Pet food representa 90% das exportações do setor e expõe gargalos
Enquanto a indústria nacional bate recordes de vendas externas, tributação elevada e barreiras logísticas ainda travam potencial no comércio internacional
por Gabriel Sartini em
Em 2025, as exportações do setor atingiram a marca de R$ 3,30 bilhões, registrando um crescimento de 12% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet). O avanço continua em ritmo acelerado em 2026. No primeiro trimestre, as vendas externas de pet food avançaram 9% em relação ao mesmo período de 2025. Mas onde há fatos positivos também existem gargalos.
Pet food domina a pauta exportadora
Segundo Caio Villela, CEO da Abempet, o resultado reflete a “capacidade de adaptação, inovação e competitividade da indústria brasileira de pet food”, reconhecida internacionalmente pela qualidade dos produtos e pela eficiência da cadeia produtiva.
América Latina lidera, mas novos mercados ganham tração
De acordo com Villela, os três principais destinos das exportações são Chile, Colômbia e Uruguai, que juntos representam cerca de 20% das vendas externas de pet food, mas o mercado brasileiro vem abrindo novas portas nos primeiros meses de 2026.
Além dos vizinhos sulamericanos, os três destinos que passaram a receber exportações em 2026 são Índia, Canadá e Malásia. Segundo a Abempet, o valor exportado a esses novos mercados soma mais de R$ 10 milhões no primeiro semestre desse ano.
Apesar do avanço, Villela alerta que o potencial de crescimento é maior do que os números mostram. O entrave central é tributário. “A carga sobre o pet food no Brasil pode chegar a 51%, contra 8% a 10% nos Estados Unidos e 15% a 18% na União Europeia. Essa distorção compromete a competitividade global de um país que é o 3º maior em população pet e o 2º maior produtor mundial”, ressalta.
Promoção comercial acelera internacionalização
Se a indústria fornece a base competitiva, a promoção comercial abre as portas externas. A ApexBrasil aposta em rodadas de negócios para conectar exportadores nacionais a compradores qualificados.
A próxima edição do programa Exporta Mais Brasil Pet, que acontece entre 6 e 8 de outubro, deve reunir 15 compradores internacionais e gerar cerca de 250 reuniões de negócios entre os segmentos pet food, pet care, pet med e pet vet. A organização projeta movimentar US$ 30 milhões em negócios nos 12 meses seguintes ao evento.
O que os compradores internacionais mais buscam
Segundo a ApexBrasil, o mercado brasileiro tem chamado a atenção de diversos países nas mais diferentes áreas, impulsionados pela competitividade da indústria nacional, pela qualidade das matérias-primas e pela capacidade de inovação das empresas brasileiras.
As tendências que orientam a demanda global – premiumização, humanização dos pets e sustentabilidade – favorecem diretamente a oferta brasileira. Na área de alimentos, destacam-se as rações premium e super premium, alimentos úmidos (sachês e latas), suplementos nutricionais, ingredientes funcionais e, especialmente, os petiscos naturais (treats e chews) produzidos a partir de proteínas bovinas e avícolas.
Em pet care, a demanda se concentra em produtos de higiene, bem-estar e cuidados diários, como xampus, acessórios e areias sanitárias sustentáveis. O destaque fica para produtos que utilizam ingredientes da biodiversidade do país, como açaí, cupuaçu e própolis, que têm despertado interesse crescente, especialmente em mercados que valorizam soluções naturais e sustentáveis.
Já no segmento veterinário, há uma busca cada vez maior por medicamentos, vacinas, suplementos nutracêuticos voltados à saúde articular, imunidade e qualidade da pelagem, além de produtos fitoterápicos, equipamentos médico-veterinários, soluções diagnósticas e tecnologias aplicadas à saúde animal.
‘Custo Brasil’ segue como principal desafio
O maior obstáculo identificado pela Abempet segue sendo o “Custo Brasil“: além da carga tributária, pesam os custos logísticos elevados, a infraestrutura limitada até os portos, a burocracia dos processos de exportação e as exigências regulatórias e sanitárias de cada mercado de destino.
“Esses fatores aumentam os custos operacionais, reduzem a previsibilidade das operações e impactam a competitividade das empresas brasileiras”, reforça Villela.
Um estudo apresentado pela entidade durante a reforma tributária mostra que um tratamento fiscal mais equilibrado poderia elevar a produção nacional de pet food a 9 milhões de toneladas até 2034, patamar que fortaleceria diretamente a competitividade das exportações brasileiras frente a Estados Unidos, União Europeia e à crescente China, principais concorrentes do país no mercado internacional.