Maus-tratos a pets podem indicar risco de violência doméstica
Psicóloga alerta que agressões, ameaças ou desqualificação do vínculo com animais de estimação podem funcionar como sinais de alerta para abusos dentro de casa
por Juliana de Caprio em
e atualizado em
A violência contra animais dentro de casa pode ser mais do que um episódio isolado de agressividade. Segundo a psicóloga Juliana Sato, esse comportamento pode funcionar como um sinal de alerta para situações de violência doméstica, especialmente contra mulheres.
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a especialista chama atenção para um padrão ainda pouco discutido nas relações abusivas – quando o animal de estimação passa a ser alvo de tensão, ameaça ou agressão dentro da casa.
Em entrevista ao Panorama Pet&Vet, Sato explicou que maus-tratos contra pets muitas vezes aparecem dentro de um contexto mais amplo de violência e de diferentes formas. “Maus-tratos contra animais raramente aparecem isoladamente. Frequentemente, fazem parte de um cenário em que também existem agressões contra parceiros, crianças ou outros membros da família”, afirma.
Quando o pet vira instrumento de controle
No cotidiano doméstico, o animal de estimação costuma ocupar um espaço que vai além da companhia. Para muitas pessoas, ele faz parte da rotina, da história pessoal e da organização emocional da vida.
Dentro de relacionamentos abusivos, porém, esse vínculo pode ser explorado pelo agressor. Segundo Sato, o pet pode se transformar em um ponto sensível usado para exercer controle ou intimidação sobre a mulher.
Dentro de relações marcadas por controle e coerção, o animal acaba sendo um canalizador da agressividade. “Ele é vulnerável e, ao mesmo tempo, tem um valor afetivo importante para a mulher e para a família”, explica.
Nesse cenário, agredir o animal, negligenciá-lo ou ameaçar machucá-lo pode funcionar como uma forma indireta de violência contra a companheira.
Sinais que aparecem antes da agressão
A psicóloga ressalta que a violência doméstica nem sempre começa com agressões físicas. Muitas vezes, ela surge primeiro por meio de comportamentos que desqualificam ou pressionam o outro.
No caso da relação com o pet, esses sinais podem aparecer em atitudes como críticas constantes ao cuidado com o animal, tentativas de impor regras rígidas ou desrespeito ao vínculo afetivo existente.
Quando esse padrão se intensifica, o pet pode se transformar em um instrumento de intimidação. “Em alguns casos, a agressão ao animal ocorre como uma forma de ameaça à própria mulher. O agressor sabe que aquele vínculo é importante para ela e usa isso como mecanismo de controle”, diz Sato.
A ligação entre violência contra animais e violência doméstica
A relação entre maus-tratos a animais e violência interpessoal é discutida em estudos internacionais por meio da chamada Teoria do Elo, que identifica conexões entre diferentes formas de violência dentro do mesmo ambiente familiar.
Segundo essa perspectiva, comportamentos agressivos contra animais podem indicar um padrão mais amplo de violência, associado a fatores como impulsividade, necessidade de controle e dificuldade em lidar com frustrações.
Para a psicóloga, no entanto, é importante diferenciar esse tipo de comportamento de uma simples preferência pessoal. “Não gostar de animais pode ser apenas uma característica individual. O alerta aparece quando isso vem acompanhado de desprezo pelo vínculo da outra pessoa e de pressão para que ela abra mão desse relacionamento afetivo”, explica.
Um alerta que pode ser percebido por outras pessoas
Outro ponto importante é que a violência contra animais pode ser percebida por pessoas que estão fora da relação, como vizinhos, familiares ou amigos. Quando um pet apresenta sinais de agressão, negligência ou medo constante de algum membro da casa, isso pode indicar que existe um ambiente de risco mais amplo.
“Quando vemos maus-tratos a um animal dentro de casa, é importante entender que isso pode fazer parte de um contexto maior de violência”, alerta a especialista.
Além disso, o medo de que algo aconteça com o pet pode fazer com que muitas mulheres permaneçam em relações abusivas por mais tempo. “O animal muitas vezes representa um vínculo afetivo que a pessoa não quer ou não consegue abandonar. O agressor pode explorar isso para manter o controle”, afirma.
Por que observar esses sinais é importante
Para ela, reconhecer esse tipo de dinâmica é fundamental para ampliar a compreensão sobre violência doméstica e seus diferentes sinais. Quando o pet se torna alvo constante de hostilidade ou agressões, o problema pode ultrapassar o conflito doméstico e indicar um padrão de comportamento violento.
Casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos podem ser denunciados pelo Disque 181, pela Polícia Militar (190) em situações de flagrante, em delegacias ou por meio de canais do Ministério Público e dos serviços municipais de proteção animal.
Mais do que proteger os animais, observar esses sinais pode ajudar a identificar situações de risco dentro das famílias. “Quando o vínculo com o pet vira alvo dentro de uma relação, muitas vezes o que está em jogo não é o animal em si, mas a forma como aquela dinâmica lida com poder, autonomia e controle”, conclui Sato.