Rodada de Negócios da Pet South America confirma investida estrangeira no Brasil
Evento tem 60% dos expositores de fora do país, sinal de que o mercado pet brasileiro entrou no radar internacional
por Gabriel Sartini em
A Rodada de Negócios da Pet South America 2026, que acontece nesta quinta-feira (dia 13), chega com um número que resume o momento do setor. Das 20 empresas expositoras confirmadas, 12 são estrangeiras.
O dado, divulgado pela Commpazz, agência responsável pela organização da rodada desde 2017, comprova na prática algo que executivos do setor já vinham sentindo nos bastidores. O mercado pet brasileiro deixou de ser apenas destino de exportação e tornou-se alvo de marcas internacionais em busca de novos consumidores.
Para Luiz Paulo Almeida, fundador e CEO da consultoria, o número não é acaso. “Estamos falando de mais da metade das empresas presentes na rodada querendo entrar no Brasil e na América Latina. Isso não acontecia com essa intensidade há alguns anos”, afirma.
O interesse no mercado nacional é respaldado por dados financeiros do setor. Segundo levantamento recente do portal internacional Petfood Industry, o Brasil domina de forma absoluta o ranking de fabricantes de alimentos para pets na América Latina. As cinco maiores empresas da região são brasileiras – PremieRpet, BRF Pet, Special Dog, Adimax e Total Alimentos, respondendo por 82% do faturamento total do top 10 regional, estimado em US$ 2,97 bilhões (R$ 15,3 bi).
Esse ecossistema gigante e bem estruturado torna o país a porta de entrada natural para marcas globais na América do Sul.
Saturação externa, tarifas de Trump e o Brasil no alvo internacional
Entre as 12 empresas estrangeiras inscritas na Rodada de Negócios estão companhias dos Estados Unidos, China, Chile, Ucrânia, Tchéquia, Liechtenstein, Cingapura, Hungria e Turquia, sendo os EUA e a China os países com maior representatividade. Os produtos vão de areia sanitária para gatos, da Turquia, a snacks liofilizados de salmão produzidos no Chile, categoria que já é sucesso no varejo natural dos Estados Unidos e agora busca espaço no Brasil.
Enquanto a força industrial brasileira e de vizinhos como Argentina e Paraguai está ancorada nas commodities agrícolas, como milho e soja, e na proteína animal para rações tradicionais, marcas estrangeiras chegam apostando no valor agregado. É o caso das empresas chilenas, que vêm investindo forte na ampliação de capacidade logística e em linhas de alimentos úmidos e petiscos funcionais para abastecer corredores de consumo exigentes.
Segundo Almeida, esse movimento tem uma explicação direta: a política tarifária dos Estados Unidos sob o governo Donald Trump. “As tarifas do Trump estão fazendo efeito no mundo inteiro. Empresas que sempre venderam para os EUA e nunca se preocuparam em olhar para outros mercados agora precisam realocar o fluxo de exportação. Quando o país aplica uma tarifa alta, ela simplesmente inviabiliza aquele negócio nos Estados Unidos”, explica o executivo.
O resultado, segundo ele, é uma corrida global por novos mercados. E o Brasil aparece como opção natural. “O mundo inteiro está se mexendo para criar novos mercados, e o Brasil está sendo descoberto por empresas que nunca tinham olhado pra cá”, analisa.
Lições do mercado europeu e o alerta para a indústria pet nacional
O paralelo com a Europa, segundo Almeida, é o retrato mais claro do que pode acontecer no Brasil se a indústria nacional não reagir. O continente vive um cenário de saturação de marcas e produtos, com aumento constante da produção local, o que intensifica a concorrência interna e empurra fabricantes para fora do continente em busca de novos compradores.
“A Europa está saturada de marcas e produtos novos. Empresas que sempre venderam para os Estados Unidos, para o Japão e para a Coreia do Sul começaram a pesquisar outros destinos e descobriram que o Brasil é o terceiro maior mercado pet do mundo. Para elas, o Brasil surge como algo novo, porque durante anos ninguém dava atenção para cá”, relata Almeida.
O CEO da Commpazz também chama atenção para um problema estrutural que, segundo ele, atrapalha o posicionamento de marcas brasileiras no exterior – a falta de segmentação clara dentro do próprio conceito de “mercado pet”.
“As pessoas de fora enxergam o mercado pet como um problema de definição. No mercado humano, ninguém pergunta ‘de qual mercado você fala’. No pet, isso é essencial: ração seca tem como principal cliente a América Latina; produtos desidratados falam com Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia e ração praticamente não é exportada para os americanos. São públicos completamente diferentes”, detalha.
Essa falta de clareza de posicionamento, alerta Almeida, é justamente o que pode custar caro às empresas brasileiras diante da chegada de concorrentes estrangeiros mais maduros em segmentação e branding. “Se as empresas brasileiras acharem que estão tranquilas só porque o mercado interno está aquecido e não pensarem em se profissionalizar ou exportar, vão sentir o problema no curto prazo, entre um e dois anos”, projeta.
Ainda assim, o caminho não é livre de barreiras. Almeida lembra que a tributação de importação no Brasil segue sendo um obstáculo para quem tenta entrar no país, e que o acordo Mercosul-União Europeia é visto pelo setor como uma esperança concreta de abertura de novos canais comerciais nos dois sentidos.
Bastidores e mecânica da Rodada de Negócios da Pet South America
A Rodada de Negócios segue uma lógica de matchmaking. Xada, empresa expositora recebe uma mesa com dois assentos fixos e dois lugares rotativos, por onde os compradores circulam em reuniões de dez minutos.
Nesse intervalo, o comprador conhece o produto, a origem, as condições comerciais e troca contato antes de seguir para a próxima mesa. Segundo Almeida, é justamente esse formato de rodízio que amplia o potencial de negócio para além do que o comprador foi buscar inicialmente. “Às vezes o comprador está acostumado a importar ração, mas vê um petisco para gato na mesa ao lado e fecha negócio ali. A rodada acaba abrindo o portfólio dele”, conta.
O executivo também observa uma mudança de perfil na feira nos últimos anos, com a Pet South America migrando de um modelo mais voltado ao público final (B2C) para uma pegada cada vez mais business-to-business. Segundo ele, essa transição corrige um problema recorrente em edições anteriores.
“Acontecia muita perda de oportunidade: estandes com produtos bons, empresas que já exportavam e queriam encontrar distribuidor, e o comprador passava na frente e nem entrava porque o estande estava lotado de gente disputando brinde ou por barreira de idioma. A rodada resolve isso: coloca comprador e vendedor frente a frente, com tempo e propósito definidos”, afirma Almeida.
Para a indústria nacional, o recado de Luiz Paulo Almeida é direto: profissionalização e clareza de posicionamento deixaram de ser diferencial e passaram a ser condição de sobrevivência.