Indústrias de rações apertam custos para driblar juros altos
Fabricantes ajustam portfólio, reforçam caixa, investem em automação e buscam eficiência energética para enfrentar pressão sobre consumo e margens
Paulo Fortuna, especial para o Panorama Pet&Vet
Os juros elevados e a escalada dos custos de produção estão levando a indústria de alimentos para pets a rever estratégias para atravessar um cenário econômico mais adverso. As ações passam por ajustes no portfólio, mudanças nos processos produtivos e iniciativas para reduzir gastos fixos e variáveis dentro das fábricas.
Segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet), apesar da resiliência do setor, o desempenho segue aquém do potencial. A infraestrutura instalada permitiria um volume de produção significativamente maior do que o atual.
José Edson Galvão de França, presidente do Conselho Gestor da entidade, reforça que a combinação de juros, inflação e desaceleração do consumo tornou o tutor brasileiro mais cauteloso. Ele destaca ainda a elevada carga tributária do setor, próxima de 50% no Brasil, frente a uma média global de 18%. “Isso encarece drasticamente o produto final e limita tendências como a premiumização, dificultando a democratização de itens de maior qualidade”, analisa.
Consumo pressionado muda o mix de produtos
Um dos principais entraves apontados pelo setor é a perda do poder de compra das famílias, reflexo direto da inflação persistente e do custo elevado do crédito. Esse panorama forçou alterações significativas no mix da Ultra Pet Alimentos, com sede em São José do Rio Preto (SP) e clientes em 11 estados brasileiros. A fabricante é especializada na produção de alimentos secos para cães e gatos.
“Nos últimos dois anos, a participação da linha Premium Especial no faturamento, com preço mais acessível, saltou de 20% para 50%. Já a Super Premium, de maior valor agregado, foi a mais afetada. O mercado acaba se adequando ao bolso do consumidor”, relata o CEO Carlos Henrique Souza.
Gestão de caixa, estoques e energia no centro das decisões
Para minimizar o impacto financeiro, a Ultra Pet Alimentos, que atende principalmente o varejo especializado e distribuidores regionais, intensificou a formação de estoques e passou a priorizar a compra de matérias-primas à vista. “Optamos por essa modalidade de pagamento em insumos como frango, farinha e óleo, o que facilita a negociação de descontos. Compramos volumes maiores para nos proteger da volatilidade dos preços”, explica Souza.
A estratégia também se estende aos insumos importados utilizados em formulações específicas. “Estoques mais robustos ajudam a reduzir a exposição à variação cambial e à instabilidade do mercado internacional”, ressalta o executivo. França acrescenta que, embora o Brasil seja abundante em matérias-primas, a indústria de rações ainda depende de ingredientes funcionais, aditivos e suplementos importados, sensíveis à valorização do dólar.
No campo energético, a indústria migrou para o mercado livre, reduzindo o impacto de um custo que representa cerca de 6% das despesas. “Além da economia, conseguimos aderir a fontes renováveis, alinhando eficiência financeira e sustentabilidade”, destaca.
Automação e eliminação de intermediários
A Prediletta Pet, indústria localizada em Sabáudia (PR), atua historicamente como fornecedora de ingredientes e soluções nutricionais para grandes fabricantes de alimentos pet. Recentemente, ampliou sua presença no mercado com linhas próprias voltadas à nutrição natural e funcional.
Segundo o CEO Michael Gimenez, a busca por eficiência levou a uma revisão profunda da cadeia produtiva. “Estamos eliminando intermediários. Em vez de farelos, compramos beterraba e cenoura in natura. Também substituímos a farinha de carne pela carne propriamente dita, o que vem reduzindo custos industriais e nos permitindo entregar um produto mais saudável, com maior valor nutricional”, revela.
A Prediletta também investiu em automação industrial, com foco em padronização, ganho de escala e aumento da produtividade. A migração para o mercado livre de energia também figurou entre as estratégias.
Dados do Sindirações justificam esse movimento
Mesmo mantendo trajetória de crescimento, o mercado brasileiro de pet food registrou em 2025 um desempenho menos robusto que o observado em outros segmentos da indústria de alimentação animal.
Segundo balanço do Sindirações apresentado em dezembro passado, a projeção é o que setor tenha encerrado o ano com 4,04 milhões de toneladas produzidas. O avanço é moderado diante da expansão de 2,8% prevista para a indústria de rações no país. Entre janeiro e setembro, o consumo voltado para cães e gatos alcançou aproximadamente 3 milhões de toneladas.
A evolução revela-se ainda mais tímida quando analisada a movimentação de 2024, período em que a alta frente ao ano anterior chegou a 3,3%. Em 2023, a categoria registrou incremento de 6,3%. A representatividade do pet food no montante geral da indústria é de 4,5%.
Produção de rações para pets – 2025
(em milhões de toneladas e crescimento %/ano anterior)

“A pressão sobre custos, a desaceleração do consumo doméstico e a competição crescente entre marcas, especialmente no segmento econômico, fizeram esse segmento priorizar o menor preço para fazer giro e recompor margens”, pondera Ariovaldo Zani, vice-presidente executivo da entidade.
Além disso, o Sindirações analisa que parte dos tutores intensificou um movimento de migração para linhas intermediárias, buscando equilíbrio entre custo e valor nutricional – o que impacta o faturamento e pode contribuir para reduzir o ritmo de produção.