Animaniacs projeta expansão nacional após fusão com WeVets
Rede de hospitais veterinários baseada na zona leste da capital paulista aposta em governança e tecnologia para escalar
por Juliana de Caprio em
e atualizado em
Fundado em 2002, a rede Animaniacs construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma trajetória marcada por crescimento orgânico, forte investimento em qualificação profissional e foco em medicina veterinária de alta complexidade. Baseada na zona leste da capital paulista, a rede mira agora a expansão nacional a partir da fusão com o WeVets.
Atualmente, a Animaniacs conta com três hospitais 24 horas e um centro de diagnóstico, somando mais de 700 m² de área útil por unidade e uma equipe de aproximadamente 130 colaboradores. A história confunde-se com a trajetória profissional de uma de suas fundadoras, a médica-veterinária Tatiana Vieira Machado.
“Durante a universidade, eu estagiei no hospital-escola e trabalhava como auxiliar. Convivi com grandes nomes da cirurgia e ali me apaixonei pela área. Segui minha formação clínica e cirúrgica sempre muito próxima desses mentores”, afirma.
O desejo de empreender também nasceu cedo. “Desde a graduação eu já pensava no nome da minha clínica, no que eu queria construir. Sempre tive essa veia empreendedora”, conta. O nome Animaniacs surgiu de forma espontânea, inspirado no desenho animado homônimo. “Eu associei ‘animal’ com ‘Animaniacs’. Gostei da ideia e escolhi o nome ainda antes de abrir a clínica”, relembra.
A primeira unidade foi inaugurada em 2002 como uma clínica veterinária de pequeno porte. Na época, Tatiana já era formada e sua irmã, Thaís Vieira Machado, ainda cursava medicina veterinária. “Ela ajudava no banho e tosa, levava os animais no táxi dog. A gente começou muito pequeno”, recorda. Nos primeiros anos, a clínica ganhou notoriedade no bairro por conseguir resolver casos complexos, graças à rede de especialistas que Tatiana trazia para realizar cirurgias e exames avançados.
Com o aumento da demanda e a ausência de hospitais veterinários 24 horas na região, surgiu a necessidade de expansão. “Não havia local para onde encaminhar casos graves. Cheguei a internar animais na minha casa, porque o hospital mais próximo ficava na zona sul. Foi aí que entendemos que precisávamos virar 24 horas”, relata. Inicialmente, a clínica passou a operar em regime integral, com a residência nos fundos adaptada para dar suporte ao atendimento.
Início da expansão
Em 2009, a Animaniacs deu um passo decisivo com a inauguração do Hospital Veterinário da Vila Matilde, tornando-se a primeira instituição veterinária de alta complexidade na zona leste. A partir daí, o crescimento seguiu um ritmo planejado. Em 2013, foi inaugurada a unidade do Tatuapé, já concebida desde o início como hospital de alta complexidade e atendimento 24 horas. Quando abrimos lá, o hospital já nasceu com movimento”, afirma. Em 2018, foi a vez da unidade da Mooca.
Atualmente, além das fundadoras Tatiana e Thaís Vieira Machado, o grupo tem como sócio Thiago Tanahara, profissional com 26 anos de experiência no varejo pet. “Sempre pensamos em oferecer tudo no mesmo lugar. Tudo o que prescrevemos o cliente encontra no hospital. O Thiago entrou para estruturar e fortalecer essa frente de varejo”, explica Tatiana. Hoje, Thaís atua como acionista e não participa mais da operação diária, enquanto Tatiana e Thiago dividem a gestão executiva.
Ao longo dessa trajetória, a rede enfrentou desafios importantes, especialmente durante a pandemia de Covid-19. “No início foi muito difícil. Reduzimos equipes, montamos escalas alternadas e havia muito medo”, relembra Tatiana. Com apoio de protocolos adotados por veterinários dos Estados Unidos, o hospital implementou medidas rigorosas de segurança. Como estabelecimento de saúde, manteve as portas abertas e, de forma inesperada, registrou forte aumento na demanda. “As pessoas passaram a olhar mais para os pets por estarem em casa. Tivemos um crescimento de quase 40% no auge da pandemia”, revela.
