Crise em Ormuz pode forçar novo reajuste de preços de pet food
Especialistas alertam que impacto vai além do petróleo e pode atingir fertilizantes, logística e embalagens
A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a colocar a indústria pet em estado de atenção. Embora o Brasil esteja distante do epicentro do conflito, o fechamento parcial do Estreito de Ormuz – corredor por onde circula cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo – já pressiona combustíveis, fretes e insumos industriais, com potencial de provocar uma nova rodada de reajustes de preços nos artigos de pet food.
A preocupação, entretanto, vai muito além do preço do barril de petróleo. Para especialistas, o setor enfrenta uma combinação de fatores que inclui alta dos custos logísticos, dependência de fertilizantes importados, volatilidade cambial e encarecimento de matérias-primas utilizadas desde a produção de alimentos até embalagens, brinquedos e acessórios.
Há poucos meses, empresas do segmento já vinham repassando aumentos de custos e, em alguns casos, chegaram a suspender temporariamente vendas diante das dificuldades logísticas provocadas pelo conflito. Na avaliação do CEO da consultoria Fórmula Pet Shop e diretor de expansão da Bable Pet, Ricardo de Oliveira, esse movimento pode ganhar intensidade caso a instabilidade persista.
“Quando se produzem casinhas, brinquedos e comedouros, boa parte da matéria-prima vem do plástico, cujo custo acompanha o petróleo. Se o conflito se prolongar, os preços podem subir até 60% em relação ao período anterior à guerra”, alerta.
Impacto indireto preocupa mais que eventual escassez
Apesar do cenário desafiador, a avaliação do Sindirações é de que não há sinais de desabastecimento para o mercado brasileiro. “O principal risco está na combinação de três fatores – aumento dos custos, maior complexidade logística e incerteza sobre a regularidade da oferta de insumos ao longo da cadeia agroindustrial”, destaca o CEO Ariovaldo Zani.
Apesar de o Brasil ser um dos maiores produtores mundiais de milho e soja, principais ingredientes das formulações de pet food, a cadeia permanece fortemente conectada ao mercado internacional.
Cerca de 85% dos fertilizantes utilizados pela agricultura brasileira são importados, sendo parte relevante proveniente do Oriente Médio. Caso ocorram interrupções nas rotas comerciais ou novas altas nos custos logísticos, a tendência é de encarecimento da produção agrícola e, posteriormente, dos alimentos para animais.
“Mesmo quando a matéria-prima agrícola é produzida no Brasil, ela carrega custos internacionais associados a fertilizantes, câmbio, frete marítimo, fluidez portuária e concentração de fornecedores globais”, explica Zani.
Cadeia mais preparada, mas ainda vulnerável
A experiência acumulada durante a pandemia tornou a indústria pet mais preparada para enfrentar rupturas globais. Diversificação de fornecedores, formação de estoques estratégicos e monitoramento permanente dos mercados internacionais passaram a fazer parte da rotina das empresas. Ainda assim, há limitações importantes, principalmente na fabricação de alimentos.
“A ração animal precisa atender parâmetros nutricionais, regulatórios, de segurança e de qualidade. Portanto, qualquer substituição de ingredientes deve preservar o equilíbrio nutricional, a digestibilidade, a palatabilidade e a segurança do alimento”, ressalta Zani.
Na avaliação do executivo, fortalecer a produção nacional de fertilizantes, ampliar a diversificação de fornecedores e investir em logística serão medidas fundamentais para reduzir a exposição da cadeia a futuras crises geopolíticas.
Consumidor pode sentir efeitos nos próximos meses
Se o conflito permanecer restrito e as rotas internacionais forem normalizadas, o impacto tende a ser administrável. Porém, um cenário prolongado pode ampliar significativamente a pressão sobre toda a cadeia pet.
Além dos alimentos, segmentos dependentes de derivados petroquímicos, como embalagens, tapetes higiênicos, caixas de transporte, brinquedos, comedouros e acessórios plásticos, também devem sofrer reajustes. Já o aumento do diesel eleva os custos de distribuição em um mercado altamente dependente do transporte rodoviário.
A expectativa do setor é de que a robusta safra brasileira de grãos ajude a amortecer parte dos impactos. Ainda assim, a indústria reconhece que permanece vulnerável a choques externos.
“Estar mais preparado não significa estar imune. A resiliência dependerá da combinação entre boa gestão empresarial, estabilidade macroeconômica, fluidez logística, diversificação de fornecedores e políticas que fortaleçam a segurança de abastecimento da cadeia agroindustrial”, conclui o dirigente do Sindirações.