Pets superam alimentos básicos no orçamento familiar
Comportamento reforça mudança estrutural no consumo na América Latina
O mercado pet deixou de ocupar um papel complementar e passou a competir diretamente com itens básicos dentro do orçamento das famílias. Uma análise da Worldpanel by Numerator indica que os gastos com animais de estimação já crescem em ritmo superior ao de alimentos essenciais na América Latina – um movimento que reforça a transformação estrutural do consumo na região.
Segundo o levantamento, o segmento de pet food ampliou em 30% sua participação dentro do total de bens de consumo massivo (FMCG), avançando sobre categorias tradicionalmente prioritárias. Mesmo em um cenário de pressão inflacionária, o consumidor tem reorganizado suas prioridades, elevando o peso do bem-estar animal.
Humanização redefine prioridades
A principal força por trás desse avanço é a humanização dos pets. Cada vez mais tratados como membros da família, os animais assumem papel central nas decisões de compra.
No Brasil, esse fenômeno ganha escala. O país soma cerca de 160 milhões de animais de estimação e ocupa a terceira posição no ranking global do setor. “A média superior a um pet por residência intensifica o vínculo emocional e amplia as despesas com alimentação, saúde e bem-estar”, contextualiza Nacira Barraza, diretora executiva da Worldpanel by Numerator para o continente.
A consultora destaca ainda que a categoria ganha capilaridade rapidamente. A categoria de pet food vem ampliando sua penetração de forma acelerada, refletindo também mudanças demográficas. Lares com pessoas acima de 65 anos e sem filhos já concentram 16% do valor do mercado.
Digitalização acelera consumo
Outro vetor relevante é o avanço do comércio eletrônico. Nos últimos três anos, o e-commerce de alimentos para pets cresceu mais de 300% em valor na América Latina, com aumento de 60% na penetração entre consumidores.
O Brasil lidera esse movimento, impulsionado pela entrada de novos lares compradores e pela adesão a modelos de compra recorrente, como assinaturas e entregas programadas – estratégias que elevam o tíquete médio e aumentam a fidelização.
“Observamos uma clara tendência de premiumização, com a migração para produtos de maior valor agregado, como alimentos úmidos e snacks, que elevam o nível de investimento das famílias”, explica Nacira. Em mercados mais maduros, como o México, o digital já representa uma fatia relevante do setor, enquanto países como a Argentina combinam a digitalização com estratégias de consumo mais racional.
Resiliência mesmo em crise
Um dos aspectos mais relevantes do mercado pet é sua resiliência. Mesmo diante de restrições orçamentárias, os gastos com animais seguem em trajetória de crescimento. O share of spend da categoria já atingiu 4% do total de FMCG, com avanço 60% superior ao observado em itens essenciais — evidência clara de que o cuidado com os pets se tornou prioridade.
“Esse movimento ajuda a explicar por que os gastos com animais continuam crescendo mesmo em contextos de pressão econômica, consolidando o setor como um dos mais dinâmicos da região”, conclui a consultora.
Esse cenário abre espaço para novos modelos de negócio, como planos de saúde animal, alimentação premium, produtos naturais e soluções tecnológicas. Pequenas e médias empresas podem ganhar protagonismo ao explorar nichos e oferecer serviços especializados, acompanhando a sofisticação da demanda.