Exportações de pet food no Brasil podem dobrar em cinco anos, aponta especialista
Projeção apresentada no Petfood Forum Brasil indica salto de 100 mil para 200 mil toneladas exportadas em cinco anos
por Gabriel Sartini em
As exportações brasileiras de alimentos para cães e gatos podem dobrar nos próximos cinco anos, passando do patamar atual de 100 mil toneladas para 200 mil toneladas anuais. A projeção foi apresentada por Ivan Franco, consultor de mercado e fundador da Triplethree International Market Research, durante a segunda edição do Petfood Forum Brasil, realizado dentro da PET South America, em São Paulo.
Se a estimativa se confirmar, o especialista aponta que o Brasil poderá disputar a liderança sul-americana nas exportações de pet food, ampliando a presença da indústria nacional nos mercados da região e fortalecendo o país como plataforma de produção e distribuição para outros mercados internacionais.
Exportações de pet food já mostram trajetória de crescimento
A projeção encontra respaldo no desempenho recente das exportações do setor. O pet food respondeu por 90,14% do valor exportado em 2025, seguido por pet care, com 5,20%, e animais vivos, com 2,54%.
Para 2026, a Abempet projeta faturamento de R$ 81,2 bilhões para o mercado pet brasileiro, mantendo a trajetória de expansão da cadeia.
O potencial de crescimento também é apontado por grandes fabricantes instalados no país. Segundo a PremieRpet, o mercado latino-americano de produtos para animais de companhia deverá movimentar cerca de R$ 95 bilhões até 2035, com o Brasil concentrando 60% desse volume. A companhia, que possui presença em nove países da região, afirma que manterá o país como seu principal hub produtivo e exportador.
A Nestlé Purina também aposta no Brasil como plataforma regional. A nova fábrica da empresa em Vargeão (SC) foi construída com vocação exportadora e já abastece mercados como Chile, Colômbia e Argentina, com expansão prevista para o México.
Principais destinos e novos mercados
De acordo com levantamento da Abempet, Chile, Colômbia e Uruguai são atualmente os três principais destinos do pet food brasileiro. Juntos, os mercados representam cerca de 20% das exportações da categoria.
A indústria também começa a avançar sobre novos mercados. Em 2026, Índia, Canadá e Malásia passaram a receber produtos brasileiros. Segundo a Abempet, as exportações destinadas a esses três países já somaram mais de R$ 10 milhões no primeiro semestre de 2026.
A diversificação dos destinos reduz a dependência de mercados específicos e amplia as oportunidades para fabricantes brasileiros interessados em internacionalizar suas operações.
Produção nacional fortalece competitividade
Para Ivan Franco, um dos principais diferenciais do Brasil está na estrutura da própria cadeia produtiva. O país possui produção local robusta e baixa dependência de matérias-primas importadas, características que podem aumentar a competitividade da indústria diante de concorrentes mais expostos às oscilações cambiais e aos custos logísticos internacionais.
O consultor também destaca o nível tecnológico das fábricas instaladas no país. Na avaliação de Franco, os investimentos realizados pelas empresas indicam uma transformação estrutural da indústria, e não apenas uma resposta temporária ao aumento da demanda. “Quando as empresas investem em fábricas, elas não apostam apenas em uma tendência, e sim em uma mudança estrutural”, pontua.
Entre os investimentos recentes está a expansão do complexo industrial da PremieRpet em Porto Amazonas (PR). A companhia destinou R$ 1,1 bilhão ao projeto e, somando a capacidade da unidade de Dourado (SP), passou a contar com estrutura para produzir 1 milhão de toneladas por ano.
A Nestlé Purina também ampliou sua capacidade no país. A fábrica de Vargeão (SC) recebeu investimento de R$ 2,5 bilhões, o maior aporte da companhia no segmento de pet food no Brasil.
Carga tributária: o entrave que aparece em todas as frentes
Tanto Ivan Franco quanto a Abempet sinalizam o mesmo diagnóstico: a carga tributária brasileira é o principal fator que limita um crescimento mais acelerado das exportações e do consumo interno.
Segundo a entidade, a tributação sobre o pet food no Brasil pode chegar a 51%, patamar muito acima do observado nos principais concorrentes internacionais. Nos Estados Unidos a taxação fica entre 8% e 10%, enquanto na União Europeia os índices variam entre 15% e 18%.
O cenário chama atenção porque o Brasil é apontado como o terceiro maior país do mundo em população pet e o segundo maior em produção de pet food, mas convive com uma carga tributária elevada em comparação com outros grandes mercados.
A Abempet também aponta entraves logísticos que se somam ao peso tributário: custos portuários elevados, limitações de infraestrutura no transporte até os portos, burocracia nos processos de exportação e exigências regulatórias e sanitárias específicas de cada mercado de destino — fatores que, juntos, reduzem a previsibilidade das operações e encarecem o produto brasileiro no exterior.
Um estudo apresentado pela entidade em 2024, no âmbito das discussões da Reforma Tributária, estima que um tratamento tributário mais equilibrado para o setor teria potencial para elevar a produção nacional de pet food a aproximadamente 9 milhões de toneladas até 2034, número que reforça, em escala ainda maior, o potencial de crescimento já sinalizado pela projeção de exportações de Ivan Franco.
Alimentos úmidos, snacks e suplementos ganham espaço
Além do aumento da capacidade produtiva, a expansão das exportações deve ser acompanhada pela diversificação do portfólio. Para Ivan Franco, produtos com apelo natural, alimentos úmidos, snacks e suplementos estão entre os segmentos com maior potencial de crescimento.
Os alimentos úmidos já apresentam avanço relevante no mercado brasileiro. Segundo a Nestlé Purina, a categoria lidera o crescimento entre os produtos destinados aos gatos, com alta de 14,1% no faturamento e de 11,6% em volume.
A demanda também influenciou o projeto da fábrica de Vargeão, que foi estruturada para quase dobrar a capacidade produtiva nacional de alimentos úmidos em sachês para cães e gatos.
O movimento acompanha uma transformação no comportamento de consumo. A busca por produtos com maior valor agregado, composição nutricional específica e diferentes formatos de alimentação amplia as oportunidades para a indústria brasileira tanto no mercado doméstico quanto no exterior.
Nesse cenário, o desafio para os fabricantes não está apenas em produzir mais, mas em aumentar a competitividade, diversificar mercados e desenvolver categorias de maior valor agregado. Se a projeção apresentada por Ivan Franco se confirmar, o Brasil poderá transformar sua capacidade industrial e a dimensão do mercado interno em uma posição ainda mais relevante no comércio internacional de pet food.