iCatCare atualiza diretrizes para o tratamento da diabetes felina
Atualização das recomendações incorpora novos fármacos, reforça o papel do responsável e propõe manejo mais individualizado da diabetes mellitus felina
por Juliana de Caprio em
A iCatCare Veterinary Society publicou as diretrizes mais recentes para o diagnóstico e o acompanhamento da diabetes mellitus em gatos, marcando uma mudança relevante na condução dessa endocrinopatia. O documento, divulgado no Journal of Feline Medicine and Surgery, reúne avanços científicos da última década e propõe um manejo mais flexível, adaptado às necessidades individuais dos felinos e à rotina dos responsáveis.
Dez anos após a publicação das orientações anteriores, o cenário científico evoluiu de forma significativa. Novos medicamentos, melhorias na insulinoterapia e o uso de ferramentas modernas de monitoramento glicêmico motivaram a revisão completa dos conceitos, com foco em maior precisão clínica e melhor qualidade de vida para os animais.
Novos medicamentos ampliam as opções terapêuticas
Entre os principais destaques das novas diretrizes está a inclusão dos inibidores do co-transportador sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2) como alternativa terapêutica para gatos criteriosamente selecionados. Já utilizados na medicina humana, esses fármacos passam a integrar o manejo da diabetes felina em casos específicos, reduzindo algumas das dificuldades associadas ao uso diário de insulina.
Administrados por via oral, uma vez ao dia, os iSGLT2 podem facilitar a adesão ao tratamento, especialmente para responsáveis que têm receio das aplicações injetáveis e do risco de hipoglicemia. Especialistas, no entanto, ressaltam que não há evidências consistentes de remissão da doença com essa classe de medicamentos, o que indica a necessidade de tratamento contínuo ao longo da vida do animal.
Abordagem individualizada orienta a escolha do tratamento
As diretrizes apresentam um algoritmo terapêutico que auxilia o médico-veterinário na definição da melhor estratégia após o diagnóstico. Gatos clinicamente estáveis, com apetite preservado, boa hidratação e ausência de comorbidades, descritos no documento como “gatos felizes”, podem ser candidatos ao uso de iSGLT2, desde que haja concordância e entendimento do responsável.
Em situações com suspeita ou confirmação de doenças associadas, a recomendação é tratar primeiro essas condições antes de optar entre insulinoterapia ou medicação oral. Já em gatos debilitados, desidratados ou com sinais clínicos mais graves, a insulinoterapia permanece como a opção mais segura e indicada.
Monitoramento glicêmico mais preciso e menos estressante
Outro avanço relevante abordado no documento é a validação do uso de sensores de monitoramento contínuo da glicose em animais de companhia. Aplicados na pele do gato, esses dispositivos permitem acompanhar as variações glicêmicas ao longo do dia sem a necessidade de múltiplas coletas invasivas.
Além de fornecer dados mais completos para ajustes terapêuticos, a tecnologia reduz o estresse do paciente e está alinhada aos princípios da medicina cat friendly. Apesar de limitações pontuais de acesso, devido à alta demanda também na medicina humana, os sensores já são considerados ferramentas eficazes no manejo da diabetes felina.
Atualização das diretrizes redefine o manejo da diabetes felina
As novas diretrizes reforçam que a diabetes mellitus é uma endocrinopatia comum em gatos e apresenta semelhanças importantes com a diabetes tipo 2 em humanos, exigindo acompanhamento clínico contínuo e individualizado. O documento destaca que a escolha do tratamento deve considerar não apenas o perfil clínico do animal, mas também a rotina e a capacidade de adesão do responsável.
A comunicação clara entre médico-veterinário e tutor é apontada como fator determinante para o sucesso terapêutico, reduzindo inseguranças e favorecendo a continuidade do manejo ao longo do tempo. Nesse contexto, os iSGLT2 surgem como uma alternativa eficaz para gatos clinicamente estáveis e criteriosamente selecionados, ampliando as possibilidades além da insulinoterapia tradicional.
As diretrizes também reiteram o papel central do manejo nutricional, com dietas de baixo teor de carboidratos e alto teor de proteínas como estratégia fundamental para o controle glicêmico e, nos casos tratados com insulina, para o aumento das chances de remissão da doença. Por fim, o documento reconhece que complicações como hipoglicemia e cetoacidose podem ocorrer, mas ressalta que, com acompanhamento veterinário adequado e monitoramento contínuo, esses riscos são manejáveis e previsíveis.