Empresas estrangeiras miram o mercado pet brasileiro e projetam expansão
Com 60% dos expositores vindos do exterior, Rodada de Negócios reafirma o Brasil como hub estratégico na América Latina
por Gabriel Sartini em
O encerramento da Rodada de Negócios Internacional da Pet South America 2026 deixou uma mensagem clara para o ecossistema pet brasileiro: a internacionalização do mercado nacional se tornou uma realidade operacional imediata.
Organizada pela agência Commpazz, a iniciativa reuniu 20 empresas expositoras, das quais 12 vieram do exterior. O número representa 60% do total e confirma o diagnóstico adiantado pelo Panorama Pet&Vet: o Brasil está consolidado como destino prioritário de marcas globais.
O evento expôs um movimento geopolítico e comercial amplo. Impactadas pela saturação das prateleiras europeias, pelas tarifas dos Estados Unidos e movidas pela busca por diversificação, companhias de diferentes origens — como República Tcheca, Ucrânia, Estados Unidos, China e Chile — desembarcaram na feira dispostas a ocupar espaço. E trouxeram atributos estratégicos específicos: alto valor agregado, foco em design, forte apelo visual e soluções em marca própria (private label).
Design, humor e o ‘efeito uau’: a aposta da República Tcheca
Entre as marcas que movimentaram as mesas de negociação esteve a tcheca Kiwi Walker. Criada há quase oito anos em Praga, a empresa de brinquedos pet distribui para 41 países, incluindo Estados Unidos, Nova Zelândia, África do Sul, Israel e Emirados Árabes Unidos. A participação na feira marcou a entrada oficial da companhia em prospecções na América do Sul.
Helena Laurentová, diretora comercial da Kiwi Walker, destaca que a decisão combina potencial financeiro e identificação cultural. “Ouvimos com frequência que a América do Sul, e especialmente o Brasil, é um mercado excelente para a indústria pet. As pessoas aqui são afetuosas e muito conectadas aos seus animais”, destaca.
“Já somos fortes na Europa e presentes na América do Norte e Oceania. A pergunta natural foi: por que não a América do Sul? Queríamos trazer nossa vivência e singularidade para conhecer parceiros”, explica a executiva.
Para garantir destaque em um setor concorrido, a marca aposta na diferenciação visual e em materiais inovadores para capturar a atenção no ponto de venda. “Nosso objetivo é trazer algo único. Quando as pessoas entram na loja, queremos atraí-las com embalagens de fundo preto e cores vibrantes, gerando um ‘efeito uau’”, comenta Helena.
Outra característica que destaca a produção da fabricante tcheca é a preocupação com a saúde dos animais de companhia. “Trabalhamos com materiais seguros e atóxicos. Nosso carro-chefe são os brinquedos de Borracha Termoplástica (TPR Toys), que são duráveis, flutuam na água e têm versões que brilham no escuro. Mostramos que qualidade e diversão caminham juntas”, detalha.
Escala europeia e marca própria: a estratégia da Ucrânia
Enquanto a proposta tcheca foca no apelo lúdico e no design de acessórios, a multinacional ucraniana Kormotech direcionou forças para a alimentação animal. Com 23 anos de fundação, a empresa familiar figura na 49ª posição do ranking global da Pet Industry Magazine e está no Top 20 de fabricantes de pet food da Europa, operando plantas na Ucrânia e na Lituânia.
Com exportações para mais de 40 países, incluindo o fornecimento de marca própria para o Chile, a Kormotech usou a feira em São Paulo como rampa de lançamento para sua expansão na América do Sul.
“É a nossa primeira vez no Brasil porque enxergamos um potencial expressivo local e regionalmente. Sabemos que o Brasil ocupa a terceira posição no mercado global de pet food. Estamos aqui para nos apresentar, encontrar bons distribuidores e importadores e expandir tanto nossas marcas próprias de rações secas e úmidas quanto a produção em private label”, revela Oleksandra Frayt, gerente de vendas da Kormotech.
A executiva destaca que a atuação em private label é uma alavanca estratégica para mercados em desenvolvimento. “Entendemos que ainda estamos construindo nossa notoriedade nesta região, mas este é o início do nosso caminho. Estamos abertos à cooperação comercial para crescer junto com parceiros locais”, complementa Oleksandra.
‘Invasão chinesa’ e recorde de expositores na Pet South America
De acordo com a organização da feira, a edição deste ano marcou o maior espaço já dedicado a empresas chinesas na história da feira. De acordo com Guilherme Martinez, diretor do portfólio PET da NürnbergMesse Brasil, empresa que organiza a Pet South America, o crescimento do pavilhão chinês indica a importante mudança no perfil do evento.
“A PET South America é o reflexo direto da evolução do setor. Hoje, muitos produtos e tecnologias utilizados no Brasil têm origem ou passam pela China. Reunir essas empresas em um único espaço facilita o contato entre fabricantes e compradores, e cria oportunidades que dificilmente aconteceriam fora de um evento como esse”, aponta.
Os próprios expositores entenderam que esse recorde de empresas se mostrou estratégico. Wag Mengyu, vendedora da Shandong Huiji Pet Food Corp, participou do evento pelo segundo ano seguido. Para ela, a Pet South America é a porta de entrada para ampliar a atuação da marca na América Latina e estreitar laços com compradores brasileiros.
“Percebemos um movimento maior do que na edição passada, e isso nos deixou muito animados. Trabalhamos com produtos white label para cada cliente, então poder conversar diretamente com os compradores faz toda a diferença”, garante a vendedora.
Commpazz entende que concorrência vai subir de patamar
O movimento observado nas mesas da feira chancela as análises de Luiz Paulo Almeida, fundador e CEO da Commpazz. Segundo o executivo, o interesse renovado pelo Brasil é fruto de tensões no comércio global.
“As tarifas impostas pelos Estados Unidos no governo Donald Trump geraram um efeito dominó. Empresas que dependiam do mercado americano viram suas operações inviabilizadas por impostos altos e precisaram redirecionar exportações. Paralelamente, a Europa vive saturação de marcas e alta concorrência interna, empurrando fabricantes para fora do continente”, analisa Almeida.
Depois da Rodada de Negócios, expositores e compradores se reuniram no estande da Commpazz no evento para continuarem as conversas e avançarem nas negociações. Como forma de incentivar o networking e estimular acordos comerciais, a agência premiou o comprador e o expositor responsáveis pelo primeiro negócio fechado no evento, e também os dois envolvidos na maior venda durante o encontro.
As quatro pessoas viajarão para Bolonha, na Itália, para participar da ZooMark 2027, que acontece de 11 a 13 de maio. A feira de negócios internacional é voltada para líderes da indústria pet e é considerada uma das mais importantes do mercado europeu.
Oportunidades e os novos rumos do setor
Embora gargalos tributários e tarifas de importação continuem sendo barreiras no país, acordos como o tratado Mercosul-União Europeia seguem no radar como catalisadores comerciais.
Para os players brasileiros, o recado final do evento é direto: a consolidação do Brasil como polo de atração global exige profissionalização, refinamento de branding e diversificação de catálogo para garantir relevância dentro e fora de casa.