Ultrafarma encerra aposta no varejo pet. O que está por trás
Com planos ambiciosos anunciados em 2023, rede escancara efeitos da Operação Ícaro e de litígios com franqueados
A trajetória da Ultrafarma no mercado pet, iniciada em 2023, terminou antes mesmo de ganhar escala. De forma discreta e sem comunicados oficiais ao mercado, a rede de farmácias descontinuou operações no setor. O mais recente anúncio da abertura de uma megaloja de 3 mil m² na zona norte de São Paulo (SP) poderia representar uma retomada da aposta no segmento, mas a companhia descartou a ideia de ter um pet shop nesse complexo.
Lançada com forte discurso de crescimento e definida como um dos pilares da diversificação do grupo, a Ultrafarma Pets nasceu com investimento inicial estimado em R$ 2 milhões. O aporte seria direcionado à estruturação de uma plataforma própria de e-commerce e um centro de distribuição exclusivo para o varejo pet, localizado em Santa Isabel (SP) e com 7 mil m² de área útil.
O negócio previa ainda a oferta de medicamentos veterinários, suplementos, acessórios e, no médio prazo, marcas próprias. Internamente, a expectativa era de que a venda dos produtos dessa categoria respondesse por cerca de 5% da receita total.
O projeto ganhou ainda mais visibilidade quando a empresa anunciou a intenção de inaugurar um mega pet shop nas proximidades de sua sede no bairro do Jabaquara, zona sul da capital paulista. O espaço, segundo os planos divulgados, reuniria cerca de 2 mil SKUs, ampla área de estacionamento e serviria como piloto para um futuro modelo de licenciamento da bandeira pet. Nada disso saiu do papel.
Operação Ícaro escancarou turbulência financeira
Nos bastidores, o recuo ocorre em meio a um cenário financeiro delicado. A empresa enfrenta os desdobramentos da Operação Ícaro. Conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e deflagrada em agosto de 2025, a investigação apura um suposto esquema bilionário envolvendo liberação irregular de créditos de ICMS.
O caso impactou diretamente a capacidade da Ultrafarma de antecipar créditos tributários, prática que sustentava condições comerciais mais agressivas com a indústria e ajudava a financiar projetos paralelos. “Sem essa engrenagem, a margem de manobra diminuiu drasticamente”, resume uma fonte.
A dificuldade de execução também se estendeu ao modelo de expansão via licenciamento, que seria inicialmente incorporado às operações do varejo farmacêutico para posterior replicação no setor pet. Relatos de ex-franqueados apontam cancelamento de contratos por licenciados da bandeira Ultra Popular, além de litígios judiciais.
Um dos problemas residiria na tentativa de impor a venda da marca própria do fundador da Ultrafarma, Sidney Oliveira, com descontos agressivos. Segundo fontes do mercado, as lojas próprias operavam com margens próximas a 60% enquanto o percentual alocado aos franqueados se limitava a 25%.
O que dizem os especialistas?
Para especialistas ouvidos pelo Panorama Pet&Vet, o episódio evidencia que a entrada no mercado pet exige mais do que escala logística e agressividade em preços. “É um setor muito pulverizado, com dinâmica própria, forte componente de serviço, relacionamento e credibilidade. Não basta transpor o modelo da farmácia”, avalia Geraldo Monteiro, consultor especializado em desenvolvimento de negócios e com histórico de atuação no canal farmacêutico.
Outro aspecto envolve as barreiras de entrada no setor, com grandes grupos e distribuidoras consolidadas como hubs do varejo regional. “E o plano de se ancorar em megalojas conflita com a atual jornada do consumidor, pois comumente esses pontos de venda não entregam facilidade, rapidez e, principalmente, acolhimento”, complemente Fabiano Granville, fundador da plataforma EloVetNet.