Mercado Livre estreia marca própria pet e amplia disputa por dados e relacionamento
Movimento segue estratégia de gigantes do e-commerce e pressiona varejo especializado a reposicionar atuação
por Gabriel Sartini em
O Mercado Livre deu os primeiros passos no mercado pet com lançamento de marca própria, ao incluir itens da linha Mercado Livre Basics na categoria. A estreia ocorre com areias sanitárias para gatos, um dos produtos mais vendidos na plataforma, e reforça um movimento estratégico já adotado por grandes players como a Amazon.
Ainda em fase inicial, o lançamento inclui versões com fragrância natural e lavanda, em embalagens de 1,5 kg. Apesar do portfólio enxuto, a iniciativa é interpretada pelo setor como um sinal claro de verticalização, com plataformas passando a competir diretamente com seus próprios vendedores.
Mudança na dinâmica exerce pressão sobre vendedores
Para o especialista em varejo Fernando Ferreira, a entrada da gigante do e-commerce como concorrente direta altera drasticamente as regras do jogo. “Até pouco tempo os marketplaces eram apenas o shopping center que concediam o espaço, a logística e o meio de pagamento. Agora eles compraram a loja âncora do shopping e estão vendendo o mesmo produto que você, só que comprando diretamente da fábrica”, analisa.
Esse avanço do modelo de venda direta da plataforma é respaldado por números expressivos apontados por Ferreiria. A receita de vendas próprias do Mercado Livre deu um salto global, passando de US$ 1,49 bilhão em 2023 para US$ 2,14 bilhões em 2024, e atingindo US$ 3,61 bilhões em 2025.
Ferreira alerta que essa escalada afeta o bolso dos pequenos e médios vendedores por três fatores centrais. “O Mercado Livre compra numa escala gigante, consegue prazo e preço de fábrica e consegue reduzir custos ao consumidor”, aponta.
Outro ponto destacado por Ferreira é a vantagem logística. Com malha e galpões próprios, a entrega ocorre em poucas horas, aumentando a taxa de conversão a favor do produto próprio.
Por fim, o especialista lembra que o algoritmo da plataforma prioriza preço, estoque e velocidade de entrega. Com isso, os produtos de venda direta da plataforma sobem ao topo de forma orgânica, exigindo que os vendedores invistam mais em anúncios para continuar aparecendo.
Controle de dados facilita estratégia das gigantes
A entrada em marca própria reforça o uso intensivo de dados de consumo para desenvolvimento de produtos. Segundo Diego Dahas, vice-presidente da Associação Nacional dos Distribuidores de Produtos Pet (Andipet), o movimento exige reação estratégica do varejo. “As plataformas não querem mais apenas vender, querem controlar o relacionamento com o cliente”, sinaliza.
Marketplaces identificam os produtos mais vendidos, validam demanda e, posteriormente, lançam versões próprias com potencial de maior margem. Fernando Ferreira acrescenta que esse movimento exige atenção redobrada também das marcas consolidadas e da indústria pet. “A indústria pode começar acreditando que está usando o Mercado Livre como canal. Depois, percebe que o Mercado Livre passou a controlar o acesso ao consumidor, os dados, a mídia, a logística, o pagamento e a formação de preço”, avalia.
Pressão sobre pet shops e distribuidores
O avanço das plataformas digitais coloca em risco um dos principais ativos do varejo físico e regional: o relacionamento com o cliente. “O novo jogo não será disputado apenas pelo preço, será disputado por quem melhor se relacionar com o cliente”, acrescenta Dahas.
O conselho para os petshops é claro. “Invistam em recorrência, atendimento por WhatsApp, entrega local, orientação técnica e produtos menos comparáveis apenas pelo preço”, indica o vice-presidente da Andipet.
O fim do revendedor simples e os caminhos de sobrevivência
Apesar do cenário desafiador, Ferreira pondera que a operação de terceiros não vai desaparecer, já que a plataforma continua precisando do volume da ‘cauda longa’ de produtos. Contudo, há um filtro claro no mercado.
“Aquele modelo antigo de só ‘comprar um produto de prateleira, jogar uma margem em cima e revender’ está liquidado. A saída é ir para o nicho, criar kits exclusivos, desenvolver marca própria e oferecer atendimento técnico, coisas que a plataforma não consegue automatizar ou que não valem a pena pelo volume”, aponta o especialista em varejo.
Ferreira indica que, para prosperar, os vendedores devem reduzir a dependência de marcas nacionais altamente comparáveis, diversificar os canais de venda para fora do marketplace (criando CRM e programas de recorrência) e focar no domínio profundo de categorias específicas.
Inovação e experiência como diferenciais competitivos
Para o empresário Ostilo Júnior, CEO da Lavi Pet, fabricante de acessórios, brinquedos e camas para pets, a ameaça não está apenas nas grandes plataformas, mas na resistência à inovação por parte do varejo tradicional.
Segundo ele, o uso de tecnologia, incluindo inteligência artificial, já é um diferencial competitivo básico para grandes players, enquanto muitos pequenos lojistas ainda operam com estruturas defasadas.
“Essas grandes empresas têm profissionais que estão só pensando em ponto, estratégia, posicionamento na rede social, quais produtos inovadores são aderentes ao negócio, quais lançamentos vão trazer novidade para o mercado. Enquanto isso, o lojista pequeno às vezes está travado, não querendo usar IA”, completa.
Para o empresário, promover uma experiência agradável para o cliente é ponto fundamental na jornada de compra e a principal estratégia de sobrevivência dos pequenos pet shops diante da concorrência das grandes redes e, agora, das marcas próprias dos marketplaces.
“Se o lojista não trouxer a experiência de layout de loja, um bom conteúdo no Instagram para atrair o cliente ou um produto inovador que a pessoa só vai encontrar na loja dele, ele não vai continuar no mercado. Ele precisa de algo que faça o cliente sair de casa para ir até a loja dele”, aponta.
Posicionamento oficial
O Mercado Livre foi procurado para comentar o lançamento da areia sanitária para gato e falar mais sobre a estratégia de entrada no segmento pet com a marca própria Mercado Livre Basics, mas preferiu não se posicionar sobre o assunto.