“Mounjaro para cães”? Obesidade animal abre nova frente de negócios, mas GLP-1 ainda enfrenta barreiras
Obesidade atinge 41% dos animais de companhia e impulsiona produtos para controle de peso, mas ‘monjauro para cães’ ainda está distante
por Gabriel Sartini em
e atualizado em
A popularização das chamadas canetas emagrecedoras no mercado humano começa a produzir reflexos no setor pet. Enquanto médicos veterinários discutem os limites científicos e regulatórios do uso de medicamentos análogos ao GLP-1 em cães e gatos, empresas passam a identificar no controle de peso uma nova oportunidade para o desenvolvimento de alimentos funcionais, suplementos e outras ferramentas de manejo.
O tema ganhou destaque durante o Congresso Pet Vet, realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo, e vai ao encontro dos alertas de uma nota técnica conjunta do CRMV-SP e do CRF-SP sobre o uso de agonistas do receptor GLP-1 na Medicina Veterinária.
O debate revela uma separação importante entre a ciência e o mercado. Não existe, até o momento, uma caneta emagrecedora formalmente indicada para cães e gatos, mas já começam a surgir produtos posicionados para atender necessidades relacionadas à saciedade e ao manejo do peso.
Um exemplo é a aposta da Wigow, marca da holding Viepet, fundada por Roberto Funari, ex-CEO da Alpargatas. A empresa prepara o lançamento de um snack funcional voltado ao controle de peso canino, que vem sido tratado na imprensa como um “Mounjaro para cães”.
A comparação, entretanto, tem limites claros. O produto não utiliza semaglutida, tirzepatida nem outros agonistas do receptor GLP-1. Sua formulação é baseada em proteínas de salmão, fibras e sais minerais, com a proposta de aumentar a sensação de saciedade.
Obesidade entra no radar da indústria pet
A chegada de produtos voltados especificamente ao controle de peso mostra como o tema começa a ultrapassar a abordagem tradicional baseada em rações light e orientação nutricional.
Na estratégia da Wigow, a categoria de controle de peso integra um plano mais amplo de expansão. A companhia estima que esse segmento possa representar cerca de 30% das vendas futuras.
“Muitas vezes, o tutor não percebe que o animal está acima do peso porque o ganho acontece de forma gradual. Por isso, o acompanhamento veterinário é fundamental para avaliar a condição corporal, estabelecer uma estratégia adequada de alimentação e atividade física e acompanhar a evolução do animal”, explica Ivelize Costa Mello, médica-veterinária e Gerente de Desenvolvimento de Novos Produtos da Wigow
A empresa também estabeleceu a meta de alcançar R$ 1 bilhão em faturamento em três anos, com investimentos estimados em aproximadamente R$ 30 milhões no desenvolvimento de produtos.
O interesse empresarial acompanha a dimensão do problema. Durante o Congresso Pet Vet, a médica veterinária endocrinologista Marcia Jericó apresentou dados segundo os quais cerca de 41% dos animais de companhia apresentam sobrepeso ou obesidade.
GLP-1 ainda não tem indicação formal aprovada para pets
O avanço comercial de produtos relacionados ao controle de peso ocorre paralelamente a um cenário de cautela na Medicina Veterinária.
Segundo a nota técnica divulgada pelo CRMV-SP e pelo CRF-SP, embora médicos veterinários estejam legalmente habilitados a prescrever medicamentos para animais, não há atualmente indicação formal aprovada para o uso veterinário dos agonistas do receptor GLP-1.
Entre os medicamentos associados a essa classe e ao debate sobre controle de peso estão princípios ativos como semaglutida, liraglutida, dulaglutida, tirzepatida e lixisenatida, amplamente conhecidos pelo uso na Medicina Humana.
A nota técnica reconhece que existem relatos de prescrições desses medicamentos por médicos veterinários, mas ressalta que sua utilização permanece incomum e sem respaldo técnico-científico específico consolidado para a prática veterinária.
Os conselhos também destacam que o profissional pode prescrever o tratamento que considerar adequado, assumindo responsabilidade por sua conduta. Isso não significa, porém, que exista uma terapia veterinária consolidada baseada nesses medicamentos.
