ADM fecha acordo de US$ 40 milhões por fraude contábil
Notícia representa mais um capítulo na crise que envolve a multinacional de pet food e se estende ao mercado brasileiro
por Juliana de Caprio em
A Archer-Daniels-Midland Company (ADM) firmou um acordo de US$ 40 milhões (R$ 209,82 bilhões) com a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) para encerrar um processo por fraude contábil envolvendo seu segmento global de nutrição. O desfecho do caso ocorre em paralelo à reestruturação da atuação da companhia na nutrição animal, que se estende ao mercado brasileiro com a negociação para venda de sua fábrica de rações em Três Corações (MG).
Segundo a SEC, a ADM inflou de forma relevante os resultados do negócio de nutrição nos anos fiscais de 2021 e 2022. A acusação aponta que o então executivo Vikram Luthar determinou ajustes indevidos em transações internas entre a divisão de nutrição e outros segmentos do grupo, como descontos retroativos e alterações de preços não praticáveis no mercado externo. As manobras teriam transferido lucro operacional para a área de nutrição com o objetivo de sustentar metas de crescimento anual entre 15% e 20%.
Outros dois ex-executivos, Vince Macciocchi e Ray Young, também foram implicados por participação direta ou aprovação negligente dos ajustes. De acordo com o regulador, as práticas tornaram os relatórios financeiros da ADM falsos e enganosos, superestimando o desempenho do segmento ao longo de vários trimestres.
Apesar das acusações, a ADM cooperou com as investigações, conduziu apuração interna e implementou medidas corretivas, incluindo novos controles contábeis e revisões de políticas internas. Além da multa principal, Macciocchi e Young aceitaram pagar restituições, juros e penalidades civis que somam centenas de milhares de dólares. Macciocchi também concordou com uma proibição de três anos para atuar como executivo ou conselheiro de companhias abertas.
Reorganização estratégica no Brasil
O acordo com a SEC ocorre enquanto a ADM reduz sua exposição à nutrição animal no Brasil. A companhia negocia a venda da fábrica de ração de Três Corações (MG) ao grupo brasileiro Agronorte. A unidade está paralisada desde meados de 2025, após a ADM decidir encerrar as operações diante de prejuízos recorrentes.
O valor da transação não foi divulgado, mas ficou abaixo da expectativa inicial da multinacional, estimada em cerca de R$ 1,5 bilhão. A venda integra um movimento mais amplo de ajuste do portfólio da ADM, intensificado após a identificação de inconsistências contábeis no segmento em 2023.
Com aproximadamente 50 anos de operação, a planta mineira é considerada uma das maiores do mundo no setor, com capacidade instalada de até 520 mil toneladas por ano. Sob a gestão da ADM, porém, operava com produção em torno de 200 mil toneladas anuais, atendendo principalmente o mercado de alimentos para pets, que cresce entre 6% e 7% ao ano, além de rações para peixes e ruminantes.
Expansão da Agronorte
Para a Agronorte, a possível aquisição representa uma oportunidade de acelerar a expansão por meio de um ativo industrial já estruturado. Caso o negócio seja concluído, a empresa estima mais que dobrar sua capacidade produtiva e adicionar entre R$ 350 milhões e R$ 400 milhões ao faturamento projetado para 2026, a depender do ritmo de retomada da planta.
Atualmente, o grupo opera uma fábrica em Tocantinópolis (TO), atua em diversos segmentos do agronegócio e registrou receita líquida de R$ 1,3 bilhão em 2025, com alavancagem de 1,7 vez dívida líquida/Ebitda. A operação será submetida à análise do Cade, sob rito sumário. A ADM é assessorada pelo Barclays, enquanto a Agronorte conta com a consultoria financeira da Ecowa.
O encerramento do processo com a SEC e a saída de ativos no Brasil sinalizam um período de reavaliação estratégica da ADM na nutrição animal. Ao mesmo tempo, abrem espaço para grupos locais ampliarem presença em um mercado que segue em expansão, especialmente no segmento de pet food.