Avanço dos planos de saúde pet expõe fragilidades regulatórias
Especialistas analisam diferentes modelos e apontam caminhos para gestão organizada
por Marcia Arbache em
O mercado de planos de saúde para animais de estimação se expande de forma acelerada no Brasil, impulsionado tanto pela mudança no perfil dos tutores, como pelo aumento do custo da medicina veterinária. O Panorama Pet&Vet ouviu entidades profissionais, empresas do setor e outros players que avaliam o cenário atual e apontam caminhos para a evolução desse mercado, que segue sem regulação específica
Para Marcio Mota, presidente da Associação Nacional de Médicos Veterinários (ANMV), os planos para pets são uma modalidade que veio para ficar e foram bem aceitos pelos tutores. “O modelo atende a uma demanda real da sociedade, mas avança mais rápido do que a capacidade de organização e regulamentação do setor”, pondera.
Segundo Mota, em tese o plano surge como uma alternativa de previsibilidade financeira para o tutor, que busca opções mais econômicas para manter o cuidado de seu animal. ‘’No entanto, na prática, o crescimento do mercado tem trazido uma série de desafios que afetam empresas veterinárias, profissionais e os próprios consumidores’’, opina
Verticalização como estratégia financeira
Do ponto de vista das operadoras, o presidente da ANMV avalia que o modelo atual ainda depende da alavancagem por investidores externos. Nesse contexto, a verticalização – com a criação de redes próprias de clínicas e hospitais – surge como uma estratégia para reduzir custos. “Ao ter a própria rede, o plano deixa de pagar uma rede credenciada. É uma forma de tentar fechar a conta”, explica.
Apesar disso, Mota alerta que esse movimento pode aumentar a concentração de mercado e pressionar ainda mais os veterinários independentes, que passam a ter menos opções de atuação.
Falta de garantias financeiras preocupa setor
Outro ponto sensível é a ausência de exigência de reservas financeiras por parte das operadoras. Diferentemente da saúde humana, regulada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os planos pet não são obrigados a manter um “colchão financeiro” para garantir a continuidade do atendimento em caso de crise.
“Hoje não existe nenhuma obrigação de reserva. Se o plano tiver dificuldade financeira, quem fica desprotegido é o responsável pelo animal e o prestador de serviço”, alerta.
Vácuo regulatório fragiliza profissionais
O principal ponto de preocupação, segundo o dirigente, é a ausência de um arcabouço regulatório específico para os planos de saúde veterinários. Hoje, não há regras claras que protejam tutores e prestadores de serviço. ‘’O veterinário é a parte mais frágil da relação contratual. Tivemos conhecimento de vários casos de descredenciamento da noite para o dia, sem critério claro”, afirma.
Um dos problemas mais recorrentes é a prática da glosa, quando o plano se recusa a pagar por um procedimento já realizado. Essa insegurança acaba desestimulando clínicas e hospitais a atenderem planos, o que, no médio prazo, pode reduzir a rede disponível ao próprio tutor. “Não existe regra clara para a glosa. É unilateral. O veterinário já prestou o serviço, já atendeu o animal e simplesmente não recebe”, critica.
Tabelas de remuneração pressionam clínicas
Na ponta do atendimento, as tabelas de remuneração praticadas pelos planos também são alvo de críticas. De acordo com Mota, os valores pagos muitas vezes não cobrem os custos reais das clínicas e hospitais veterinários. “Impostos, taxas, licenças, obrigações sanitárias pesam muito. As tabelas são achatadas e não acompanham essa realidade”, diz.
Ele reconhece que parte do problema também passa pela falta de gestão nas empresas veterinárias, mas afirma que o modelo atual amplia o risco financeiro. “Muitas clínicas passam a atender muito plano sem estrutura adequada e acabam se complicando.”
