Brasil ganha 1º Relatório de Impacto da Causa Animal
Estudo expõe fragilidades institucionais das ONGs e descompasso com o crescimento do mercado pet
por Juliana de Caprio em
e atualizado em
O mercado pet brasileiro vive um momento de maturidade econômica, mas enfrenta desafios estruturais profundos na base da pirâmide: a proteção animal. Durante evento realizado no último dia 4 de fevereiro em São Paulo (SP), a Federação Brasileira da Causa Animal (Febraca) apresentou o 1º Relatório de Impacto da Causa Animal no Brasil.
O documento é um marco para o setor pet e veterinário ao trazer, pela primeira vez, dados auditados e cruzados via API da Receita Federal sobre a realidade das Organizações da Sociedade Civil (OSCs).
Metodologia e governança: O raio-X do terceiro setor
Diferentemente de levantamentos anteriores baseados em estimativas, o relatório da Febraca utilizou uma metodologia rigorosa de tratamento de dados. O processo incluiu a extração estruturada de dados cadastrais das OSCs, filtragem de organizações em situação ativa, vinculação e interpretação do CNAE a partir do código numérico e enriquecimento dos registros via API, incorporando dados oficiais do cartão CNPJ.
Os resultados revelam uma lacuna crítica de gestão:
- Profissionalização: 82,2% das instituições operam sem nenhum colaborador remunerado
- Transparência: 61% das ONGs não possuem portal de transparência ou relatórios financeiros acessíveis
- Informalidade: 70% dos voluntários atuam sem termo de adesão legal, o que eleva o risco institucional das entidades
Paradoxo econômico
Para o investidor e o empresário do setor, os números do mercado são pujantes. O Brasil ocupa a posição de 3º maior mercado pet do mundo, com previsão de faturamento de R$ 77 bilhões para 2025. Contudo, essa pujança não atravessa o muro das ONGs – 79% das organizações não mantêm parcerias com empresas privadas e 73% nunca firmaram convênios com o poder público.
“Esse relatório é um divisor de águas, pois transforma o amor pelos animais em indicadores concretos que não podem mais ser ignorados. Os números mostram que o abandono deixou de ser invisível, mas também revelam que a conta da compaixão não fecha sem estrutura”, explica Cadu Pinotti, presidente da Febraca. Segundo ele, a falta de recursos financeiros é citada por 76,1% das ONGs como o principal obstáculo para o crescimento.
Operação saturação
A precariedade administrativa impacta diretamente a eficácia do acolhimento. Dados do Instituto Pet Brasil revelam:
- Taxa de ocupação: 135% (superlotação crônica).
- Eficiência de adoção: 56,1% das ONGs conseguem realizar apenas de uma a cinco adoções mensais.
- Giro de animais: a cada 3 animais que entram, apenas 1 sai.

O desafio do ESG e a visão da indústria
O índice de abandono em 2024 atingiu a marca de 30,19 milhões de animais. Para marcas que buscam consolidar estratégias de ESG, esses dados são um chamado à ação.
| Categoria | Cães | Gatos | Total |
| Animais Abandonados | 20,2 Milhões (25%) | 10 Milhões (26%) | 30,19 Milhões |
| Animais em Abrigos | 177,6 Mil | 7,4 Mil | 185 Mil |
O relatório contou com o patrocínio da Mars, reforçando o papel das grandes corporações no fortalecimento da cadeia. Andrei Gomes, gerente de relações governamentais da Mars, destacou que o apoio ao estudo é fundamental para transitar de uma atuação baseada em percepções para dados reais.
“O objetivo é que esses dados e esse relatório sirvam de base para que empresas, governos e a sociedade civil olhem para a causa animal de forma estruturada”, afirmou o gerente para o Panorama PetVet.
“Para a Mars, apoiar este projeto é fundamental para que possamos transitar de uma atuação baseada em percepções para uma atuação fundamentada em dados reais. Precisamos entender o tamanho do desafio para criar soluções de impacto e políticas públicas que realmente movam o ponteiro do bem-estar animal no Brasil”, complementou Gomes.
Ele ainda pontuou que o relatório é uma ferramenta essencial de advocacy, no qual os números servem de subsídio técnico para dialogar com instâncias governamentais. O executivo enfatizou que a transparência de dados é o primeiro passo para que o investimento social privado seja direcionado com eficiência, gerando sustentabilidade para todo o ecossistema pet.

Gestão estratégica: O caminho para o resultado
O estudo traz um “case” de sucesso, o programa Mentora Pet. As ONGs que passaram por capacitação em gestão estratégica registraram um aumento de 255% na receita e triplicaram o número de parceiros ativos em apenas cinco meses.
Além disso, a Febraca estima um potencial inexplorado de articulação política. Propostas legislativas de incentivo, como a dedução no IR para doações à causa animal, poderiam injetar até R$ 1 bilhão anual no setor.
Principais causas procuradas pelos doadores institucionais

Próximos passos
A federação projeta utilizar este diagnóstico para intensificar o advocacy e o fortalecimento institucional. O relatório sinaliza que o crescimento sustentável do mercado pet e veterinário depende diretamente da estabilização da rede de proteção, transformando o “amor pelos animais” em uma operação eficiente e profissionalizada.