Desaceleração no mercado pet: ajuste passageiro ou novo cenário?
Setor enfrenta ritmo mais moderado e levanta debate sobre maturidade, consumo e expansão sustentável
por Guilherme Martinez em
Nos últimos dias, dois fatos chamaram minha atenção. O primeiro foi o balanço da Abempet, mostrando que o mercado pet brasileiro desacelerou em 2025 e registrou o menor crescimento desde 2019. Alta de 3,45%, chegando a R$ 77,96 bilhões, abaixo das projeções iniciais. O segundo foi a divulgação dos resultados do grupo formado por Petz e Cobasi, com prejuízo no quarto trimestre para uma das redes, queda relevante no lucro da outra e um clima bem menos eufórico do que vimos recentemente.
Diante disso, fica a pergunta: estamos diante de uma crise ou de um processo natural de amadurecimento? O primeiro ponto é separar fato de narrativa. O mercado ainda cresceu, não estamos falando de retração, mas cresceu menos e abaixo da inflação. Depois de anos em que o discurso dominante era o de um setor à prova de turbulências, puxado pela humanização dos pets, pelo boom de adoções e por reajustes de preços, 2025 trouxe um banho de realidade. Temos um consumidor mais criterioso, custo de capital mais alto, tributação pesada e margens pressionadas.
Os números ajudam a entender. O faturamento chegou a R$ 77,96 bilhões, mas ficou aquém do esperado. O pet food continua sendo a locomotiva, respondendo por mais da metade da receita, mas com produção bem abaixo da capacidade instalada. E novamente os pequenos e médios pet shops mostram sua força, concentrando quase metade do faturamento do varejo, reforçando o peso da proximidade com o cliente e do atendimento de bairro mesmo em um ambiente de digitalização crescente.
Já os resultados das grandes redes deixam um recado claro. Faturar mais não significa, necessariamente, ganhar mais. A Petz encerrou o quarto trimestre de 2025 no vermelho, mas conseguiu fechar o ano com lucro, revertendo o prejuízo do ano anterior. A Cobasi manteve lucro, porém com queda expressiva em relação a 2024. Ao mesmo tempo, a fusão foi aprovada com condicionantes, como a venda de lojas em São Paulo para preservar a concorrência. É o típico movimento de segmentos que entram na fase de consolidação, com menos glamour e mais disciplina.
Isso tudo conversa com outros movimentos. A consolidação dos planos de saúde para pets, por exemplo, mostra empresas buscando crescer com base em dados, fidelização e eficiência, e não apenas em expansão de rede. Por outro lado, o excesso de cursos de medicina veterinária e a discussão sobre modelos de EAD expõem o risco de uma formação de baixa qualidade, com impactos diretos na valorização da profissão e na qualidade dos serviços.
Ou seja, a desaceleração não está isolada: ela acontece em um ambiente em que o mercado se torna mais competitivo, mais exigente e menos tolerante ao improviso.
E o que tudo isso significa para o pequeno e médio empresário do setor pet e veterinário? Significa que não é mais suficiente “surfar a onda” do crescimento geral.
Em um cenário de expansão mais lenta, ganha quem entende de gestão, margem, mix, estoque e pessoas. Quem se aproxima do cliente constrói relacionamento, usa dados para tomar decisão e sabe escolher em que nichos quer atuar.
Também é um momento importante para revisão de modelo de negócio. A entrada de planos de saúde, a maior competição no varejo físico e digital, a pressão por preço e a enxurrada de novos profissionais no mercado não precisam ser vistos apenas como ameaça. Para muitos, podem ser o gatilho para organizar processos, ajustar posicionamento, estabelecer parcerias e buscar diferenciais claros, seja em serviços, em experiência ou em especialização.
Desaceleração, aqui, não é sinônimo de fim de jogo. É sinal de que a fase da euforia passou e que entramos em um ciclo em que eficiência, governança e visão de longo prazo valem tanto quanto ou mais do que crescer alguns pontos percentuais acima da média.
Para mim, 2025 marcou o fim da ilusão do “setor imune à realidade econômica” e o início de uma etapa de amadurecimento. Quem olhar esse momento apenas com lentes de crise corre o risco de se paralisar. Quem enxergar como oportunidade de ajustar rota tende a sair mais forte quando o próximo ciclo de expansão vier.
E você, como tem lido esse novo capítulo do mercado pet? Como ameaça à sobrevivência do seu negócio ou como convite para um salto de maturidade na gestão?