“Hoje, cães e gatos ainda reagem muito mal”
Durante o Congresso Pet Vet, Marcia Jericó afirmou que os medicamentos ainda não representam uma solução pronta para a obesidade animal.
“Hoje, cães e gatos ainda reagem muito mal às doses estudadas e aos princípios ativos usados em humanos. Existe um longo caminho a percorrer. A gente vai ter isso como uma ferramenta, mas em que dose, com que frequência, qual modelo, ainda não sabemos”, afirmou.
Na avaliação da endocrinologista, os possíveis benefícios ainda precisam ser confrontados com as lacunas existentes sobre segurança, dosagem, frequência de aplicação e resposta específica de cada espécie.
A expectativa é que essa classe farmacológica possa, no futuro, se tornar mais uma ferramenta no tratamento da obesidade. Antes disso, serão necessários estudos específicos capazes de estabelecer protocolos adequados para cães e gatos.
Por isso, alimentos ou suplementos voltados à saciedade não devem ser confundidos com uma terapia baseada em agonistas de GLP-1. São produtos com mecanismos, enquadramentos regulatórios e níveis de evidência diferentes.
Excesso de peso aumenta risco de doenças
A manutenção do excesso de peso por longos períodos pode aumentar o risco de outras doenças. De acordo com a especialista, animais obesos têm risco quatro vezes maior de desenvolver diabetes, condição particularmente relevante entre os felinos.
Os impactos também incluem redução da atividade, aumento do tempo de repouso, dificuldade de locomoção, claudicação e alterações respiratórias.
Em casos mais avançados, podem ocorrer alterações nos níveis de colesterol e triglicérides, esteatose hepática, problemas na vesícula biliar e diabetes.
Para a cadeia pet, esse cenário abre espaço para uma oferta mais ampla de alimentos funcionais, protocolos nutricionais, suplementos e ferramentas de manejo, mas também aumenta a necessidade de separar inovação comercial de alegações terapêuticas.
Dieta e atividade física continuam no centro do tratamento
Apesar do interesse crescente por medicamentos e produtos voltados à saciedade, o controle do peso continua baseado principalmente no equilíbrio entre ingestão energética e gasto calórico.
A quantidade e a qualidade dos alimentos precisam ser avaliadas dentro de um plano adequado para cada paciente. Os petiscos também fazem parte desse cálculo.
“O petisco não pode ultrapassar 10% da ingestão diária de alimentos. Existem muitos cães e gatos que são insaciáveis e nessa hora é o tutor que precisa fechar os olhos, blindar o coração e não ceder”, enfatiza Jericó.
O papel do médico veterinário inclui orientar a alimentação e identificar comportamentos que dificultam a perda de peso, como o fornecimento frequente de alimentos adicionais.
A endocrinologista também alerta que produtos destinados ao controle do peso não substituem a atividade física. Mesmo quando utilizados dentro de uma estratégia nutricional ou terapêutica, eles não eliminam a necessidade de controlar a dieta e estimular o gasto energético.
Enriquecimento ambiental ganha espaço no manejo
O enriquecimento ambiental também pode ser incorporado às estratégias contra a obesidade. A proposta é estimular comportamentos naturais, como farejar, lamber, mastigar e se movimentar, tornando a rotina do animal menos sedentária.
Dependendo da ferramenta utilizada, também é possível aumentar o tempo necessário para o consumo da alimentação e reduzir a velocidade de ingestão.
Para animais que permanecem grande parte do dia em repouso, a combinação entre alimentação controlada e estímulos ambientais pode criar novas oportunidades de movimento sem depender exclusivamente de exercícios estruturados.
Inovação precisa acompanhar a evidência científica
A obesidade animal cria uma oportunidade relevante para a indústria de pet food, suplementos e saúde animal. O crescimento da atenção sobre o tema tende a estimular novos produtos, serviços e protocolos de acompanhamento.
Mas o interesse comercial em torno de expressões como “Mounjaro para cães” também exige cautela. Produtos nutricionais, suplementos e medicamentos agonistas de GLP-1 não pertencem necessariamente à mesma categoria e não devem ser apresentados como equivalentes.
Para o setor, a oportunidade será justamente encontrar o ponto de equilíbrio entre inovação, evidência científica, segurança regulatória e comunicação responsável com os tutores.