Economia ilusória para o tutor
Do lado do consumidor, o presidente da ANMV afirma que o plano nem sempre representa economia real. Em análises feitas junto a clínicas e hospitais, ele observa que, em alguns casos, a soma de mensalidades e coparticipações se aproxima ou até supera o valor que seria pago no atendimento particular. “Existe uma sensação de segurança, mas quando se fecha a conta anual, em alguns casos fica elas por elas”, avalia.
Regulamentação como caminho inevitável
Para o presidente da ANMV, não há solução fora de uma regulamentação específica para o setor. Ele defende um diálogo entre operadoras, empresas veterinárias e entidades representativas. “Mesmo com interesses diferentes, dá para chegar a um consenso melhor do que o cenário atual. O mercado ainda é muito solto, amador e pouco organizado”, pontua.
Enquanto isso não acontece, o crescimento dos planos de saúde pet segue avançando em volume de vidas e de recursos financeiros. Mas esse crescimento é sustentado por um modelo que, segundo Mota, ainda precisa amadurecer para não comprometer a sustentabilidade da medicina veterinária no país.
APET destaca vantagens e desvantagens de modelos diversos
Para o CEO da APET, Luiz Gênova, operadora independente de planos de saúde pet, o debate vai além da dicotomia “a favor ou contra” os planos. “É um tema que exige uma análise estruturada, com governança, transparência e participação de todo o ecossistema”, afirma. A questão da verticalização, por exemplo, tem prós e contras. “Há redução de intermediários, maior controle da cadeia, padronização de processos e mitigação de riscos financeiros”, explica.
Por outro lado, ele alerta para os efeitos colaterais desse modelo. “Quando uma operadora verticalizada passa a abrir unidades próprias em regiões onde já existem clínicas parceiras, surge um conflito. Pode haver descredenciamento, concentração dos atendimentos e redução da renda recorrente de clínicas independentes”, analisa.
Além disso, na visão de Gênova, isso também afeta diretamente os tutores que ficam sem opção de escolha e amarrados à estrutura vertical do plano, deixando de serem atendidos pelo veterinário de confiança. ‘’Sem falar dos riscos relacionados à transparência de coberturas, critérios de autorização, protocolos clínicos e negativas de procedimentos’’, acrescenta.
Empresas operam em lacuna regulatória
Gênova reconhece que, apesar da crescente relevância do setor, esse mercado ainda opera em uma lacuna regulatória. ‘’Atualmente, as empresas se apoiam no Código de Defesa do Consumidor, nas regras de livre mercado e nas normas dos conselhos profissionais.
Ele não vê, no entanto, perspectiva de avanço rápido no processo de regulação. “É um tema que sempre volta à pauta, mas esfria. Em ano eleitoral, será ainda mais difícil imaginar uma discussão aprofundada no Congresso”, afirma. Segundo ele, quando a regulação vier, precisará envolver conselhos profissionais, clínicas, operadoras e o Legislativo.
Remuneração de veterinários
À crítica recorrente ao setor de que os planos pressionam honorários e retiram clientes particulares das clínicas, o executivo da APET, que trabalha com rede de 1.600 credenciadas e sistema de reembolso, rebate “No nosso modelo, não pagamos mal o veterinário. Tanto que as clínicas atendem nossos clientes como atendem particulares”, diz.
Gênova argumenta que há espaço para múltiplos formatos no mercado. “Há tutores que preferem redes verticalizadas, com descontos no varejo e estrutura própria. Outros valorizam a livre escolha, reembolso e atendimento nacional”, diz. Para ele, o plano de saúde aumenta o fluxo nas clínicas e democratiza o acesso à medicina veterinária. “O tutor que não tem plano muitas vezes adia a consulta ao veterinário por medo do custo. Com o plano, ele leva o pet imediatamente”, observa.
Aprendizado recente
Para o CEO da APET, o crescimento do setor deve ser visto como uma oportunidade coletiva. “O mercado ainda é recente, todo mundo está aprendendo. O importante é que o ecossistema seja virtuoso: bom para clínicas, veterinários, tutores e operadoras”, afirma.
