SAMUVET auxilia resgate emergencial de pets nas cidades
Serviços municipais inspirados no SAMU humano ampliam o socorro a cães e gatos feridos e passam a integrar políticas públicas de bem-estar animal
por Juliana de Caprio em
Serviços municipais voltado a emergências envolvendo pets começam a se consolidar no Brasil como estratégia de proteção animal e apoio à saúde pública. Chamado de SAMUVET, o sistema oferece resgate e transporte de animais feridos ou em situação crítica, funcionando de forma semelhante ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) humano.
Municípios como Bragança Paulista (SP), Belo Horizonte (MG) e Pouso Alegre (MG) já contam com iniciativas estruturadas. Na capital mineira, o serviço ainda está em fase final de implantação. O projeto surgiu a partir da ampliação de um contrato municipal voltado à assistência veterinária pública.
Segundo a diretora de projetos e parcerias da fauna da prefeitura de Belo Horizonte, Jane Karoline, o atendimento será acionado por meio de uma central telefônica, que fará a triagem das ocorrências e definirá a prioridade de cada caso.
“O sistema foi pensado para atender exclusivamente situações críticas envolvendo cães e gatos. A estrutura não funcionará como clínica itinerante, mas como um mecanismo de resposta rápida para situações que coloquem a vida do animal em risco”, esclarece.
O modelo prevê seis ambulâncias em operação e uma equipe composta por médico veterinário, motorista e auxiliar. A previsão inicial é de cerca de 85 atendimentos por mês, com cobertura em todo o território do município e funcionamento ininterrupto.
Após o resgate, os animais serão encaminhados ao Complexo Público Veterinário da cidade para continuidade do tratamento. A base operacional do serviço também funcionará nesse espaço, que deverá concentrar a central de regulação e a mobilização das equipes.
A criação do SAMUVET foi motivada pela ausência de um fluxo estruturado para socorrer animais feridos nas ruas. Segundo Karoline, a medida busca preencher essa lacuna. “Quando alguém encontra um animal atropelado, muitas vezes não existe um caminho claro para garantir atendimento”, afirmou a diretora durante entrevista.
Além do atendimento emergencial, o serviço também poderá atuar em resgates de risco, como animais presos em bueiros ou em locais elevados, e no transporte de pacientes críticos entre unidades veterinárias.
A expectativa da prefeitura é avaliar a demanda ao longo dos primeiros anos de funcionamento. O contrato inicial prevê duração de 24 meses e poderá ser ajustado conforme o volume de atendimentos.
Experiências em outras cidades (H2)
Em Pouso Alegre, o SAMUVET foi implantado com foco no atendimento de animais de rua e também de pets pertencentes a famílias de baixa renda. O serviço utiliza um veículo adaptado para realizar o transporte até o Centro de Bem-Estar Animal da cidade.
Já em Bragança Paulista, o serviço opera 24 horas por dia e é acionado por telefone ou mensagens via WhatsApp. Nesse caso, porém, é voltado apenas ao resgate de animais em situação de rua que estejam doentes, feridos ou tenham sido vítimas de acidentes.
A estrutura atual está diretamente vinculada à gestão do abrigo municipal, realizada pela Associação Faros d’Ajuda há duas décadas. Segundo a fundadora e presidente da Organização, Marcia Davanso, o modelo 24 horas foi incorporado em 2019, a partir de um novo chamamento público, que ampliou as atribuições da entidade.

rua | Imagem: Prefeitura de Bragança Paulista
Ela explica que a iniciativa foi desenvolvida com base na experiência do médico-veterinário Cláudio Zago, com atuação em resgates, e adaptada à realidade local.
O fluxo de atendimento começa com o acionamento direto da equipe, que avalia cada ocorrência e realiza o resgate quando necessário. Os animais são encaminhados ao abrigo, onde recebem atendimento emergencial, internação e acompanhamento clínico. “Na dúvida, a gente socorre”, afirmou a responsável, destacando que o critério prioritário é a gravidade do caso.
Apesar de ser destinada exclusivamente a animais sem tutor, a operação enfrenta desafios recorrentes. Segundo ela, há casos em que tutores acionam o serviço indevidamente por falta de acesso a atendimento veterinário. “Muitas vezes, por desespero, a pessoa acaba solicitando como se fosse animal de rua”, relata.
Os números evidenciam a alta demanda. Desde a implantação, o volume de atendimentos cresceu de cerca de 1.600 ocorrências em 2019 para mais de 2.200 no ano passado. Entre os casos mais frequentes estão atropelamentos, doenças infecciosas como cinomose e quadros graves como politraumas e infecções avançadas.
Esse aumento impacta diretamente a estrutura do abrigo municipal, que atualmente opera acima da capacidade. A responsável aponta que o crescimento da demanda não foi acompanhado por investimentos proporcionais. “O serviço de resgate é muito bom, mas o pós-atendimento é deficiente”, avalia.
Outro ponto crítico é o perfil dos animais atendidos. Muitos chegam em estado grave ou são idosos, o que reduz as chances de adoção e prolonga a permanência no abrigo. Como estratégia, a equipe busca, sempre que possível, tratar casos menos graves no próprio local, com apoio de cuidadores comunitários, evitando a superlotação.
A operação do SAMUVET também depende de uma estrutura limitada. Atualmente, o município conta com apenas uma ambulância para o atendimento. Em casos de manutenção do veículo, a prefeitura disponibiliza alternativas provisórias para garantir a continuidade do serviço.
Além de cães e gatos, o SAMUVET presta apoio eventual no resgate de animais silvestres fora do horário administrativo da Secretaria do Meio Ambiente. Nesses casos, os animais são encaminhados posteriormente para instituições especializadas. No entanto, a responsável ressalta que essa atuação é complementar e evidencia uma lacuna no atendimento contínuo a outras espécies.
Na avaliação da gestora, o serviço é essencial para o município, principalmente pela agilidade no socorro aos animais em situação crítica. “O atendimento é rápido e garante o primeiro suporte”, destaca. Por outro lado, ela pondera que ainda há desafios relacionados à conscientização da população e à dependência do serviço, que por vezes é confundido com outras funções, como recolhimento de animais.
Impacto na conscientização e bem-estar animal (H2)
Além de garantir atendimento emergencial, as iniciativas municipais também buscam ampliar a conscientização sobre guarda responsável e maus-tratos. Para Karoline, a visibilidade do serviço contribui para estimular a população a denunciar situações de risco.
Na avaliação da prefeitura de Belo Horizonte, a presença das ambulâncias veterinárias nas ruas pode ajudar a fortalecer essa percepção. “Quando o atendimento ao animal passa a ser tratado como prioridade, isso desperta maior consciência na população”, conclui.