Argentina amplia investimentos em pet food e mira mercado regional
Fabricantes ampliam capacidade, investem em produtos premium e buscam reduzir barreiras para ganhar espaço nos mercados latino-americanos
por Gabriel Sartini em
A indústria de pet food da Argentina está ampliando investimentos em produtos de maior valor agregado, capacidade produtiva e acesso a mercados externos. O movimento combina avanço das linhas super premium, desenvolvimento de alimentos funcionais e modernização industrial, enquanto fabricantes e entidades setoriais buscam reduzir barreiras tributárias e sanitárias para tornar os produtos argentinos mais competitivos na América Latina.
A estratégia ocorre em um cenário de recuperação gradual da economia argentina, mas com o poder de compra das famílias ainda pressionado. Segundo a Câmara Argentina de Empresas de Nutrição Animal (Caena), esse contexto produz comportamentos distintos: parte dos consumidores mantém a demanda por produtos de maior valor, enquanto outra parcela busca alternativas intermediárias. As informações são do GlobalPETS.
Premiumização ganha espaço no varejo
A busca por produtos de maior valor agregado já influencia o portfólio da indústria e do varejo. Embora a ração seca continue predominante na Argentina, alimentos úmidos, linhas super premium e formulações direcionadas a necessidades específicas vêm ganhando espaço, sobretudo em canais especializados, como pet shops e clínicas veterinárias.
O Grupo Molino Chacabuco, que atua há mais de 25 anos nos segmentos econômico, médio e premium, entrou na categoria super premium no segundo semestre de 2025 com a marca Juvenia Nutrition.
A formulação utiliza resveratrol e vitamina E, segundo a companhia, além de embalagens recicláveis. O desenvolvimento teve origem em uma parceria iniciada em 2021 com o Laboratorio Microsules Argentina. Em setembro de 2024, a empresa adquiriu a propriedade da marca.
O grupo também ampliou o portfólio nos segmentos médio e premium, incorporando ingredientes funcionais a novos produtos.
No varejo especializado, a Natural Life também registra avanço da categoria super premium, com a entrada de novas marcas e produtos voltados a características como raça, fase da vida e necessidades específicas. As linhas veterinárias estão entre as categorias que recebem maior atenção na estratégia comercial.
Alimentação úmida ganha espaço na agenda industrial
A alimentação úmida aparece como outra frente de diversificação. A Alican inaugurou um novo armazém em novembro de 2025 e anunciou um plano de US$ 60 milhões (R$ 305 milhões) em investimentos para os próximos cinco a dez anos.
A primeira etapa prevê a modernização de equipamentos para a produção de alimentos secos e úmidos. A companhia também pretende avançar em petiscos funcionais para gatos e na categoria super premium.
A aposta na alimentação úmida parte de uma base ainda pequena no mercado argentino. Segundo Darío Maida Re, fundador e diretor da Alican, a categoria representa aproximadamente 2% do consumo total de alimentos para animais de estimação no país, enquanto em mercados da Europa e dos Estados Unidos pode chegar a 30%.
A empresa planeja ainda ampliar a fábrica localizada em Córdoba e, posteriormente, instalar uma estrutura de pesquisa com canis e gatis para testes de alimentos.
Exportação é oportunidade, mas depende de competitividade
O mercado externo representa uma das principais possibilidades de crescimento para a indústria argentina, mas a expansão internacional ainda esbarra em custos e entraves regulatórios.
Os alimentos para animais de estimação permanecem sujeitos a direitos de exportação de aproximadamente 3% a 4,5%, mesmo após o governo argentino eliminar, em maio de 2025, essas cobranças para determinados bens industriais. Os produtos alimentícios ficaram fora da medida.
A Caena negocia com o governo argentino uma possível isenção para alimentos destinados a animais de estimação. A entidade também atua em duas frentes consideradas estratégicas para ampliar as exportações.
A primeira envolve os acordos sanitários, que dependem das negociações conduzidas pelo Senasa, órgão argentino responsável pela qualidade agroalimentar. A segunda está relacionada aos acordos comerciais, necessários para obter tarifas preferenciais e melhorar as condições de acesso dos produtos argentinos a outros países.
A redução desses obstáculos pode favorecer a utilização da Argentina como base de produção para o mercado latino-americano, especialmente à medida que os fabricantes ampliam capacidade e diversificam seus portfólios.
Investimentos industriais miram escala
A construção de capacidade produtiva também aparece entre as estratégias para ampliar a presença internacional. A Biofarma, especializada em nutrição e saúde animal, realizou suas primeiras exportações para Colômbia e Equador e agora busca ampliar parcerias com distribuidores em outros países da América Latina.
A empresa investiu US$ 10 milhões (R$ 50,8 milhões) na construção de uma nova fábrica de 13 mil metros quadrados, além de duplicar sua capacidade para 17 mil toneladas por mês.
A estrutura atende diferentes segmentos de nutrição animal, incluindo produtos para equinos, aves, suínos e ruminantes. A companhia também vem desenvolvendo a área de animais de esporte e recreação, com destaque para a alimentação equina.
O investimento em tecnologia e automação busca elevar a precisão das formulações, a capacidade de produção por lotes e os padrões de qualidade.