Falhas em plantões expõem crise na formação veterinária
Fiscalização nacional aponta irregularidades em um a cada cinco serviços de urgência e emergência e reforça debate sobre qualidade do ensino
A primeira radiografia nacional dos serviços veterinários de plantão revelou um cenário que vai além das irregularidades estruturais encontradas em clínicas e hospitais. Os dados da operação De Olho no Plantão, conduzida pelo Conselho Federal e pelos Conselhos Regionais de Medicina Veterinária (CFMV/CRMVs), revelaram irregularidades em um a cada cinco atendimentos de urgência e emergência.
Entre os dias 6 e 14 de junho, foram fiscalizados 1.127 estabelecimentos em praticamente todo o país. O resultado mostrou que 21,9% apresentaram algum tipo de irregularidade, incluindo 82 casos de ausência de médico-veterinário durante o funcionamento do plantão. Também foram registradas 258 inconformidades estruturais e administrativas, como falta de Responsabilidade Técnica (ART), ausência de ambientes de descanso para as equipes e deficiências na infraestrutura mínima exigida.
Embora muitas dessas irregularidades estejam relacionadas à gestão dos estabelecimentos, lideranças do setor afirmam que o diagnóstico evidencia uma dificuldade cada vez maior para contratar profissionais aptos a atuar em hospitais veterinários, especialmente em áreas críticas.
Mercado cresce, mas especialistas continuam escassos
O número de hospitais veterinários continua em expansão, impulsionado pela profissionalização do mercado pet e pela maior disposição dos tutores em investir em tratamentos de alta complexidade. No entanto, essa evolução encontra um obstáculo importante – a dificuldade de formar e reter especialistas realmente capacitados.
“Se olharmos apenas para a formação, o que mais existe são cursos de pós-graduação lato sensu em diversas especialidades. A cada ano saem da academia dezenas de ortopedistas, cardiologistas e oftalmologistas. Em números absolutos, não parece faltar especialista”, analisa a vice-presidente da Associação Brasileira de Hospitais Veterinários (ABHV) e CEO da rede Animaniacs, Tatiana Machado.
Mas segundo ela, a dificuldade aparece quando os hospitais precisam preencher escalas de atendimento. Muitos recém-formados ingressam rapidamente em cursos de especialização, mas ainda sem experiência clínica suficiente para lidar com casos complexos ou assumir plantões hospitalares. O resultado é uma oferta crescente de títulos, mas uma disponibilidade limitada de profissionais efetivamente preparados.
Ensino sob pressão
A discussão também amplia o foco sobre a qualidade da formação veterinária no Brasil. Nos últimos anos, o país assistiu à multiplicação de cursos de medicina veterinária e ao avanço de modelos híbridos e de ensino a distância para parte da graduação, movimento que vem sendo acompanhado com preocupação.
Apesar de disciplinas teóricas poderem incorporar recursos digitais, representantes do setor defendem que a formação veterinária depende de atividades práticas intensivas, treinamento hospitalar, laboratórios, manejo animal e desenvolvimento de habilidades clínicas que não podem ser plenamente substituídos pelo ensino remoto.
Para o presidente da Associação Nacional de Médicos-Veterinários (ANMV), Marcio Mota, o país forma um número crescente de médicos-veterinários, mas oferece poucas oportunidades de residência, considerada o principal mecanismo de capacitação prática para atuação em hospitais.
“O número de vagas em residência está muito aquém da quantidade de médicos-veterinários formados anualmente”, reforça. Sem essa etapa de formação, muitos profissionais ingressam diretamente no mercado como clínicos gerais ou plantonistas e buscam aperfeiçoamento paralelamente ao trabalho.
Na avaliação de Mota, a expansão acelerada dos cursos superiores torna ainda mais urgente o fortalecimento dos mecanismos de avaliação da qualidade do ensino, especialmente diante da crescente oferta de componentes curriculares a distância em uma profissão essencialmente prática.
Fiscalização precisa começar na universidade
Para o CFMV, os resultados da operação demonstram a importância de ampliar a fiscalização dos serviços veterinários como instrumento de proteção à sociedade.
A presidente da entidade, Ana Elisa Almeida, destaca que o compromisso assumido pelos estabelecimentos deve ser compatível com o atendimento oferecido. “Quando um estabelecimento anuncia atendimento de plantão, assume um compromisso com a sociedade. Quem procura esse serviço espera encontrar um médico-veterinário apto a avaliar o paciente e tomar decisões imediatas em situações que podem definir a vida de um animal”, adverte.
Já a coordenadora nacional da operação, Patrícia Stolano, ressalta que a presença do médico-veterinário durante o plantão é indispensável para garantir a segurança assistencial. “É o médico-veterinário quem possui competência técnica para avaliar o paciente, definir o tratamento, realizar procedimentos e tomar decisões imediatas em situações de urgência e emergência”, comenta.