Inadimplência de pet shops força fechamento de distribuidoras
Cinco atacadistas fecharam as portas neste ano. Movimentações estratégicas do varejo e da indústria alimentam essa turbulência
O otimismo do mercado pet com a projeção de R$ 78 bilhões de faturamento em 2025 pode estar mascarando um problema crônico. De acordo com a Associação Nacional dos Distribuidores de Produtos Pet (Andipet), cinco empresas do atacado fecharam as portas neste ano e um dos fatores apontados para esse cenário é a crescente inadimplência de pequenos e médios pet shops.
“Quando consideramos os atrasos de pagamento até 30 dias, o percentual médio subiu de 1% para quase 3% nos últimos seis meses”, informa Diego Dahas, presidente da entidade. Esse número representa a prévia da pesquisa nacional que a Andipet vem conduzindo para traçar uma ampla radiografia do atacado.
Embora fatores macroeconômicos contribuam para essa situação, incluindo a taxa de juros e o encarecimento do crédito, o movimento expansionista de grandes redes do varejo vem sendo determinante para agravar o problema. Com margem líquida média em torno de 10%, contra 6,5% dos pet shops independentes, as megastores exibem mais fôlego para reduzir preços ao consumidor. O resultado é um efeito-dominó em toda a cadeia.
Margem líquida média do varejo pet
(percentual médio + faixa mínima e máxima)

Em resposta a essa estratégia do varejo, fabricantes vêm mirando mais esforços em vendas diretas para reduzir perdas na rentabilidade. “E como a comercialização via distribuição, único canal viável para os pequenos, se insere nessa equação?”, questiona Maurício Nogueira, presidente do Grupo Animais – distribuidora que atende 5 mil PDVs nos estados de Alagoas, Bahia e Sergipe.
Segundo o empresário, a variação do preço de pet food em lojas da região chega a 20%. No caso dos medicamentos, as diferenças são de até 40%. “Historicamente, a indústria balizou o custo e chancelou essa dinâmica do mercado para ganhar capilaridade. Mas ela não atentou para os riscos dessa prática, principalmente quando os gigantes do varejo se revelam mais agressivos”, argumenta.
Fosso entre prazos explicita inadimplência de pet shops
O fosso entre os prazos de pagamento e recebimento na distribuidora é uma das consequências perversas do modelo meramente baseado em preços. Em média, a compra de rações junto à indústria vem sendo quitada em 21 a 40 dias. Mas o valor da venda aos pet shops demora até três meses para entrar na conta da atacadista. A taxa de inadimplência de clientes do Grupo Animais saltou de 2,5% em 2022 para 5,05% neste ano.
O presidente da Andipet enfrenta realidade similar na Royal Norte, distribuidora que comanda na Região Norte do país e que abastece 600 lojas nos estados do Pará e Amapá. “Somos pressionados a alongar prazos com o varejo, mas não temos essa mesma flexibilidade ao negociar com a indústria. Isso compromete o caixa, trava investimentos e aumenta o risco financeiro, especialmente com os estoques altos”, adverte Dahas.
A desova de estoques pelos fabricantes é outra armadilha. Ainda segundo Dahas, para evitar o encalhe, as distribuidoras têm sido obrigadas a queimar preços de produtos que estão a até cinco meses do vencimento. A análise da receita média mensal por porte de pet shop ajuda a entender as dificuldades por que passa o pequeno e médio varejo – obrigado a entrar em uma disputa de preço com concorrentes desiguais.
Faturamento médio mensal do varejo por nicho
(em mil R$)

Parcerias da distribuição com varejo (h2)
Atentas à realidade desafiadora, as distribuidoras investem em estratégias customizadas para auxiliar os pet shops independentes, com oferta de consultoria personalizada e suporte à análise de impacto do mix. “Mais do que vender, é preciso apoiar a gestão. Em grande maioria são clientes com menor margem de manobra, acesso mais difícil a financiamentos e estrutura semiprofissional’, avalia.
O consultor de negócios do Sebrae-SP, Wagner Paludetto, aconselha também o caminho da consignação de produtos, que consiste em firmar parcerias com fornecedores para deixar mercadorias no seu negócio e só cobrar após a venda. Outro recurso é apostar no dropshipping ou revenda sem estoque: “O empresário divulga os produtos e efetiva a venda, mas o fornecedor envia diretamente ao cliente”, orienta.
Realidade dificulta reversão de quadro
A regulação dos preços é vista por empresários do setor como uma alternativa que poderia ser prejudicial à primeira vista, mas que permitiria um equilíbrio da cadeia. O problema é combinar com o consumidor.
A inadimplência das famílias atingiu 30,5% das famílias em setembro de 2025, o maior percentual da série histórica desde 2010. Desse total, quase metade (48,7%) tem pelo menos uma dívida pendente há mais de 90 dias.
“Mesmo com a melhora de indicadores macroeconômicos, é natural que os inadimplentes sigam priorizando a reestruturação financeira em detrimento das compras. E quem já começou a quitar os débitos não quer partir para novas dívidas”, reforça Luiz Rabi, economista-chefe do Serasa Experian, endossando que esse contexto estimula a manutenção da lógica de consumo pelo menor preço.