Criação da União Pet lança alerta de desequilíbrio no mercado
Especialistas apontam risco de fechamento de lojas, aumento da inadimplência e pressão sobre preços da indústria com união entre Petz e Cobasi
Paulo Fortuna, especial para o Panorama Pet&Vet
A fusão entre Petz e Cobasi, aprovada pelo plenário do Cade no fim de 2025, acendeu um sinal de alerta no mercado pet. Executivos, distribuidores e representantes da indústria avaliam que a União Pet tende a concentrar poder de barganha, pressionando preços, alterando relações comerciais e ampliando o risco de inadimplência ou até de fechamento de PDVs entre pequenos e médios varejistas.
A nova empresa nasceu com faturamento de R$ 7 bilhões, mais de 480 lojas e presença em 20 estados. Como condição para aprovação, o Cade impôs um Acordo em Controle de Concentração (ACC) que prevê o desinvestimento de 26 lojas no estado de São Paulo, o equivalente a 3,3% da receita, com foco em regiões de alta sobreposição entre as redes. Ainda assim, agentes do setor consideram a medida insuficiente para mitigar os efeitos estruturais da operação.
“Mesmo com o ACC, estamos falando de um grupo com escala e poder financeiro sem precedentes no mercado pet brasileiro”, avalia um executivo do setor, sob condição de anonimato. “O impacto não se restringe ao varejo; ele se estende à indústria, à logística e à dinâmica de preços”, acrescenta.
Pressão sobre a indústria e guerra de preços
Para Diego Dahas, presidente da Andipet, a estratégia inicial da União Pet tende a ser agressiva. “A primeira movimentação deve ser pressionar a indústria por condições diferenciadas e fomentar uma guerra de preços. Quem sofre diretamente são os pequenos e médios varejistas, atendidos pelas distribuidoras e que não têm estrutura para competir nesse patamar”, avalia.
O dirigente acredita, no entanto, que essa política não será sustentável no longo prazo. “A estratégia deve durar até que o grupo amplie seu market share e consolide dominância. Depois, os preços tendem a subir para recomposição de margens. Nesse cenário, todos perdem, inclusive o tutor”, diz. Atualmente, o market share combinado da União Pet é estimado em 11%.
Além disso, Dahas lembra que diversas ONGs se posicionaram contra a fusão durante o processo de análise do Cade. “Há o receio de que a concentração excessiva encareça produtos no futuro e até estimule o abandono de pets”, pontua.
Distribuidores e pequenos varejistas no centro da equação
Diante do novo cenário, a Andipet defende um papel mais ativo do atacado no fortalecimento do varejo independente. “O setor ainda carece de profissionalização. Muitos pequenos lojistas não operam no comércio eletrônico e têm dificuldades em gestão e atendimento. Os distribuidores podem e devem atuar como parceiros estratégicos, oferecendo treinamento técnico e apoio comercial”, pondera.
A preocupação é compartilhada por Thyago Pereira, diretor da Breeds, rede de médio porte com oito lojas em São Paulo. Segundo ele, o poder de barganha da União Pet tende a reverberar por toda a cadeia. “Um grupo capaz de movimentar R$ 7 bi tem força para ditar regras aos fornecedores, inclusive com prazos de pagamento mais longos.A indústria, pressionada, pode tentar compensar isso nos pequenos lojistas, apertando ainda mais o fluxo de caixa”, projeta.
Pereira adverte ainda para possíveis impactos logísticos. “Em situações de ruptura de estoque, a indústria tende a priorizar o cliente que representa uma fatia maior do faturamento. Pequenos e médios podem ficar no fim da fila, seja em prazos de entrega ou no acesso a lançamentos. Isso exigirá uma gestão de estoque muito mais eficiente por parte dos independentes”, explica.
Inadimplência e margens cada vez mais estreitas
Na avaliação de Mauricio Nogueira, presidente da Animais Distribuidora, atacadista pet com sede na Bahia, a pressão exercida pelas grandes redes não é um fenômeno novo, mas tende a se intensificar. E a indústria também opera no limite. “Muitos fabricantes trabalham com margens extremamente apertadas ao atender grandes redes. Além disso, sofrem uma dupla pressão, já que esses grupos também investem fortemente em marcas próprias”, destaca.
Para ele, uma alternativa seria a adoção de políticas de preços mais equilibradas. “Entregar produto a qualquer custo apenas para estar na prateleira pode comprometer a sustentabilidade do setor como um todo”, opina.
Experiência, nichos e diferenciação como saída
Para Ricardo de Oliveira, diretor de expansão da Bable Pet e mentor de empresas, o impacto mais severo da guerra de preços deve se concentrar no ambiente digital. Ele observa, porém, que os longos prazos de pagamento exigidos pelos grandes grupos, que podem chegar a 180 dias, abrem espaço para negociações diferenciadas com o pequeno varejo. “Os fabricantes tendem a oferecer melhores condições aos lojistas independentes para reduzir o impacto no capital de giro”, reforça.
Ainda assim, o consultor é categórico ao apontar o caminho para a sobrevivência dos menores. “Se o pequeno não investir em experiência, nichos e diferenciação, a disputa ficará restrita ao preço e, nesse campo, ele tende a perder”, conclui.