Acordo UE–Mercosul pode impulsionar indústria de rações
Tratado reduz tarifas e amplia previsibilidade regulatória no mercado de pet food
por Juliana de Caprio em
e atualizado em
Após mais de duas décadas de negociações, a União Europeia (UE) e os países do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — avançaram na consolidação de um dos maiores acordos comerciais do mundo. Assinados em 17 de janeiro, no Paraguai, o Acordo de Parceria UE–Mercosul (EMPA) e o Acordo Comercial Interino (iTA) preveem a redução gradual ou eliminação de tarifas para diversos produtos ao longo de até 15 anos.
Entre os setores diretamente beneficiados está a indústria de alimentos para animais de estimação, que tende a ganhar competitividade com a ampliação do comércio bilateral e maior previsibilidade regulatória entre os blocos.
Pet food e suprimentos entre os produtos contemplados
O acordo facilita o comércio de alimentos para cães e gatos destinados ao varejo, ingredientes para ração animal e subprodutos vegetais utilizados na formulação de pet food, como bagaço de uva, folhas e talos de milho, bolotas e castanhas. Também estão incluídos itens como coleiras, guias, focinheiras, mantas e vestuário para animais de companhia.
Embora a implementação das reduções tarifárias seja gradual, especialistas apontam potencial de fortalecimento das cadeias de suprimento, redução de custos logísticos e estímulo a investimentos cruzados entre Europa e América do Sul.
Oportunidades para exportação e acesso a insumos
Para o Mercosul, o acordo amplia o acesso a um mercado europeu de alto valor agregado. Segundo Sebastián Dates, gerente-geral da Câmara Argentina de Empresas de Nutrição Animal (CAENA), a região dispõe de matéria-prima em volume superior à demanda interna.
“Isso também permitirá importar ingredientes e aditivos da União Europeia que não são produzidos localmente, a custos menores, aumentando a competitividade dos produtos”, afirmou à GlobalPETS.
A União Europeia, por sua vez, se beneficia do acesso ampliado a ingredientes agrícolas e de origem animal, enquanto mantém sua posição como polo de produtos acabados de maior valor agregado.
Regras sanitárias e rastreabilidade ganham protagonismo
Além da redução tarifária, o acordo reforça a cooperação em áreas como bem-estar animal, biotecnologia e segurança alimentar. A Comissão Europeia manterá as exigências sanitárias e fitossanitárias (SPS) e anunciou a criação de um Comitê SPS conjunto UE–Mercosul, além de um diálogo específico com o Brasil.
Estão previstas auditorias reforçadas, treinamentos para autoridades nacionais e uma força-tarefa dedicada ao controle de importações. As exigências incluem normas de bem-estar animal, práticas agrícolas sustentáveis e maior rastreabilidade na cadeia produtiva.
Para Bernardo Otero, líder das operações latino-americanas da consultoria Nexus Animal Health, o acordo tende a elevar o padrão competitivo do setor. “Haverá maior demanda por produtos inovadores, com respaldo veterinário, protocolos rigorosos de biossegurança, vigilância epidemiológica e rastreabilidade digital”, avalia.
Classificação aduaneira define alcance do pet food
Embora não trate exclusivamente do setor pet, o impacto do acordo ocorre por meio da classificação aduaneira do Sistema Harmonizado (SH). Alimentos acabados para cães e gatos vendidos no varejo estão enquadrados no código HS 2309.10.
Caso esse código receba reduções tarifárias, os benefícios se estendem automaticamente aos produtos de alimentação pet, assim como os ingredientes enquadrados em outras categorias. O impacto final dependerá dos cronogramas de implementação, logística, câmbio e aprovações regulatórias.
Efeitos graduais, mas estruturantes
Segundo a Comissão Europeia, o acordo pode elevar em até 39% as exportações anuais da UE para o Mercosul, o equivalente a cerca de € 49 bilhões (R$ 304,92 bilhões). Para o setor de alimentos para pets, o tratado representa regras mais claras, acesso ampliado a mercados e fortalecimento dos padrões sanitários. Ainda que seus efeitos sejam progressivos, o acordo tende a remodelar o comércio internacional de pet food, beneficiando fabricantes, fornecedores e consumidores nos dois blocos.