A batalha pelo metro quadrado dentro do pet shop
Faturamento, margem, giro e recorrência ajudam a definir quanto espaço cada categoria deve ocupar no PDV
por Regina Blessa em
e atualizado em
O tamanho de uma loja é limitado e as gôndolas não esticam. As categorias, porém, disputam cada vez mais centímetros de exposição. E decidir quanto espaço cada uma delas merece deixou de ser apenas uma questão de organização. Passou a ser uma decisão de rentabilidade.
Quem merece ter mais visibilidade no PDV? O metro quadrado do pet shop não deve ser distribuído por tradição, mas de acordo com a capacidade de cada categoria de gerar faturamento, margem, recorrência e vendas adicionais.
Dados da Abempet ajudam a dimensionar essa disputa. Em 2025, o mercado pet brasileiro movimentou cerca de R$ 77,9 bilhões, com o pet food respondendo por R$ 41,42 bilhões, o equivalente a 53,1% do total. Portanto, a questão não é apenas identificar qual segmento apresenta maior rentabilidade.
É preciso ponderar indicadores como vendas por metro linear, margem, frequência de compra e qual papel cada produto desempenha na jornada do cliente. É aí que começa a verdadeira batalha pelo metro quadrado.
Sempre pergunto aos lojistas se eles controlam as vendas e o lucro de cada produto em planilhas ou sistemas, e a resposta nem sempre me agrada. Muitos ainda não sabem quanto e o que comprar porque desconhecem quais itens efetivamente vendem mais. Assim, fazem compras com base na percepção e acabam acumulando centenas de itens que ocupam espaço, mas contribuem pouco para o resultado da loja.
No pet shop, essa preocupação ganha ainda mais relevância porque convivem categorias com dinâmicas muito diferentes. Há produtos de compra recorrente, produtos de necessidade ou impulso, categorias de maior margem e serviços que ocupam área física, mas geram receita sob outra lógica. O espaço não deve ser democrático, deve ser produtivo
Ração – muito faturamento e muito espaço, mas com inteligência
Por ser o “arroz com feijão” da categoria alimentícia, a ração exige atenção especial às preferências dos consumidores de cada região. Mas existe uma armadilha. Faturamento não é sinônimo de rentabilidade por metro quadrado. A ração ocupa muito espaço, pesa, exige estoque e frequentemente trabalha com margens menores do que algumas categorias complementares. Por isso, o planograma não deve simplesmente ampliar o número de SKUs disponíveis.
Também é fundamental observar o perfil da clientela. Algumas lojas não têm demanda suficiente para justificar um grande espaço destinado aos gatos, enquanto outras conseguem sustentar dois corredores inteiros para a categoria.
Acessórios – menos espaço, mais margem e compra por impulso
Coleiras, guias, brinquedos, camas, roupas e outros acessórios têm uma dinâmica diferente da ração, pois dependem mais da exploração visual. Aqui o planograma deve trabalhar mais fortemente aspectos como visibilidade, variedade, preço e impulso. O desafio é fazer o consumidor perceber essas necessidades sem transformar a loja em um depósito de produtos.
Higiene e cuidados – uma categoria que merece ser melhor explorada
Tapetes, fraldas, areia, bandejas, pás, xampus, condicionadores, itens de higiene oral, limpeza do lar e outros produtos de cuidados podem desempenhar papel relevante na rentabilidade. O consumidor deveria encontrar soluções organizadas por necessidade em cada planograma e não apenas uma sequência de embalagens.
Pet Vet: pequeno espaço pode representar grande valor
Itens sujeitos a prescrição ou outras regras de comercialização devem seguir a legislação aplicável, enquanto produtos de livre escolha podem receber maior visibilidade no ponto de venda. O planograma deve facilitar a localização e a compreensão da categoria, respeitando as exigências legais e a orientação profissional quando aplicável.
Serviços também disputam o metro quadrado
Esse é um ponto que costuma ser esquecido. Serviços de banho e tosa e atendimento veterinário também ocupam espaço físico e podem contribuir para a recorrência de clientes. Portanto, a conta do metro quadrado precisa considerar também: receita de produto + receita de serviço + recorrência + vendas provocadas pelo serviço.
O grande erro dos planogramas
Muitos planogramas ainda são construídos principalmente a partir da relação entre quantidade de SKUs e espaço disponível.
O correto seria trabalhar com pelo menos 5 fatores:
| Indicador | Pergunta |
| Faturamento | Quanto a categoria vende? |
| Margem | Quanto ela gera de resultado? |
| Giro | Com que velocidade o estoque se transforma em venda? |
| Produtividade | Quanto vende por m² ou por módulo? |
| Venda adicional | Quantas outras categorias ela ajuda a vender? |
Como melhorar os planogramas
Comece a organizar a loja por missões de compra e não apenas por fornecedores ou marcas.
ALIMENTAÇÃO – (PRODUTOS DE DESTINO / CÃO E GATO)
→ ração super premium > naturais > premium > baratas > com granel no fundo
→ alimentação úmida > petiscos > complementos – no caminho para o caixa
HIGIENE
→ banho > higiene oral > tapetes > limpeza
PASSEIO
→ coleiras > guias > peitorais > acessórios por tamanho de animal
DIVERSÃO
→ brinquedos > mordedores > em corredor com visibilidade
FARMÁCIA
→ medicamentos veterinários > macacões > colares > cuidados
PRODUTOS DE GIRO LENTO
→ comedouros > em qualquer lugar menos nobre
→ rações terapêuticas > longe das rações normais ou perto da farmácia
→ roupas > em qualquer lugar, por que vendem pouco
→ casinhas > devem ir para o aéreo das gôndolas pois demoram a vender
→ pássaros > tomam espaço de produtos de giro rápido / sujam a loja
→ aquarismo > tomam enorme espaço e só lojas especializadas são as preferidas
→ roedores > quase não tomam espaço
Uma fórmula simples para começar pode ser produtividade do m² = margem gerada ÷ m² ocupado. Outra opção é venda por metro linear = faturamento da categoria ÷ metros lineares utilizados
A distribuição do espaço não deve ser tratada como uma decisão definitiva. Mudanças no comportamento do consumidor, sazonalidade, entrada de novos produtos e alterações no giro podem modificar a produtividade das categorias.
O melhor pet shop não é aquele que tem mais produtos. É aquele que transforma melhor seu espaço em vendas, margem e relacionamento. O metro quadrado precisa ajudar a cumprir uma função.