Falsificação de medicamentos veterinários já movimenta R$ 1 bi
Estimativa do setor reflete avanço de riscos com vendas digitais e ausência de regulação específica para animais de companhia
A falsificação de medicamentos veterinários voltou ao centro da agenda do setor pet após a repercussão da Operação Reação Adversa, conduzida pelo Ministério Público de Minas Gerais no início do ano. A investigação desarticulou um esquema que operava dezenas de lojas virtuais com milhares de anúncios de produtos irregulares. Houve apreensão de comprimidos, seringas e embalagens sem procedência, além de prisões em flagrante.
O episódio escancarou a dimensão de um problema que já vinha sendo monitorado pela indústria. Embora faltem estatísticas oficiais sobre o tamanho do mercado ilegal no Brasil, estimativas do setor apontam que as falsificações podem movimentar cifras superiores a R$ 1 bilhão ao ano, considerando o avanço do comércio digital e o crescimento da própria indústria, que já ultrapassou R$ 10 bilhões em faturamento.
Globalmente, o comércio de medicamentos falsificados – humanos e veterinários – pode alcançar US$ 210 bilhões anuais (R$ 1,1 trilhão), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), consolidando-se como uma das atividades ilícitas mais lucrativas do planeta.
Operações expõem fragilidade na cadeia
A ofensiva do MPMG evidenciou a facilidade com que grupos criminosos estruturam operações no ambiente online. O uso de intermediários, contas em nome de terceiros e a rápida substituição de perfis dificultam a rastreabilidade e desafiam os modelos tradicionais de fiscalização.
No Brasil, a supervisão de produtos veterinários cabe ao Ministério da Agricultura e Pecuária, que atua em parceria com polícias Federal e Civil. Contudo, a dispersão de competências entre órgãos federais, estaduais e municipais, aliada à limitação de equipes especializadas, amplia as brechas exploradas por quadrilhas cada vez mais profissionalizadas.
Levantamento do Radar Vet reforça a vulnerabilidade do mercado, já que 64% dos médicos-veterinários não conseguem identificar um medicamento falsificado. “O consumo prudente de medicamentos, em especial os antimicrobianos, o combate à pirataria e o correto descarte são de corresponsabilidade dos profissionais. Médicos veterinários devem buscar informação e alertar seus clientes sobre o perigo dessas substâncias”, adverte a presidente do CFMV, Ana Elisa Almeida.
E-commerce amplia risco sanitário
A consolidação do e-commerce de produtos pet elevou a exposição a produtos de origem duvidosa. Ofertas com preços muito abaixo da média seguem como principal atrativo. “Hoje, os criminosos copiam os medicamentos de forma tão fiel que até o veterinário tem dificuldade de identificar quando é falso. A popularização das compras online tornou a aquisição mais prática, mas também dificultou a rastreabilidade da origem”, alerta Gabriela Mura, diretora de assuntos regulatórios e mercado do Sindan.
Entre os itens mais visados estão antiparasitários palatáveis contra pulgas e carrapatos e medicamentos de alto valor agregado para controle de alergias. O risco, porém, vai além do prejuízo financeiro. “O preço baixo é sempre o grande atrativo e pesa demais na decisão do tutor. O comércio online favorece o acesso a produtos cuja origem não é possível verificar”, acrescenta Gabriela.
Frente unificada ganha força
Diante do avanço das irregularidades, o Sindan renovou a parceria com o CFMV por meio da campanha Olhos Abertos. A iniciativa busca conscientizar veterinários, zootecnistas, produtores e tutores sobre os perigos do consumo de medicamentos falsificados.
“A parceria com o conselho potencializa nossa comunicação e amplia o alcance das orientações ao mercado. O enfrentamento à falsificação exige ação coordenada entre indústria, profissionais e poder público”, destaca Gabriela.
Para o CFMV, a mobilização conjunta é estratégica diante da transformação digital. “A fiscalização precisa ser acompanhada de educação e informação. O veterinário tem papel central como multiplicador e guardião da saúde única”, reforça Ana Elisa.
Fragilidade regulatória
Na visão de Roberto Lange, fundador e diretor da Associação Brasileira de Hospitais Veterinários (ABHV), o rápido avanço da medicina veterinária de animais de companhia expôs uma lacuna regulatória e ampliou o nível de insegurança técnica e jurídica entre profissionais e empreendedores.
“Precisamos ter uma agência reguladora específica para pets. O atual sistema de fiscalização e normatização é fragmentado e ultrapassado, dividido entre CFMV, MAPA e as vigilâncias sanitárias federal e municipais”, argumenta.
Para o executivo, o MAPA não detém conhecimento técnico para regulamentar a rotina de uma clínica veterinária. “Tenho mais de 30 anos de hospital e nunca recebi uma fiscalização do órgão”, revela. A Anvisa também não supre essa lacuna. “Cada vigilância sanitária municipal exige uma coisa diferente. Não há protocolos padronizados”, pontua.