FeLV pode encurtar vida de gatos e demanda esquema vacinal
Veterinária orienta sobre escolha adequada das vacinas múltiplas e reforça necessidade de protocolo individualizado no país
por Juliana de Caprio em
A leucemia felina (FeLV), doença altamente contagiosa e sem cura, pode reduzir a expectativa de vida dos gatos para apenas dois ou três anos após o diagnóstico. Diante da alta circulação do vírus no Brasil, Kathia Soares, médica veterinária e coordenadora técnica da MSD Saúde Animal, defende um protocolo vacinal individualizado e testagem prévia como estratégia essencial de prevenção.
O vírus da FeLV é altamente contagioso, podendo ser contraído por meio de uma briga ou lambedura, e não tem cura. Em alguns animais, pode permanecer silenciosa por um período. Quando surgem manifestações clínicas, como imunossupressão, anemias e tumores, a expectativa de vida é baixa, equivalente a, no máximo, mais 2 ou 3 anos.
“É muito triste quando a gente diz para um responsável que não tem o que ser feito, a partir de um diagnóstico, e que algo poderia ter sido feito antes”, afirmou a especialista, em entrevista ao Panorama Pet&Vet.
Protocolo deve considerar risco epidemiológico
De acordo com Soares, o protocolo vacinal deve considerar o contexto epidemiológico brasileiro e o estilo de vida do animal. “No Brasil, onde a pressão de infecção é alta, o protocolo personalizado não é um luxo, mas uma necessidade”, afirma.
Ela compara o tratamento feito no Brasil com o de países do exterior que já conseguiram diminuir o número de casos. Para a veterinária, isso está atrelado ao fato deles testarem os gatos e os diagnosticarem entre positivos e negativos e, a partir daí, promover uma segregação para vacinar os negativos.
“Não que a gente não faça isso no Brasil, nós fazemos. Porém, ainda estamos engatinhando nesse processo. Precisamos de cada vez mais veterinários trabalhando dessa forma para diminuir o número de casos”, complementa.
A vacinação contra FeLV deve ocorrer em todos os filhotes até um ano de idade e para adultos considerados grupo de risco, sendo aqueles com acesso à rua, que estão em constante contato com outros gatos e que frequentam creches e hotéis. Antes de iniciar o protocolo específico, é indispensável resultado negativo em teste diagnóstico.
Soares explica que o protocolo vacinal tem início aos 9 meses de idade, com múltiplas doses até 16 semanas de idade. Uma nova dose é aplicada aos 6 meses e, depois, em um intervalo anual, sendo avaliado se o felino continuará com a vacina quíntupla ou se irá para uma tríplice ou quádrupla.
Tríplice, quádrupla ou quíntupla: qual a diferença?
Entre as vacinas múltiplas disponíveis, a tríplice protege contra rinotraqueíte, calicivirose e panleucopenia.
Já a quádrupla é composta pelos componentes da anterior, com acréscimo de uma cobertura contra clamidiose, enfermidade ocular ligada à conjuntivite e secreção.
A quíntupla, por fim, inclui proteção contra o FeLV.
As recomendações internacionais da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) classificam as vacinas em essenciais e não essenciais. São consideradas essenciais aquelas que protegem contra herpesvírus, calicivírus, panleucopenia e raiva. Para a leucemia felina, depende da incidência de casos em cada região.
Imunização e conceito de Saúde Única
Além das múltiplas, a imunização deve ser concluída com a vacina antirrábica, obrigatória por lei e alinhada ao conceito de Saúde Única, que integra saúde animal, humana e ambiental.
Embora gatos que vivem exclusivamente em apartamento apresentem menor exposição, a vacinação segue sendo indispensável. “O tutor não costuma ter tanta clareza sobre o que é ter acesso à rua. Já conversei com responsáveis que diziam que o gato não passeia, apenas vai no telhado da vizinha ou no quintal e volta”, afirma Soares. Ela reforça que essa “saidinha” já é suficiente para colocar os gatos em exposição para ter contato com outros felinos, mesmo que indiretamente.
A indústria oferece diferentes combinações de imunizantes, permitindo ao médico-veterinário ajustar a cobertura ao perfil de cada paciente. Como resume Kathia Soares, não existe vacina superior em termos absolutos, mas estratégia adequada para cada fase da vida e condição de exposição.
Quando questionada se a verticalização das cidades e o aumento de lares com múltiplos gatos poderia aumentar o risco epidemiológico felino, Soares afirma que, na verdade, no momento, “estamos em um caminho inverso”. Segundo ela, o maior acesso à informação por parte de tutores tem feito com que esse tipo de problema seja mitigado.
“Embora o número de gatos esteja aumentando, a gente tem a oportunidade de reduzir essa casuística, tendo em vista todas essas informações das quais temos acesso”, conclui. Para a especialista, tudo isso passa pela ampla conscientização de tutores e veterinários.