção. Quando o colaborador sai ou a agenda esvazia, o serviço perde força rapidamente.
Diferenciação em um mercado cada vez mais competitivo
O impacto estende-se ao posicionamento da marca. Em um mercado cada vez mais competitivo, muitas clínicas acabam disputando clientes apenas por localização ou preço. É uma estratégia perigosa, porque sempre haverá alguém disposto a cobrar menos. O banho e tosa bem estruturado cria diferenciação e transforma a clínica em um ponto de relacionamento contínuo
Em um mercado que cresce ano após ano, as empresas que compreenderem esse potencial estarão mais preparadas para ampliar seus resultados de forma consistente. As demais continuarão tratando como acessório aquilo que pode ser um dos principais motores do negócio.