Alta procura por cães de raça impulsiona mercado pet
Entidades do setor salientam necessidade de conscientização sobre criação responsável
por Marcia Arbache em
O aumento da procura por cães de raça e com pedigree tem gerado reflexos diretos em toda a cadeia do setor pet brasileiro – da criação responsável à indústria de alimentos superpremium, passando por clínicas, hospitais veterinários e planos de saúde animal. A avaliação é de Renato Almada, vice-presidente da Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC).
Segundo ele, o movimento teve seu auge durante a pandemia de Covid-19, quando o isolamento social levou milhares de pessoas a buscarem companhia de animais de estimação. “O criador tinha uma ninhada e praticamente no dia seguinte já estava tudo vendido. Mas a demanda permanece aquecida, especialmente para determinadas raças’’, enfatiza.
Raças em evidência e modismo
Entre as mais procuradas, ele cita o cavalier king charles spaniel, o pastor americano miniatura – versão menor do australian shepherd – e o spitz alemão anão, popularmente conhecido como lulu da Pomerânia. Almada alerta, porém, para o risco do chamado “efeito moda”. O futuro proprietário, frisa, não pode adquirir determinada raça por causa de uma onda efêmera. “ Ele deve saber se tem condições de oferecer o ambiente, o espaço e os cuidados necessários ao animal“, comenta.
O vice-presidente da CBKC ressalta que cabe ao criador responsável fazer uma avaliação inicial do interessado. Algumas raças não são indicadas para quem nunca teve cão e o aumento da demanda exige reforço na conscientização – tanto de quem compra quanto de quem vende. “Estamos falando de um animal que pode viver 10, 12, 15 anos. A pessoa precisa ter consciência de que está assumindo uma responsabilidade por todo esse período”, argumenta.
Escolha da raça vai além de aspectos estéticos
Avaliação semelhante faz Leandro de Souza, vice-presidente da Associação Brasileira de Criadores Independentes (Abraci). Segundo ele, a escolha por um animal de raça vai além da estética. “Hoje muitas pessoas buscam uma raça que se encaixe no seu ritmo de vida, no espaço que tem em casa e até em questões familiares. Não é apenas um critério visual”, pontua.
Seleção genética e pedigree
Por outro lado, Souza, da Abraci, aponta o risco de expansão desordenada da criação. A alta demanda poderia estimular a entrada de pessoas despreparadas nesse mercado. “Alguns criadores vendem os filhotes a preços abaixo do mercado, mas negligenciam a seleção genética adequada, o que prejudica o trabalho de quem se dedica há anos a uma raça”, afirma.
Já Almada, da CBKC, enfatiza a importância do pedigree – às vezes, subestimada por parte de eventuais compradores. O documento é fundamental para conhecer a procedência do animal, quem são os pais, os avós, o histórico de saúde. O diagrama genealógico também auxilia no controle de doenças hereditárias como a displasia coxofemoral, mais comum em raças de grande porte, e em outras predisposições específicas.
Hospitais veterinários, planos de saúde e custo elevado
Outro reflexo direto é o fortalecimento da estrutura de atendimento. “Estamos vendo um aumento significativo de hospitais veterinários, tanto privados quanto públicos. Isso é fundamental para garantir atendimento de emergência e procedimentos de maior complexidade”, afirma Almada.
Ele também observa a expansão dos planos de saúde pet, seguindo modelo semelhante ao da medicina humana.
O futuro tutor de um cão com padrão elevado de cuidados precisa estar ciente do custo significativo para mantê-lo. Segundo Almada, a média mensal gira em torno de R$ 1 mil, podendo ser maior em caso de intercorrências médicas.
Consultas veterinárias, vermífugos, vacinas, produtos de higiene e eventuais cirurgias ampliam o orçamento. “Quem quer cuidar devidamente precisa ter ciência de que o custo é elevado”, ressalta.
Souza acrescenta outro ponto de vista que considera um mito. O entendimento equivocado de que cães sem raça definida apresentam menos problemas de saúde e, por isso, as despesas não são elevadas. “Tanto animais adotados quanto de raça exigem os mesmos cuidados. Todos precisam de vacinação, boa alimentação e acompanhamento veterinário.
Fiscalização focada apenas em estrutura
O dirigente da Abraci também questiona a atual fiscalização centrada principalmente em questões como bem-estar animal, estrutura física dos canis e tributos, aspectos que considera importantes, mas insuficientes. “Hoje é possível abrir um canil com nome fantasia e registrar em um clube cinotécnico. Mas quem avalia o conhecimento sobre genética, padrão racial e seleção para reprodução?”, questiona.
CFMV aponta crescente especialização de serviços médicos-veterinários
O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) enxerga nesse cenário uma crescente demanda por especialização em relativos a produtos e serviços médicos-veterinários. Segundo a entidade, o bem-estar animal e a saúde pública devem ser assegurados por um equilíbrio constante entre o crescimento do investimento em centros de alta complexidade e a garantia de uma assistência qualificada.
Em relação aos cães de raça, o CFMV reitera que, embora a necessidade de assistência médica seja universal, independentemente da procedência ou pedigree, os cães de raça podem exigir protocolos de saúde personalizados devido ao seu perfil genético.