Segundo Tatiana, o principal obstáculo para a expansão nunca foi infraestrutura, mas sim a formação de mão de obra qualificada. “Alta complexidade e atendimento 24 horas exigem um nível muito alto de preparo. O maior desafio sempre foi formar pessoas”, diz. Para enfrentar essa dificuldade, o Animaniacs criou um programa próprio de aprimoramento veterinário. “Hoje, cerca de 70% do nosso time foi formado dentro de casa. Criamos uma espécie de residência interna, com duração de um a dois anos”, explica.
O investimento em capacitação é contínuo. A rede garante, no mínimo, 48 horas anuais de treinamento para todos os colaboradores, incluindo desenvolvimento técnico e soft skills. “A gente trabalha propósito, felicidade, comunicação com o cliente, além da parte clínica. Se o time não estiver feliz e preparado, não há resultado”, afirma Tatiana. Os treinamentos ocorrem, em grande parte, no anfiteatro da unidade Vila Matilde, que também recebe eventos e cursos externos.
Hoje, o portfólio abrange 26 especialidades veterinárias. Entre elas, a medicina integrativa e a fisioterapia se destacam como os serviços de maior volume e diferencial competitivo. A rede também se tornou referência regional no atendimento a animais silvestres e pets não convencionais. “Era um ponto fraco que virou oportunidade. Trouxemos uma equipe especializada para treinar nosso time e estruturar esse atendimento”, conta.
No campo tecnológico, o grupo investiu em equipamentos de ponta, como tomógrafo moderno na unidade do Tatuapé, que recebe encaminhamentos de toda a capital paulista, além de exames de imagem especializados e um Centro de Terapia Intensiva na Vila Matilde. Mais recentemente, a rede passou a incorporar soluções baseadas em inteligência artificial, especialmente após a fusão com o grupo WeVets.
Fusão respalda projeto de expansão
Em fevereiro deste ano, a Animaniacs anunciou sua fusão com o WeVets. “Não foi uma simples venda. Foi uma sociedade. Queríamos continuar no comando e crescer com mais estrutura, tecnologia e governança”, explica Tatiana. Segundo ela, a decisão veio em um momento de consolidação acelerada do mercado veterinário. “Sozinhos, não conseguiríamos expandir no ritmo que desejávamos”, analisa.
Desde a fusão, a rede passou por uma profunda transformação em processos, governança e gestão de carreira. “A gente sempre foi muito forte no assistencial, mas processos não eram nosso forte. O WeVets trouxe ferramentas, estrutura e uma visão muito clara de carreira e eficiência”, afirma. Tatiana destaca ainda a autonomia mantida na operação. “Temos total liberdade para tomar decisões. O grupo acompanha os resultados, mas confia na nossa gestão”, acrescenta.
Os efeitos já começam a aparecer. “Conseguimos reduzir custos, otimizar processos e já percebemos melhora no faturamento”, relata. Outra mudança relevante foi a adoção do plano de saúde veterinário do WeVets, após 23 anos operando exclusivamente no modelo particular. “Eu tinha muito preconceito com planos, pela desvalorização da profissão. Mas esse modelo é focado na prevenção, na experiência do cliente e na valorização do veterinário”, afirma.
Para os próximos anos, a expectativa é de expansão nacional, impulsionada pelo grupo WeVets. “A ideia é levar medicina veterinária de qualidade para outras regiões de São Paulo, interior e todo o Brasil”, diz Tatiana.
Atuação institucional
Atuando também como diretora da Associação Brasileira dos Hospitais Veterinários (ABHV) e vice-presidente da Associação Nacional dos Médicos Veterinários (ANMV), Tatiana reforça o papel institucional dessas entidades na valorização da profissão. “A ABHV nasceu para elevar o nível da medicina veterinária. Trabalhamos com gestão, tributação, planos de saúde e formação. Já a ANMV olha para o CPF, para o médico-veterinário como indivíduo”, explica.