Mercado de alimentação natural para pets deve mais que dobrar até 2033
Segmento cresce com humanização dos pets e avanço do e-commerce, mas ainda enfrenta desafios de preço e padronização
por Juliana de Caprio em
O mercado global de alimentação natural para pets vive um processo acelerado de expansão e consolidação. Impulsionado pela crescente humanização dos animais de estimação e pela busca dos tutores por produtos alinhados às tendências da alimentação humana, o segmento deve saltar de US$ 12,5 bilhões (R$ 61,7 bilhões) em 2024 para US$ 28,7 bilhões (R$ 141,7 bilhões) até 2033, com crescimento anual composto de 9,6%, segundo levantamento da consultoria Marketintelo.
O estudo aponta que a alimentação natural deixou de ocupar apenas um nicho premium para se tornar um segmento estruturalmente relevante dentro da indústria pet. A pesquisa destaca que mais de 60% dos moradores de áreas urbanas já consideram os pets como membros da família, movimento que vem aproximando o comportamento de compra dos tutores das escolhas feitas para a própria alimentação. Conceitos como “clean label”, ingredientes orgânicos e nutrição funcional passaram a ser vistos como diferenciais importantes no setor.
“Além do aspecto nutricional, o mercado também passa por uma mudança estratégica importante. Os alimentos naturais estão sendo posicionados cada vez mais como ferramentas preventivas de saúde e bem-estar animal, deixando de ser tratados apenas como commodities dentro do varejo pet”, relata Ashish Kolte, executivo de marketing da consultoria.
Apesar do avanço acelerado, o estudo mostra que ainda existe uma distância significativa entre o interesse declarado pelos consumidores e o consumo efetivo desses produtos. Embora mais de 70% dos tutores afirmem preferir alimentos naturais para os pets, a adoção permanece próxima de 40% em escala global.
Entre os principais obstáculos estão o preço elevado e a dificuldade de fidelização. Segundo o levantamento, os alimentos naturais podem custar entre 30% e 80% mais do que as opções convencionais, fator que limita o consumo recorrente em diferentes mercados. Além disso, aproximadamente um terço dos consumidores volta a utilizar produtos tradicionais poucos meses após testar a alimentação natural.
Outro ponto destacado pela consultoria é a ausência de uma padronização global para o termo “natural”, o que gera confusão entre os consumidores e compromete a confiança no segmento. Para os analistas, muitas vezes o discurso de marketing cresce mais rapidamente do que a diferenciação real dos produtos disponíveis no mercado.
Jovens lideram interesse, mas preço ainda pesa
A pesquisa aponta que millennials e integrantes da geração Z lideram o interesse por produtos premium e de rótulo limpo. Cerca de 65% a 70% dos jovens tutores afirmam estar dispostos a pagar mais por esse tipo de alimentação, mas apenas 35% a 40% mantêm ciclos contínuos de recompra.
O comportamento revela uma tensão entre aspiração e capacidade financeira, especialmente em mercados emergentes. Mesmo em economias desenvolvidas, muitos consumidores alternam entre alimentos naturais e convencionais conforme o orçamento disponível. O estudo também identifica desafios ligados à adaptação dos animais às novas dietas, já que entre 20% e 25% dos tutores relatam dificuldades na transição alimentar.
E-commerce e sustentabilidade impulsionam expansão
Entre os fatores estruturais que sustentam o crescimento do segmento estão a expansão do comércio eletrônico, a maior preocupação dos tutores com saúde preventiva e o avanço da pauta sustentável no consumo pet.
O levantamento destaca que o e-commerce de produtos premium cresce acima de 20% e vem ampliando o acesso dos consumidores à alimentação natural. Paralelamente, critérios ligados à sustentabilidade, rastreabilidade e origem ética dos ingredientes passaram a influenciar diretamente a escolha das marcas, sobretudo em mercados mais maduros.
Segundo a Marketintelo, o consumo da categoria ainda acontece de forma gradual. Muitos tutores começam utilizando os produtos naturais como complemento alimentar ou solução específica para determinadas condições de saúde dos pets, migrando apenas posteriormente para o uso contínuo.
Mercado aposta em nutrição funcional e personalização
O relatório também mostra uma mudança importante no perfil das inovações do setor. Se anteriormente o diferencial estava concentrado em claims como “orgânico” ou “grain free”, agora o foco passa a ser a nutrição funcional, com produtos direcionados para saúde digestiva, imunidade e dietas específicas.
Com o aumento da concorrência e a popularização de promessas semelhantes entre diferentes marcas, confiança, transparência e consistência operacional passaram a ser elementos centrais para diferenciação competitiva.
O estudo ainda aponta que o futuro do mercado deve ser marcado por maior personalização, uso de dados de consumo e modelos baseados em assinaturas. Segundo a consultoria, o crescimento da próxima década dependerá menos da expansão do número de consumidores e mais da capacidade das empresas em reter clientes de maneira sustentável e financeiramente viável.
Entre as principais empresas citadas no levantamento estão Mars Petcare, Nestlé Purina PetCare, Hill’s Pet Nutrition, Freshpet e Wellness Pet Company.