Mudanças no perfil de tutores reequilibram economia pet em 2026
Relatório da Cascadia Capital aponta desaceleração do setor, consumo desigual e avanço da posse de gatos nos EUA
por Juliana de Caprio em
e atualizado em
A economia do setor de animais de estimação caminha para um período de reequilíbrio em 2026, influenciada por um conjunto de fatores que incluem desaceleração macroeconômica, inflação persistente e mudanças no perfil de posse de pets, especialmente nos Estados Unidos.
A análise consta no relatório Panorama da Indústria de Animais de Estimação – Inverno de 2025/2026, da Cascadia Capital, que aponta o fim do ciclo de crescimento acelerado observado durante a pandemia.
Após cerca de um ano de forte expansão impulsionada pelo isolamento social e pelo aumento das adoções, o setor passou a operar em um cenário mais cauteloso. Segundo a consultoria, o crescimento econômico mais lento, a queda na posse de cães e a pressão inflacionária estão remodelando a demanda por alimentos e serviços para pets.
Ainda que o segmento de pet food permaneça resiliente, o curto prazo tende a ser marcado por maior seletividade do consumidor e por mudanças demográficas que alteram tanto o tamanho quanto a composição da base de tutores.
Economia em “K” redefine o consumo pet
De acordo com a Cascadia, o comportamento de consumo no setor pet reflete uma economia em forma de “K”. Enquanto famílias de renda mais alta seguem investindo em produtos premium, outros consumidores têm migrado para opções mais acessíveis ou adiado compras discricionárias.
Até setembro de 2025, indicadores macroeconômicos apontavam para um mercado de trabalho em desaceleração nos EUA. O desemprego subiu de 4,1% em junho para 4,4% em setembro, enquanto o salário médio real por hora avançou apenas 0,8% em relação ao ano anterior.
A confiança do consumidor permaneceu abaixo da média histórica, pressionada pela inflação, incertezas tarifárias, preocupações com o emprego e até mesmo uma recente paralisação do governo.
A inflação segue impactando os orçamentos familiares. Em setembro de 2025, o índice geral de preços ao consumidor avançou 3% na comparação anual. No segmento pet, a inflação foi ainda mais desigual. Os preços totais de produtos para animais de estimação subiram 3,5%, enquanto os alimentos para pets tiveram aumento mais moderado, de apenas 0,5%.
Em contrapartida, serviços veterinários registraram alta de 7,8%, serviços de cuidados 5,4% e suprimentos 1,5%. No acumulado, os preços do setor pet estão cerca de 24% acima de 2021 e 29% superiores aos níveis de 2019.
Menos cães, mais gatos e impactos para a indústria
O relatório também destaca uma mudança relevante na posse de animais de estimação. A participação de lares com cães caiu de 41% em 2019 para 38% em 2024 nos Estados Unidos, enquanto a posse de gatos permaneceu relativamente estável, em torno de 24%.
O número de domicílios com apenas cães recuou de aproximadamente 38,6 milhões em 2018 para 35,2 milhões em 2024. Já os lares com apenas gatos cresceram de 14,1 milhões para quase 16 milhões no mesmo período.
Entre os fatores que explicam essa mudança estão o aumento do custo de vida, as dificuldades de acesso à moradia e o encarecimento dos cuidados com pets, como alimentação, veterinária, higiene e seguros. Essas pressões afetam principalmente famílias de baixa e média renda.
Além disso, mudanças no estilo de vida, especialmente entre os mais jovens, têm concentrado a posse de pets entre inquilinos, favorecendo gatos, que exigem menos espaço e enfrentam menos restrições habitacionais.
Apesar dessas alterações, o número absoluto de lares com cães ou gatos permaneceu relativamente estável, chegando a 67,3 milhões em 2024. Ainda assim, a taxa de posse de pets não acompanha mais o crescimento do número total de domicílios, sinalizando uma desaceleração estrutural.
Os dados de abrigos reforçam essa dinâmica. Em 2024, a entrada de cães e gatos em abrigos caiu 1,4% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2025, a retração foi ainda maior, de 4%, com queda contínua na entrada de cães. As redes sociais têm papel central nesse cenário, ampliando a visibilidade de animais para adoção e acelerando os ciclos de adoção.
Para a indústria de pet food, a expectativa é de um crescimento mais disciplinado a partir de 2026, com maior competição e pressão sobre ofertas intermediárias. Ainda assim, os analistas avaliam que o setor segue resiliente, sustentado por tendências de longo prazo como bem-estar animal, longevidade dos pets e a entrada de novos tutores no mercado.