Vacinação de gatos tem baixa adesão, aponta pesquisa global
Pesquisa da MSD mostra que responsáveis por esses animais têm dificuldades de associar a saúde felina à rotina de vacinação
por Gabriel Sartini em
e atualizado em
A vacinação de gatos ainda ocupa posição secundária entre os cuidados percebidos como prioritários pelos tutores, apesar de estar entre as principais recomendações dos médicos veterinários. É o que mostra um levantamento global realizado pela MSD Saúde Animal, segundo o qual apenas 16% dos responsáveis por felinos associam a imunização à manutenção da saúde.
Entre os profissionais, a percepção é oposta: 69% colocam a vacinação entre os principais cuidados preventivos. A diferença evidencia uma lacuna na comunicação sobre prevenção e pode ajudar a explicar parte da baixa adesão aos protocolos vacinais.
O estudo também aponta um descompasso entre a demanda por orientação e a oferta de materiais educativos. 58% dos responsáveis dependem do médico veterinário para obter informações sobre vacinas, mas apenas 23% dos profissionais afirmam compartilhar ativamente conteúdos sobre o tema.
A pesquisa foi apresentada no World Feline Congress 2026 e publicada na revista científica Veterinary Sciences. O estudo ouviu 1.330 médicos veterinários de animais de companhia e 5.071 responsáveis por gatos, em 14 países, incluindo o Brasil.
Recomendação veterinária influencia decisão
A consulta veterinária aparece como uma oportunidade para aumentar a adesão. A recomendação do médico veterinário foi apontada por 71% dos profissionais como o principal fator de estímulo à vacinação.
Entre os responsáveis que mantêm os gatos imunizados, o principal motivo é o desejo de preservar a saúde do animal, citado por 62%. A indicação do veterinário aparece em seguida, com 57%.
Para Melissa Bourgeois, médica veterinária, PhD e diretora técnica global de Biológicos para Animais de Companhia da MSD Saúde Animal, os resultados mostram espaço para uma atuação mais informativa das clínicas.
“Os responsáveis por gatos confiam nos médicos veterinários para obter informações sobre vacinas, e os profissionais estão na posição ideal para remover barreiras, preencher lacunas de conhecimento e elevar as taxas de vacinação”, comenta a especialista.
Alimentação supera vacinação entre prioridades dos tutores
A diferença de percepção fica mais evidente quando os participantes são questionados sobre os cuidados considerados mais importantes para a saúde felina.
Entre os responsáveis, 94% citaram espontaneamente a alimentação de alta qualidade entre os três principais fatores. Consultas de rotina aparecem com 39%, afeto com 35% e brincadeiras com 17%. A vacinação foi mencionada por apenas 16%.
Entre os veterinários, o cenário se inverte: vacinação e nutrição de alta qualidade empataram, com 69% das citações, como fatores prioritários para a saúde dos gatos.
Gatos que vivem dentro de casa também estão no radar
A percepção de baixo risco aparece entre as principais barreiras à imunização. Entre os responsáveis que optam por não vacinar seus gatos, 27% consideram as vacinas desnecessárias para animais saudáveis. O mesmo percentual acredita que a imunização não é necessária para gatos que vivem exclusivamente em ambientes internos.
Do ponto de vista clínico, os obstáculos estão mais relacionados à informação. 53% dos veterinários apontam a falta de entendimento do cliente como uma barreira, enquanto 51% citam a disseminação de informações incorretas.
Para José Carlos Pereira Jr., diretor da unidade de Animais de Companhia da MSD Saúde Animal Brasil, o levantamento mostra uma diferença entre a percepção de risco dos responsáveis e a avaliação clínica dos profissionais.
“Muitos acreditam que um animal que vive exclusivamente dentro de casa não precisa ser vacinado, quando, na prática, a prevenção continua sendo fundamental para protegê-lo de doenças potencialmente graves.”
Protocolos devem considerar o perfil do paciente
A definição do protocolo vacinal deve considerar características individuais do gato, como idade, histórico de saúde, ambiente e risco de exposição a agentes infecciosos. A avaliação clínica permite adequar a estratégia preventiva às condições de cada paciente.
Segundo Pereira Jr., a ampliação do acesso à informação deve acompanhar a disponibilidade de tecnologias preventivas. “O médico veterinário desempenha um papel decisivo nesse processo, e nosso compromisso é apoiá-lo com evidências científicas, ferramentas de educação e um portfólio completo de vacinas.”
Pesquisa ouviu mais de 6,4 mil participantes
O estudo “Drivers, Barriers, and Unmet Needs affecting Feline Vaccination Compliance: Insights from a Global Survey of Cat Owners and Veterinarians” foi realizado entre maio e agosto de 2024.
A amostra reuniu participantes de 14 países: Estados Unidos, Canadá, Japão, Brasil, México, Austrália, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Polônia, Bélgica, Holanda e Dinamarca.
Ao todo, foram entrevistados 6.401 participantes, entre médicos veterinários de animais de companhia e responsáveis por gatos.