Falta de especialistas qualificados limita expansão de hospitais e clínicas veterinárias
Escassez de vagas em programas de residência reflete-se na prática médica inadequada
por Marcia Arbache em
A expansão de hospitais e clínicas veterinárias no Brasil esbarra em um gargalo que vai além da demanda crescente por serviços – a dificuldade em garantir especialistas qualificados e disponíveis para a rotina das instituições. A avaliação é de Tatiana Machado, vice-presidente da Associação Nacional de Hospitais Veterinários (ANHV) e CEO da rede Animaniacs.
Segundo ela, o mercado vive um cenário paradoxal. “Se olharmos apenas para a formação, o que mais existe são cursos de pós-graduação lato sensu em diversas especialidades. A cada ano, saem da academia dezenas de ortopedistas, cardiologistas e oftalmologistas. Em números absolutos, não parece faltar especialista”, afirma.
No entanto, a realidade é outra na prática. “O que falta é especialista de qualidade e, principalmente, com disponibilidade na agenda”, reforça. Para Tatiana, muitos profissionais recém-formados ingressam diretamente em cursos de especialização, buscando crescimento rápido e melhores rendimentos, mas ainda sem vivência clínica robusta para atuar em casos complexos, especialmente em ambiente hospitalar.
Formação prática insuficiente
O impacto dessa lacuna recai diretamente na expansão das unidades. Em hospitais veterinários, a presença de múltiplas especialidades aumenta a retenção de casos, melhora o desfecho clínico e eleva o tíquete médio. “Quando você tem ortopedista, cardiologista, dermatologista e UTI no mesmo local, o paciente não precisa sair dali. Isso fortalece a marca, consolida o posicionamento e faz o hospital crescer”, acredita.
O presidente da Associação Nacional de Médicos-Veterinários (ANMV), Marcio Mota, segue na mesma linha. Ele entende que o problema não reside exatamente na falta de profissionais que se autodenominam especialistas, mas na escassez de médicos veterinários que passaram por programas formais de residência e têm titulação reconhecida. “Hoje a especialidade na medicina veterinária não está muito bem definida”, ressalta.
De acordo com Mota, a falta de profissionais com formação prática aprofundada tem impacto direto na evolução do setor hospitalar veterinário. Isso ocorre porque a demanda por atendimento especializado cresce rapidamente, impulsionada principalmente pelo perfil cada vez mais exigente dos tutores de animais de estimação. “Os clientes já chegam à consulta com o clínico geral perguntando se não é melhor procurar um dermatologista ou um oftalmologista”, revela.
Profissionais menos qualificados em hospitais
Mota acrescenta que a carência de especialistas com formação completa obriga muitos hospitais a trabalhar com profissionais que apresentam menos qualificação. Para o presidente da ANMV, o principal motivo desse cenário é falta de vagas em programas de residência veterinária no país. “O número disponível está muito aquém da quantidade de médicos-veterinários formados anualmente”, pontua.
Mota explica que esses programas precisam de apoio institucional, o que leva muitas universidades a não criarem residências pelo custo e pela dificuldade de aprovação pelo MEC. As poucas vagas existentes estão em universidades públicas e abrangem diferentes áreas da medicina veterinária, desde pequenos animais até produção animal e inspeção de alimentos. “Ainda assim, são insuficientes para atender à demanda do mercado’’, observa.
Clínicas de menor porte não retêm especialistas
Sem acesso a esse tipo de formação, muitos recém-formados acabam ingressando diretamente no mercado como clínicos gerais ou plantonistas, aprendendo na prática, dentro das próprias clínicas e hospitais. “Normalmente eles fazem uma pós-graduação ou algum programa de treinamento ao mesmo tempo em que trabalham. Ganham experiência no dia a dia, mas isso não substitui uma residência estruturada”, diz Mota.
Tatiana aborda também o gargalo da remuneração. Nas clínicas de menor porte é mais difícil manter um especialista com agenda fixa. “Como a demanda é pontual e muitas vezes urgente, o profissional prefere atuar em hospitais com maior volume de atendimentos. Ele vai onde consegue atender cinco pacientes no dia, e não um só”, resume.
Novo modelo de remuneração
Para enfrentar o problema, alguns hospitais vêm adotando um modelo de remuneração com valor mínimo garantido por hora ou por período. Assim, o especialista não depende exclusivamente do número de consultas para viabilizar sua presença. “É uma forma de estimular a abertura de agenda. Mesmo que o movimento ainda seja pequeno, o profissional tem segurança de que não ficará no prejuízo”, explica Tatiana.
A estratégia tem ampliado a disponibilidade em algumas redes e contribuído para fortalecer a grade de especialidades. Entre as áreas mais demandadas atualmente estão cardiologia, dermatologia, oncologia, gastroenterologia e ortopedia, fisioterapia, medicina integrativa, nutrologia e cuidados paliativos. Mota acrescenta que as novas especialidades refletem tendências semelhantes às da medicina humana, citando ainda pneumologia, geriatria, neonatologia e reprodução.
Prova de títulos
Para Motta, outra área que tende a ganhar espaço é a de responsabilidade técnica. Essa função é obrigatória em estabelecimentos como clínicas, hospitais, pet shops e canis, onde um médico veterinário responde pelo cumprimento das normas sanitárias e técnicas.
Além disso, áreas como UTI e cuidados críticos vêm se consolidando, acompanhando a complexidade crescente dos atendimentos hospitalares.
Para reduzir o déficit de especialistas, Mota defende três frentes principais:
- ampliar programas de residência
- estimular iniciativas de aprimoramento profissional
- facilitar a certificação formal de especialistas.
Tatiana compartilha da mesma visão, lembrando a falta de padronização nos títulos como um fator que impacta a percepção de qualidade. “Nem todos passam por prova de título. Isso gera uma variação grande na formação”, conclui.