Marcas próprias aceleram no mercado pet com suplementos e petiscos em alta
Estudo mostra avanço das marcas próprias em pet care, enquanto preço e diferenciação ampliam a disputa por margem no varejo
por Gabriel Sartini em
O avanço das marcas próprias está mudando a disputa por espaço, margem e diferenciação no mercado pet. O modelo ganha espaço em categorias de maior valor agregado, especialmente em suplementos, petiscos e produtos com benefícios funcionais.
Fabricantes, varejistas e distribuidores enxergam que o movimento abre uma nova frente de negócios. Enquanto o consumidor continua sensível ao preço, cresce a demanda por produtos que entreguem qualidade, transparência e benefícios claros para a saúde dos animais.
A tendência aparece no 2026 Private Label Pet Market Report, da ADM, que reúne pesquisas de consumo e dados de mercado de fontes como Numerator, PLMA, Innova e Morning Consult. O levantamento combina indicadores globais sobre o comportamento dos tutores com dados do varejo dos Estados Unidos e da América do Norte.
Marcas próprias crescem acima das marcas nacionais
No varejo geral dos Estados Unidos, o faturamento das marcas próprias cresceu 3,3% em 2025, quase três vezes acima da alta de 1,2% registrada pelas marcas nacionais.
No segmento de pet care, as vendas em unidades de marcas próprias avançaram 5,4%. O movimento reforça que a categoria deixou de estar restrita a produtos básicos e passou a ocupar espaço em segmentos mais sofisticados.
Para o varejo, a estratégia combina diferentes objetivos: ampliar margem, reduzir a comparabilidade direta com concorrentes e desenvolver produtos exclusivos.
Segundo Antônio Sá, sócio-fundador da Amicci, plataforma que conecta varejistas a indústrias para criar e gerenciar produtos de marca própria, essa transformação é estrutural. “As marcas próprias deixaram de ser apenas uma alternativa de preço e se tornaram um ativo estratégico para os varejistas. Elas ampliam margens, fortalecem a fidelização e criam diferenciação em um ambiente cada vez mais competitivo”, afirma.
No Brasil, essa estratégia ainda enfrenta um desafio importante: a escala necessária para viabilizar projetos de private label. A produção costuma exigir volumes mínimos, investimento em embalagens e capacidade de escoamento.
Na avaliação de Neide Montesano, presidente da Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização (Abmapro), a fragmentação do varejo pet limita uma expansão mais acelerada. “A marca própria precisa de escala, de volume e de massa crítica”, avalia.
Escala limita expansão entre pequenos varejistas
A barreira ajuda a explicar por que o modelo ainda está mais presente entre grandes redes e operadores com maior poder de compra. Para pequenos e médios pet shops, o desafio vai além de criar uma marca porque também é preciso garantir volume suficiente para diluir custos de desenvolvimento, produção, embalagem e estoque.
O modelo também cria oportunidades para fabricantes especializados. Empresas que atuam em categorias como tapetes higiênicos, areia sanitária, higiene e acessórios já atendem varejistas, distribuidores e redes interessadas em lançar produtos exclusivos sem instalar estrutura industrial própria.
Suplementos e petiscos lideram nova fase
Os dados da ADM indicam que a expansão pode avançar justamente para categorias de maior valor agregado. Os petiscos de marcas próprias registraram crescimento de 67% em volume de vendas em 2025, enquanto as vendas em unidades de suplementos cresceram 39%.
O desempenho sugere uma mudança na estratégia das marcas próprias. O foco deixa de estar concentrado apenas em categorias mais padronizadas e passa a alcançar produtos em que formulação, ingredientes e alegações funcionais são decisivos.
Para o mercado brasileiro, o movimento merece atenção. As marcas próprias já possuem presença em categorias recorrentes, como higiene e areia sanitária, mas suplementos e petiscos funcionais podem representar a próxima fronteira de desenvolvimento do modelo.
Preço divide espaço com qualidade e funcionalidade
A pesquisa também aponta uma mudança na lógica da premiumização. O consumidor continua buscando produtos associados a ingredientes de qualidade e benefícios para a saúde, mas avalia com maior rigor a relação entre preço e entrega.
Nos Estados Unidos, 62% dos compradores de produtos pet na Amazon afirmam que o preço é o principal fator na escolha do varejista.
Ao mesmo tempo, 77% dos tutores globais concordam que vale pagar mais por produtos pet com benefícios claros para a saúde. A combinação desses dois comportamentos cria espaço para o que a ADM define como uma busca por valor premiumizado: produtos com atributos superiores, mas sem preços incompatíveis com a realidade do consumidor.
A oportunidade, portanto, está em entregar benefícios percebidos e comunicação clara a um preço competitivo.
Ingredientes influenciam a troca de marca
A formulação também ganha peso na decisão de compra. 62% dos tutores consultados globalmente apontam a lista de ingredientes como principal motivo para trocar de marca de alimento ou ração.
As principais preocupações de saúde incluem saúde digestiva, longevidade, saúde imunológica, articulações e saúde bucal.
Segundo a ADM, consumidores estão cada vez mais atentos à transparência das formulações e à presença de ingredientes reconhecíveis, o que reforça o avanço de conceitos como clean label e ingredientes com respaldo científico.
Marketplaces ampliam disputa por dados e produtos próprios
O avanço das marcas próprias também chega ao comércio eletrônico. A entrada do Mercado Livre Basics no segmento pet, inicialmente com areia sanitária para gatos, sinaliza o avanço da verticalização das plataformas no Brasil.
Nesse modelo, marketplaces deixam de atuar apenas como intermediários e passam a utilizar dados de busca, giro e comportamento de compra para identificar categorias com demanda consolidada e desenvolver produtos próprios.
A estratégia amplia a pressão sobre fabricantes, distribuidores e vendedores, mas também reforça o potencial das marcas próprias como instrumento de controle de portfólio e relacionamento com o consumidor.
Para Alberto Serrentino e Eduardo Terra, fundadores do Instituto Retail Think Tank (IRTT), o avanço brasileiro acompanha uma tendência internacional e representa “uma oportunidade concreta de diferenciação e rentabilidade”.
Embalagem, proteína e funcionalidade
A ADM aponta quatro caminhos para fortalecer a percepção de valor das marcas próprias pet: maior teor proteico ou identificação clara das fontes de proteína; alegações funcionais direcionadas; formulações com comunicação mais transparente; e embalagens capazes de reduzir a associação entre menor preço e menor qualidade.
O desafio para a indústria e o varejo será combinar esses elementos com preços competitivos e escala produtiva.
O avanço global das marcas próprias sugere que a próxima etapa de crescimento do modelo no mercado pet deve migrar para quem consegue transformar dados de consumo, funcionalidade e exclusividade em produtos de maior valor percebido.