Microfranquias impulsionam nova fase de expansão no setor
Formatos diferenciados e variedade de serviços ditam os rumos de pequenos lojistas do varejo pet
por Marcia Arbache em
O crescimento do setor pet no Brasil vem abrindo espaço para um novo modelo de negócios: as microfranquias veterinárias. Mais acessíveis, instaladas em pontos de grande circulação e com foco em serviços essenciais, essas operações avançam rapidamente pelo país e devem se consolidar nos próximos anos, segundo o consultor Ricardo Oliveira. “É uma tendência muito interessante, resultado da busca por conveniência e da popularização dos serviços veterinários’’.
A transformação do pet em membro da família é outro fator que impulsiona o movimento. Oliveira salienta que as microfranquias de consultórios já aparecem em galerias de supermercados, centros comerciais de bairro e regiões periféricas, levando atendimento veterinário para mais perto da rotina dos tutores. ‘’Isso aproxima e democratiza o acesso ao serviço veterinário. Nos Estados Unidos esse padrão é realidade há décadas’’, frisa.
Integração com hospitais públicos e grandes redes de atendimento veterinário
Além disso, o avanço de hospitais públicos veterinários em várias cidades também fortalece o ecossistema. Esses grandes centros de atendimento acabam funcionando como hubs para procedimentos complexos, enquanto as micro clínicas fazem o atendimento básico e o acompanhamento contínuo dos animais.
Um modelo claro de integração, citado pelo consultor, são redes como a Vet 4 Pets que opera grandes hospitais e recebe pacientes encaminhados por unidades de pequeno porte. “Enquanto o hospital realiza cirurgias e exames complexos, a micro clínica mantém o vínculo com o tutor. É uma troca muito saudável para o setor”, afirma.
Solução completa com serviços integrados
Diferentemente das franquias tradicionais, que exigem taxas entre R$ 60 mil e R$ 80 mil, as microfranquias permitem começar com valores mais acessíveis. “Com cerca de R$ 30 mil já é possível abrir uma microfranquia. Em alguns casos, o investimento inicial fica em torno de R$ 15 mil. A baixa barreira de entrada explica a velocidade da expansão’’, frisa Oliveira.
Segundo ele, o modelo mais eficiente é o da solução completa, que integra consultório veterinário, banho e tosa e loja de produtos. “Quando a equipe de banho e tosa é treinada para identificar problemas de pele, comportamento ou articulação, ela encaminha para o veterinário. Isso retroalimenta todo o sistema: consulta, farmácia, ração terapêutica e procedimentos”, explica.
Clínicas populares ganham escala
Entre os exemplos de expansão citados por Oliveira está a fluminense Apaixonados por 4 Patas, que já opera cem unidades franqueadas nos estados do Rio, São Paulo e Minas Gerais, sob o modelo de clínica popular e pet shop. Os serviços abrangem consultas com clínico geral e especialistas, exames, cirurgias e castração, internação em 24 unidades e vacinas. No pet shop, além do banho e tosa, compõem o mix itens de pet food, farmácias, peças de vestuário, artigos de higiene e beleza e acessórios.
Na categoria saúde animal estão ainda franquias como Clinicão Veterinária e Animal Place, cujo foco é suprir a crescente demanda por atendimento especializado, tendência surgida com o avanço da humanização dos pets. Agora considerados membros da família, franquias que oferecem planos de saúde, a exemplo da Padaria Pet e da Vital Pet, também surfam nessa onda.
Redes especializadas em manipulação veterinária são mais um modelo que se consolida no franchising pet. São os casos da Animalia e Fórmula Animal, que operam com medicamentos e produtos essenciais.
Aliada do varejo pet independente
Já a Petland Brasil ultrapassa 150 unidades e opera também a marca Dra. Mei, voltada a consultórios veterinários integrados às lojas da rede. Fundada nos Estados Unidos em 1967, a marca desembarcou no Brasil em 2014 com um objetivo claro: profissionalizar o pequeno lojista por meio de um modelo de franquias focado em serviços, especialmente banho e tosa, e não apenas na venda de produtos.
Nos primeiros quatro anos, foram abertas cerca de 40 lojas, a maioria absoluta de franqueadas, explica Rodrigo Albuquerque, CEO e criador da empresa. O crescimento veio acompanhado de diversificação: em 2018, a empresa lançou a Dra. Mei, rede de clínicas veterinárias, criou sua linha de marca própria – com foco em itens de higiene – e ainda adquiriu um concorrente. No ano seguinte, incorporou um e-commerce ao grupo.
Liderança nacional em serviço de banho e tosa
Em 2021, a entrada de um fundo de investimento impulsionou o crescimento da rede nos anos seguintes. Atualmente, a Petland soma 150 lojas franqueadas no Brasil. São Paulo concentra mais da metade das unidades e é a principal praça da rede, seguido por Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Maranhão. A presença nacional é pulverizada, com operações espalhadas por diferentes estados.
O diferencial do modelo de negócios está no foco em serviços. Segundo Albuquerque, o banho e tosa é o “coração” da operação. ‘’Hoje, contabilizamos cerca de 160 mil banhos e tosas por mês, o que nos coloca entre as líderes do segmento no país, com crescimento anual superior a 15% nesse serviço’’, destaca Albuquerque.
Porta de entrada para novos veterinários
Oliveira assinala que outro fator que estimula a expansão é o grande volume de novos profissionais no mercado. O número de cursos de Medicina Veterinária cresceu de forma acelerada nos últimos anos, ampliando a oferta de mão de obra. “Muitos dos que se formam não conseguem emprego na área. A microfranquia, cujo investimento é mais baixo e tem processos já estruturados, vira uma porta de entrada para o veterinário recém-formado, que se torna um empreendedor’’, diz.
Crescimento exige fiscalização e controle
Apesar do cenário positivo, Oliveira faz um alerta: a expansão precisa ocorrer com responsabilidade e fiscalização. Segundo ele, o risco está na abertura desordenada de unidades sem processos bem definidos. “Se essas microclínicas não tiverem os procedimentos validados pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), poderão surgir, no futuro, problemas de erros médicos e procedimentos mal executados”, alerta.
Diferenciação para vencer desafios do mercado
Com um mercado pet estimado em cerca de 50 mil lojas no Brasil, a maioria formada por pequenos empresários com uma ou duas unidades, a Petland avalia que o modelo tradicional, baseado quase exclusivamente na venda de ração e medicamentos, está cada vez mais pressionado. ‘’Custos crescentes, aluguéis elevados e margens menores tornam o cenário desafiador para quem não investe em diferenciação’’, reitera Albuquerque.