Alta rotatividade no banho e tosa pressiona setor pet
Representante de pequenos e médios pet shops aponta a baixa remuneração como principal causa, mas não a única
Tutores já levaram, ao menos uma vez, seus animais de estimação ao pet shop para banho ou tosa, seja completa ou apenas higiênica. Desses responsáveis pelos pets, muitos já devem ter enfrentado o azar de agendar o serviço e o profissional não aparecer, ou de tentar marcar e o estabelecimento não ter ninguém disponível. Isso não é um caso isolado – na realidade, essa rotatividade acontece com bastante frequência, mesmo com o mercado aquecido e demandando por esses trabalhadores.
Segundo a Anpetshop, entidade que visa dar representatividade, apoio e voz ao setor de pet shops no Brasil, esse é um problema que atinge empresas de todos os portes e de todas as regiões. “É a falta de organização do mercado como um todo”, avalia o presidente Alexandre Gomes.
Os pequenos e médios pet shops acabam sofrendo mais porque não têm gordura para errar. Perder um bom tosador desorganiza a agenda, faz perder cliente para o concorrente e, consequentemente, impacta o caixa. As grandes redes também saem no prejuízo, mas conseguem, cada uma à sua maneira, diluir as perdas com equipes maiores e processos mais estruturados, como gestão de agenda mais eficiente e escalas organizadas. Isso porque, segundo ele, banho e tosa são serviços recorrentes. “Se o cliente perde a confiança, ele não volta”, comenta.
Remuneração pesa, mas não explica tudo
Ele afirma que a alta rotatividade virou um gargalo para o setor e contribui para um mercado mais instável. O profissional começa a circular mais, testando lugares e buscando melhores condições, enquanto os estabelecimentos ficam trocando de funcionários, tentando acertar.
Gomes acredita que o fator remuneração pesa bastante para a baixa permanência desses profissionais. O Portal Salário, ferramenta utilizada especialmente por consultorias de carreira e recolocação profissional, abertura e reestruturação de negócios, compila dados oficiais do mercado de trabalho brasileiro sobre remuneração. Como não há uma única classificação para “banho e tosa”, o Panorama Pet&Vet analisou as funções de “banhista” e “tosador” de animais domésticos.
Indicadores da plataforma apontam que, em 2026, banhistas recebem entre R$ 1.826,40 e R$ 2.178,50. Já os tosadores têm salário ligeiramente maior, variando de R$ 1.846,79 a R$ 2.431,87. Em ambos os casos, a jornada é de 43 horas semanais no regime CLT.
Mas a questão financeira não é o único fator por trás dessa alternância de mão de obra. Gomes cita ainda cinco fatores, entre eles ambiente de trabalho ruim, desorganização da empresa, falta de previsibilidade nos pagamentos, atrasos ou risco de não recebimento e sobrecarga de trabalho. “Os tipos de contrato variam, mas o modelo de diária ou freelancer vem crescendo, e nós defendemos a profissionalização desse formato. Ou seja, não é só virar PJ, é preciso ter regra, contrato e responsabilidade dos dois lados”, diz.
Informalidade ainda domina contratações
Ainda hoje, afirma o executivo, a informalidade no setor é grande, e as contratações tendem a ser feitas em grupos de WhatsApp ou até mesmo na base da “confiança”, puxando o nível do mercado para baixo. “Mistura profissional bom com quem não tem preparo, e ninguém sabe quem é quem. A profissionalização do setor passa por organizar esse processo. Sem isso, a rotatividade continua”, pontua.
Pet shops concentram cerca de 59% das contratações de profissionais de banho e tosa, seguidos por clínicas veterinárias e farmácias veterinárias, conforme levantamento do Portal Salário. Hoje, muitas empresas contratam no escuro, erram, trocam, erram novamente e entram em um ciclo.
Nos últimos 12 meses até março deste ano, o mercado registrou 8.474 contratações de banhistas de animais de estimação com carteira assinada e 8.139 desligamentos, resultando em um saldo positivo de 335 vagas formais no país. No mesmo período, no caso dos tosadores, o cenário foi pior. Foram 5.153 contratações e 5.929 desligamentos, o que gerou um saldo negativo de 776 vagas formais.
Capacitação e confiança entram no centro do debate
Para esses estabelecimentos conseguirem reter bons colaboradores, é preciso fazer o básico bem feito, como pagar certo e em dia, ter organização, tratar o profissional com respeito, dar previsibilidade de ganho e não sobrecarregar e, sobretudo, investir em capacitação e cursos profissionalizantes para o mercado de estética animal. Segundo Gomes, o tutor busca, acima de tudo, confiança no banhista e no tosador. “Ele quer deixar o pet no local e ficar tranquilo, sabendo que haverá qualidade e cuidado. Não adianta ser só rápido ou barato”, observa.
A profissionalização desses trabalhadores ainda é muito despadronizada. Existem bons cursos e profissionais gabaritados, mas não há um padrão de ensino mínimo e claro. A ferramenta destaca, por exemplo, que esses colaboradores não apenas dão banho e cortam os pelos dos animais.
Eles também precisam demonstrar discernimento e paciência, fazer a destinação correta de lixo e resíduos, seguindo normas de biossegurança, proteção pessoal e preservação do meio ambiente, levar em consideração as preferências do cliente, manter-se atualizados sobre tendências de mercado, pesquisar novos produtos para conhecer seus benefícios e cuidados de aplicação, manter os equipamentos limpos, entre outras atribuições.
Para se ter uma ideia, com relação à escolaridade, no caso dos banhistas, de uma amostra de 16.613 profissionais admitidos e desligados em todo o país no regime CLT nos últimos 12 meses, a maioria (13.864) tem apenas o ensino médio completo, com média salarial de R$ 1.784,81. Apenas seis têm pós-graduação, com salário médio de R$ 1.811,50. Já os tosadores somam 11.082 na amostra. A maior parte (9.434) também detém ensino médio completo e recebe, em média, R$ 1.981,88, e aqueles com ensino superior completo (202) têm remuneração média de R$ 2.041,33.