Exclusivo: estudo aponta contrastes entre mercados pet brasileiro e norte-americano
Análise da WeVets revela avanços do setor em ambos os países, mas com fortes diferenças estruturais
por Marcia Arbache em
e atualizado em
O mercado pet e veterinário vive um ciclo de expansão acelerado tanto nos Estados Unidos como no Brasil, impulsionado pelo aumento da população de animais de estimação e pelo nível de atenção dos tutores. Mas esse avanço escancara profundas diferenças estruturais, conforme aponta um estudo inédito elaborado por Rodrigo Gatti, CEO da WeVets.
Nos Estados Unidos, o mercado já é altamente desenvolvido e conta com a maior população de pets do mundo, estimada em cerca de 150 milhões de animais. Aproximadamente, 70% dos lares mantêm ao menos um pet e os gastos anuais chegam a US$ 824 por animal.
Esse cenário sustenta um crescimento consistente. “Os lares com pets aumentam cerca de 1,5% ao ano, enquanto os serviços veterinários avançam 4,6%. Com isso, o mercado como um todo cresce 6,1% ao ano”, afirma.
Já o Brasil ocupa a terceira posição global, com cerca de 102 milhões de animais, e apresenta um ritmo de crescimento ainda mais acelerado. A população pet aumenta 3,1% ao ano e o mercado veterinário avança 16% anuais. Apesar disso, a penetração nos lares é menor, de 53%. Os gastos médios são significativamente mais baixos – cerca de US$ 114 por animal ao ano – indicando um amplo espaço para o incremento e a sofisticação da oferta de produtos e serviços.
Força de trabalho é maior discrepância
Os contrastes mais marcantes, no entanto, estão na estrutura da força de trabalho. Nos Estados Unidos, o setor enfrenta uma escassez crítica de profissionais. Em 2022, havia cerca de 97 mil veterinários no país, com apenas 4,3 mil novos graduados por ano. A projeção indica um déficit de 14 mil a 24 mil profissionais até 2030, o que pode representar uma carência de até 18%.
“Esse cenário pressiona custos. A remuneração média anual gira em torno de US$ 90 mil (US$ 7,5 mil por mês) e tem levado 40% dos profissionais a considerar abandonar a carreira”, ressalta.
Por aqui, o quadro é oposto. Há abundância de mão de obra, com mais de 116 mil veterinários e cerca de 11 mil novos formados por ano, em 536 cursos. No entanto, a qualidade da formação representa um ponto crítico. Mais de 84% dos profissionais relatam que o aprendizado prático na graduação foi insuficiente e 60% já pensaram em deixar a profissão.
A remuneração média gira em torno de R$ 5 mil mensais (US$ 956) e também reflete um mercado mais pulverizado, com 52,7% dos profissionais atuando de forma autônoma.
Eficiência operacional americana x baixa qualificação brasileira
Nos Estados Unidos, o déficit de profissionais qualificados impulsionou a busca por eficiência operacional, com maior digitalização de clínicas e uso intensivo de técnicos especializados.
Além disso, o acesso a verba permite investimentos robustos em hospitais bem estruturados, geralmente com equipes de três a cinco veterinários, criando barreiras de entrada e estimulando movimentos de fusões e aquisições como estratégia de expansão.
A combinação de mão de obra abundante, baixa qualificação e escassez de capital favorece a informalidade no Brasil e limita o desenvolvimento de estruturas mais robustas.
Ao mesmo tempo, esse cenário abre oportunidades relevantes:
- consolidação do mercado por meio de aquisições seletivas
- projetos greenfield em regiões pouco exploradas
- criação de programas educacionais
- trilhas de carreira mais estruturadas
Já o Brasil apresenta um “espaço em branco” significativo, que pode ser ocupado por empresas capazes de combinar investimento, qualificação e gestão profissional.