Ele conclui com uma defesa clara do papel dos planos de saúde pet. “Não se trata apenas de empresas ganharem dinheiro. Trata-se de ampliar o acesso à saúde animal de qualidade no Brasil. Quanto mais pets assistidos, melhor para todo o sistema.
Linha de chegada ainda distante
Já Fabiano Granville, fundador da plataforma EloVetNet, vê no avanço dos planos de saúde pet uma reprodução, com algum atraso, do caminho já trilhado pela medicina humana há cerca de duas décadas. “Estamos saindo da inércia, mas ainda muito longe de uma linha de chegada para termos uma espécie de ANS veterinária”, enfatiza.
Segundo ele, mesmo com o apoio e o envolvimento inicial dos Conselhos Regionais e do Conselho Federal de Medicina Veterinária, a regulação ainda é incipiente frente à complexidade do mercado que se forma.
Diversidade de formatos
Em relação à verticalização, aspecto que tem despertado muita controvérsia, Granville explica que há, basicamente, três modelos em operação no país: planos baseados apenas em rede credenciada, planos totalmente verticalizados e modelos híbridos, que combinam rede própria e credenciada.
Do ponto de vista operacional, a verticalização tende a ser mais barata para as operadoras. “Está tudo dentro de casa: o plano seleciona os veterinários, define a política de remuneração, não há intermediários. Se bem-feito, a matemática pode fechar”, avalia. O desafio, porém, é o acesso. “Dificilmente um plano verticalizado consegue estar perto da casa do tutor. E, quando o animal está doente, a proximidade pesa muito na decisão”, pontua
Já os planos com ampla rede credenciada oferecem maior capilaridade geográfica, o que facilita a vida do tutor, mas costumam ter custos operacionais mais elevados. Os modelos híbridos, como alguns já presentes no mercado, tentam equilibrar essas vantagens e desvantagens.
Segmentação rápida do mercado
Além dos modelos tradicionais, Granville destaca que já começam a surgir propostas inspiradas na medicina humana, como os planos baseados em reembolso, como os planos baseados em reembolso, entre os quais os da APET. Nesses casos, o veterinário cobra o valor integral do atendimento, como faria com um cliente particular, e o tutor solicita o reembolso ao plano posteriormente.
Para Fabiano, esse formato tem apelo especial para a classe veterinária. “O profissional recebe o que cobraria normalmente e não precisa alterar sua conduta clínica. Em alguns casos, ainda há incentivos para o veterinário que indica o plano ao cliente”, entende. Ao mesmo tempo, o mercado se segmenta rapidamente, com planos que vão de mensalidades muito baixas até produtos premium, voltados aos públicos A e B.
Sustentabilidade e risco para os veterinários
Apesar da diversidade de modelos, Granville alerta que a questão da remuneração dos veterinários permanece sensível, com valores muito baixos por consulta. Ele recomenda cautela às clínicas. A principal orientação é não se tornar dependente de um único plano. “Se 80% do faturamento de uma clínica vem de uma única operadora e esse contrato é encerrado, a clínica fecha em poucos dias”, ressalta.
Outra tendência é a divisão interna do trabalho, com veterinários mais experientes focados no atendimento particular, enquanto profissionais mais jovens atendem os planos. “Um veterinário com 20 anos de carreira dificilmente vai se submeter a consultas remuneradas a R$ 40 ou R$ 50, a não ser por necessidade”, exemplifica.
Direitos dos tutores e conflitos regulatórios
Do lado dos tutores, Granville chama atenção para um risco recorrente: planos com mensalidades muito baixas e coberturas limitadas. “O problema aparece quando ocorre um evento grave. O tutor só descobre que o plano não cobre procedimentos de maior porte quando o animal sofre um acidente”, adverte.
A ausência de uma regulação clara agrava conflitos entre operadoras, clínicas, veterinários e consumidores. Questões como cobertura mínima, transparência contratual, remuneração profissional e responsabilidade assistencial ainda carecem de regras específicas.