Setor pet contrata, mas perde quase na mesma proporção
Para cada 100 contratações, houve 96 desligamentos em clínicas, hospitais, pet shops e na cadeia de abastecimento
O mercado pet e veterinário brasileiro manteve ritmo acelerado de geração de empregos formais ao longo de 2025. No entanto, os dados mais recentes do Portal Salário revelam um paradoxo cada vez mais evidente – o volume de contratações cresce de forma expressiva, mas os desligamentos seguem em patamar elevado, expondo dificuldades estruturais na retenção de mão de obra em toda a cadeia.
Na área de atividades veterinárias (CNAE 7500-1/00), foram registradas 21.561 contratações com carteira assinada entre janeiro e dezembro de 2025, índice 16,4% superior ao do mesmo período anterior. Porém, o setor testemunhou 19.610 demissões no ano passado.
Clínicas e hospitais ampliam equipes para atender a demanda crescente, mas enfrentam desafios para manter profissionais, seja por pressão de custos, carga de trabalho elevada ou disputas salariais regionais. O comportamento do cargo de médico veterinário reforça essa leitura. A base de dados considera 6.730 profissionais admitidos e desligados formalmente em todo o país.
Cargos de apoio também enfrentam rotatividade elevada
Entre os cargos de apoio, o cenário é ainda mais sensível. O comércio varejista de animais vivos, artigos e alimentos para pets (CNAE 4789-0/04) contabilizou 51.353 contratações, 13,9% a mais em relação a 2024, mas esse volume foi acompanhado por 50.284 demissões.
Na cadeia de abastecimento, o comércio atacadista de alimentos para animais (CNAE 4623-1/09) apresentou crescimento expressivo de 36,77% nas contratações ao longo de 2025, com 9.807 admissões frente a 9.387 desligamentos. Apesar do forte avanço, o equilíbrio entre entradas e saídas indica que a expansão logística e industrial ocorre, em parte, sustentada por constante substituição de mão de obra, especialmente em funções operacionais.
Situação semelhante é observada no comércio varejista de medicamentos veterinários (CNAE 4771-7/04), que registrou 14.184 contratações e 13.694 desligamentos, com alta de 15,45% nos recrutamentos.
Rotatividade em alta no setor pet & vet
(contratações x demissões de profissionais em 2025)

Crise silenciosa de gestão
Considerando o saldo total, para cada 100 profissionais contratados, 96 foram demitidos. A alta movimentação sugere que, apesar da ampliação das equipes, a permanência no quadro funcional segue limitada, impactada por salários mais baixos, jornadas intensas e menor oferta de capacitação contínua.
Para Ricardo de Oliveira, CEO e mentor de negócios da Fórmula Pet Shop, os números escancaram uma crise silenciosa de gestão no setor, que vai muito além da simples escassez de mão de obra. “Muitas pequenas e médias empresas ainda operam como se estivessem em um negócio simples, sem processos bem definidos e sem uma liderança estruturada. Esse cenário gera desgaste, sobrecarga das equipes e uma saída recorrente de talentos”, acredita.
O quadro que reflete fragilidades estruturais históricas das PMEs brasileiras torna-se ainda mais visível nos segmentos intensivos em serviços, como o pet. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que cerca de 69% das empresas relatam dificuldades para encontrar e reter mão de obra comprometida.
A situação é agravada pela escassez de profissionais em funções consideradas críticas, como médicos veterinários, tratadores e adestradores, sobretudo fora dos grandes centros. O déficit de mão de obra qualificada nessas áreas amplia a rotatividade e aumenta a pressão sobre as equipes. No varejo pet, por exemplo, o tempo médio de renovação do quadro de colaboradores despencou 29,6% em cinco anos – de 27 para 19 meses, de acordo com dados da FecomercioSP e do IBGE.
Predisposição para trocar de emprego puxa estatísticas para cima
Outro indicador que estimula a rotatividade figura em uma pesquisa da consultoria global Robert Half realizada em novembro de 2025, segundo a qual 61% dos funcionários e colaboradores de empresas brasileiras pretendem buscar uma nova oportunidade ao longo deste ano.
Isso representa um avanço de 7% em 12 meses. As principais motivações para deixar o trabalho atual são a busca por ascensão mais rápida na carreira (45%), melhor remuneração (42%), novos desafios (31%), modelos de trabalho remoto ou híbrido (31%) e pacotes de benefícios mais atrativos (29%).
Enquanto isso, 28% dos profissionais que buscam se movimentar em 2026 avaliam uma transição de carreira para outras áreas, puxada sobretudo por fatores financeiros (63%), qualidade de vida (39%) e realização pessoal (29%). “Mesmo que as formas tradicionais de recompensa sigam relevantes, bem-estar, desenvolvimento e flexibilidade só tendem a ganhar ainda mais peso nas decisões daqui para a frente”, entende Fernando Mantovani, diretor geral da Robert Half na América do Sul.